Exibido em Gramado, ‘Feito Pipa’ se entrega ao afeto em história sobre infância, liberdade e memória
Dirigido por Allan Deberton (de 'Pacarrete') e escrito por André Araújo, o filme cearense está na competição de longas brasileiros do 54º Festival de Cinema de Gramado
A competição de longas 54º Festival de Cinema de Gramado, na Serra Gaúcha, teve início com um dos mais adoráveis protagonistas da filmografia brasileira recente. Após encantar o 76º Festival Internacional de Cinema de Berlim (Berlinale) em fevereiro, onde venceu o Urso de Cristal de Melhor Filme (pelo júri infantil) e o Grande Prêmio do Júri Internacional na mostra Generation Kplus, "Feito Pipa" desembarca no Brasil carregado de afeto.
Gugu é o nome esse personagem principal, interpretado pelo genial ator mirim baiano Yuri Gomes. Com apenas 10 anos, ele adora jogar futebol, mas também ama se maquiar mora com sua avó, a irreverente Dilma (Teca Pereira), que começa a apresentar sinais de Alzheimer. Apesar da fragilidade dela, porém, ele não quer ir morar com o pai, Batista (Lázaro Ramos), que não aceita sua forma livre de ser, dançar e se vestir.
Quem dirige "Feito Pipa" é o cearense Allan Deberton e o roteiro, escrito por André Araújo a partir de uma junção de memórias pessoais, é totalmente contado pelo ponto de vista de Gugu. O menino dita tanto o ritmo e o tom do filme que toda vez que sua energia está nas alturas, a trilha sonora e a fotografia parecem dançar junto com ele, ao passo que os seus momentos quietos também são pontuados por silêncio e melancolia.
No papel, a relação sensível entre o protagonista e sua avó pode soar um clichê de ternura: uma criança doce e afetuosa que tem na avó, uma mulher tão livre quanto ele, todo o amor que nem sempre o mundo lhe devolve. As interpretações de Yuri Gomes e de Teca Pereira, porém, transmitem uma delicadeza tão genuína que "Feito Pipa" jamais se torna sentimentalmente forçado.
É bonito como as memórias de Dilma começam a falhar proporcionalmente à medida em que as águas de uma barragem descem, revelando aos poucos construções da cidade submersa. É um recurso visualmente poderoso para expressar esse espelhamento entre lembranças que começam a se apagar enquanto novas nascem ou são recuperadas.
Há, sim, uma dose considerável de açúcar da parte do texto, em particular na forma bem articulada com que alguns personagens expressam suas emoções — destaque para o pai vivido por Lázaro Ramos, que, por melhor que esteja no papel, carece de uma rispidez mais autêntica.
O possível excesso de polidez não impede que "Feito Pipa" tenha cenas de arrasar o coração, como um abraço seguido de uma despedida que já pode ser considerado um momento icônico do cinema brasileiro. É nessa pequena sequência que Allan Deberton, conhecido pela ênfase na doçura, parece avançar de verdade como cineasta e equilibrar dureza e carinho.
Em conversa com o Diario, diretamente de Gramado, o diretor reafirmou sua preocupação em criar uma atmosfera de acolhimento. "Desde a leitura do roteiro, eu percebi que André Araújo, que o escreveu, já trazia uma imediata conexão. E quando o filme passou em Berlim nós sentimos como ele era de fato bastante universal", contou Deberton. "É um lugar muito nordestino de ser, bem brasileiro, que se conecta, portanto, com todos aqui de maneira bem emocional, mas que tem mostrado sua força através dessa intimidade e identificação".
O pequeno Yuri, já com 12 anos (tinha 10 durante as gravações), também expressou seu orgulho de ter estreado no cinema com "Feito Pipa", destacando a responsabilidade de ser protagonista. "Foi tenso no começo e eu sou uma pessoa que não tem muita paciência, então ter que ficar repetindo as cenas me deixava nervoso. A chegada de mais crianças no set deixou tudo mais leve ainda", relembrou o ator mirim. "O Gugu é um personagem incrível porque ele não se define por uma coisa só, ele quer ser tudo ao mesmo tempo. A vida é uma só, por que não aproveitar e ser tudo?", refletiu.
Com distribuição da Paris Filmes, "Feito Pipa" estreia nos cinemas comerciais no dia 5 de novembro.