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Com linguagem experimental, ficção 'Aquele que Viu o Abismo' reflete caos e apatia em mundo em crise

Filme dirigido e protagonizado por Negro Leo, em parceria com Gregorio Gananian, estreia nesta quinta-feira (30) no Cinema da Fundação, no Recife

Por André Guerra

Negro Leo é diretor e protagonista do filme

Um futuro distópico que tem mais de real do que de futurista é o centro da ficção científica “Aquele que Viu o Abismo”, longa protagonizado pelo músico Negro Leo que entra em cartaz no Cinema da Fundação nesta quinta-feira (30). A obra, também dirigida pelo artista em parceria com Gregorio Gananian, gira em torno de um homem que, logo na cena inicial, tenta tirar a própria vida e acaba atirando na própria perna. O que se segue é uma abstrata e fragmentada perseguição a ele por parte de uma poderosa multinacional que promete a vida eterna às pessoas.

A angústia visual e sonora da produção, que venceu o Troféu Carlos Reichenbach da 27ª Mostra de Cinema de Tiradentes, em 2024, anuncia desde a primeira cena o recorte experimental que os diretores vão fazer de uma proposta distópica, entrecortando as sensações do personagem principal com imagens cotidianas que revelam uma confusão já explícita na própria lógica urbana. A confluência de diálogos em português, inglês e chinês, em distintas locações pelo mundo, ajuda a construir essa lógica solta, tanto no tempo quanto no espaço.

O excesso estilístico na condução de Negro e de Gregorio é essencial para transmitir, ao mesmo tempo, uma ansiedade do mundo atual e também certa apatia diante do caos social. Tudo é informação, ao passo que nada é. A desvantagem disso é que, no desenrolar da narrativa, “Aquele que Viu o Abismo” começa, ele mesmo, a banalizar suas ideias — formais e narrativas. A tentativa de elaborar um ensaio sobre o mundo, o imperativo da artificialidade na vida humana e a globalização violenta vai gradualmente perdendo força e caindo em território genérico.

Como em outras ficções científicas brasileiras contemporâneas, desde as mais formalistas, como “Futuro Futuro” (também em cartaz), até as mais rudimentares, como “Jamex e o Fim do Medo”, o longa faz da limitação orçamentária um mérito. Transforma seus truques de edição em uma força estética que reforça seus temas e aposta todas as suas fichas em um texto que soa cada vez mais existencial.

 

A experiência em si é capaz de gerar não apenas estímulos sensoriais fortes, mas também curiosas discussões sobre o estado atual da linguagem e da comunicação. O todo, por outro lado, não é nem de longe tão provocativo quanto sua superfície faz crer.