Solidão e desconexão entre gerações são tema de ‘Pequenas Criaturas’, com Carolina Dieckmann
Vencedor do prêmio de Melhor Filme de Ficção do Festival do Rio 2025, longa ambientado em Brasília durante os anos 1980 se destaca pela atmosfera e pelo elenco infantil
O ano é 1986 e o momento é de mudança para Helena (Carolina Dieckmann) e seus dois filhos, André (Théo Medon) e Dudu (Lorenzo Mello). Com o marido ausente e viajando a trabalho, a família chega a um apartamento em Brasília, durante o período da redemocratização. A desconexão notável entre eles leva cada um a um universo particular naquele mundo cheio de espaços abertos secos e pouco populosos, em que descobertas de diferentes fases da vida podem afetar totalmente os três em conjunto.
Esse é o enredo de “Pequenas Criaturas”, que entra em cartaz nos cinemas a partir desta quinta-feira (23). O filme é apenas o segundo longa de Anne Pinheiro Guimarães — que dirigiu “Transe” (2022) — e foi o grande vencedor do Troféu Redentor de Melhor Filme de Ficção do Festival do Rio 2025. A cineasta brasiliense, também responsável pelo roteiro, vem maturando essa história há mais de uma década e, durante entrevista ao Diario, enfatiza como o encontro com Carolina Dieckmann reforçou o aspecto pessoal da narrativa.
“A gente não se conhecia e o nosso encontro foi o maior presente que eu poderia receber como diretora. Mandei o roteiro para ela e foi surpreendente ver como a gente tinha coisas em comum. Passamos por algumas das mesmas perdas, somos mães de dois filhos e nos entendemos muito bem em poucas palavras ou nenhuma mesmo”, destaca Anne. “Ela é a atriz mais competente, inspirada e profissional com quem eu já trabalhei até hoje, então tudo saía sempre no tom certo”, elogia.
A incomunicabilidade entre gerações em um período ainda muito anterior às relações digitais é um recorte bastante particular de “Pequenas Criaturas”, filme de tom constantemente melancólico que encontra ocasionais zonas de perigo e tensão. A concisão da interpretação de Théo Medon, no papel do filho mais velho, lembra muito o universo de filmes hollywoodianos de adolescência à deriva.
É no labirinto de incertezas em relação ao futuro e na solidão compartilhada entre todos aqui que cruzam o caminho dessa família que o roteiro passa a ganhar vida. Brasília se transforma em importante personagem, exprimindo uma atmosfera curiosa: simultaneamente futurista e mofada, esquecida no tempo. “É uma cidade grande com uma sensação de ninguém e isso gerava uma sensação de opressão. Isso é bem diferente da Brasília de hoje, por exemplo, que é muito mais densa, com trânsito e desordem, mas coisas muito bonitas também, principalmente na vegetação”, reflete a realizadora.
Os silêncios de Carolina Dieckmann como Helena são contrapostos à energia cheia de criatividade e humor do caçula Dudu, que o estreante Lorenzo Mello transforma na maior força do longa. Na entrevista, a atriz enaltece o carisma do ator mirim. “Ele é realmente um acontecimento e é um menino irresistível no set. Era um grande desafio atuar junto dele porque tudo que ele falava eu queria rir, apertar e abraçar, enquanto a personagem está ali quase de saco cheio daquela criança”, brinca a protagonista, relembrando as gravações.
Dieckmann acrescenta ainda: "Mas, apesar da pouca idade, Lorenzo é incrivelmente concentrado também. Ele tem a energia do Dudu, mas na hora que Anne gritava ‘ação!’ ele até corrigia a posição dos objetos”, reforçando a autenticidade do que se vê em tela.
O elenco conta com participações importantes de Letícia Sabatella, Michel Melamed, Caco Ciocler e Fernando Eiras.