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Exposição de Ramonn Vieitez, na Galeria Marco Zero, tensiona o mundo celestial e forças da natureza

Exposição individual 'O Céu Não Cabe em Nenhum Paraíso' tensiona mundos celestiais e a força da natureza; abertura ocorre nesta quinta (6), às 19h, na Galeria Marco Zero

Por André Guerra

Exposição estará disponível para visitação na Galeria Marco Zero até o dia 25 de setembro

As texturas, cores e formas da tinta do pintor pernambucano Ramonn Vieitez guiam mais suas mãos do que o contrário. Na busca por um horizonte profundo e existencial, que fascina e simultaneamente assombra, ele segue seus instintos sem medo das tensões e surpresas que podem surgir na sua frente — e geralmente surgem. Parte dessa confluência sensorial está presente na sua exposição “O Céu Não Cabe em Nenhum Paraíso”, que abre para o público nesta quinta-feira (6), às 19h, na Galeria Marco Zero, e segue disponível para visitação gratuita até o dia 25 de setembro.

Reunindo 30 obras inéditas do artista, a individual tem curadoria de Yuri Quevedo e reforça a construção de um universo simbólico, que referencia tanto alguns elementos do imaginário medieval quanto fenômenos naturais intensos. “A ideia de um paraíso celestial está presente de maneira recorrente em diversos manuscritos de tempos antigos. Esse senso de mistério e do fantástico sempre me interessou no meu trabalho”, descreve Ramonn em conversa com o Diario. “Ao mesmo tempo, olho para as obras e enxergo algo mais humano, descontrolado. Foi daí que o título da exposição nasceu, já que o lugar desse céu que estou buscando não é só ali. É um pouco de tudo e pode estar em diversos lugares”.

As telas levam títulos como “A Criação da Luz”, “A Serpente de Fogo”, “O Dia Mais Estranho do Mundo” e “O Abismo Reconheceu Algo Semelhante”, explicitando que os conceitos visuais de Ramonn circulam por elementos terrestres e, por que não, sobrenaturais, intangíveis. Isso fica claro não só na sua expressividade agressiva, que guarda uma noção bastante específica de fúria e movimento, mas também no modo como ele próprio classifica seu modus operandi.

“Costumo dizer que o trabalho manda em mim, mas eu não mando nele. Não sinto que faço nada, pelo contrário: é como se fosse levado a realizar alguma coisa e só assim algo vai realmente surgindo e, uma vez ganhando forma, adquire também significados”, explica. “A minha maior vontade é sempre trazer um sentimento de curiosidade. Do mesmo jeito que não tenho respostas prontas enquanto produzo, gosto de ver as pessoas olhando e discutindo. Não gosto de direcionar ninguém ou de definir a arte para o outro”.

O curador Yuri Quevedo participou de todo o processo de seleção das peças com Ramonn e acrescenta que não há divisão estável de planos ou sequer hierarquia do olhar no trabalho do pintor. “Todas as coisas da criação são fruto do mesmo gesto da mão”, afirma, apontando ainda que o alumínio é tratado como um poderoso artifício. “Sua superfície é trabalhada com a atenção de um ourives. Ao buscar na memória do próprio corpo aquilo que resta da luz, ele transforma um fenômeno fugidio em objeto durável e oferece ao mundo aquilo que sua oficina sabe produzir de melhor”.

Os horizontes que constituem as obras de “O Céu Não Cabe em Nenhum Paraíso” são tão magnéticos quanto fugazes, tão aprazíveis quanto hipnóticos. E é na busca por alcançá-los que Ramonn Vieitez, ao perceber a distância intransponível entre ele e seu objeto, contempla e mobiliza a tinta, entregue ao impulso visceral da imagem.