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Exposições de Derlon e Mestre Nado estreiam juntas na Galeria Marco Zero, nesta terça (30)

Vínculos entre a cultura popular e uma arte contemporânea em constante transformação são explorados nas exposições 'Das Graças Alcançadas' e 'Ocarinada', na Galeria Marco Zero

Por André Guerra

Derlon começou seu processo de pesquisa há mais de 10 anos

A arte de duas exposições entra em sintonia a partir desta terça-feira (30), às 19h, na Galeria Marco Zero, com a abertura das mostras “Das Graças Alcançadas”, do recifense Derlon, e “Ocarinada”, do olindense Mestre Nado. Ambas abraçam a cultura popular do Nordeste a partir da perspectiva de distintas gerações, formas e abordagens, mas, unidas, conseguem traduzir imageticamente várias ideias em torno da memória afetiva da iconografia regional e nacional. As mostras, que têm curadoria de Daniel Donato, ficarão disponíveis durante todo o mês de julho.

Fruto de uma pesquisa que já vem de mais de uma década — e agora finalmente atinge sua maturidade —, o trabalho de Derlon se destaca pela subversão da lógica tradicional de uma exposição de quadros e se expande para diversos suportes. O artista transita entre telas, objetos variados e instalações que refletem seu mergulho de tanto tempo em fotopinturas, que considera uma de suas maiores paixões estéticas. Suas figuras masculinas e femininas são menos um fim em si mesmas e mais o começo de um olhar aprofundado e coletivo sobre o povo brasileiro, nordestino em particular.

Em entrevista ao Diario, Derlon explica que, apesar dos seus fortes instintos artísticos, seu principal propósito é atingir emocionalmente o público. “Venho testando muitas formas há mais de 10 anos, mas eu diria que, com essa exposição, a minha pesquisa ganhou forma de verdade. Fiz de tudo para fugir do óbvio, para escapar das convenções e fugir de rótulos fáceis. E já consigo perceber isso através das reações que tenho observado das pessoas”, conta ele. “Nada é mais importante, para mim, do que perceber um afeto surgindo no rosto de quem observa minha arte. Ver surgir ou ressurgir na expressão de alguém uma lembrança, uma referência, um afeto é o que deixa mais satisfeito um artista plástico”, completa.

Já a jornada de Mestre Nado, que é Patrimônio Vivo de Pernambuco, vem desde a produção de cerâmica, das olarias tradicionais de Francisco Brennand, com quem trabalhou. Aprofundando, ao longo dos anos, a técnica aprendida com a experiência ao lado do outro mestre, ele traz, com “Ocarinada”, um trabalho de encaixe de objetos que, a partir da exposição, acabam se transformando em coisas diferentes e às vezes até indefiníveis. Nado revela que executou os painéis da série Oleiros, cujos desenhos haviam sido feitos entre 1984 e 1986, especialmente para essa mostra.

“Esse mistério todo é justamente o que me interessa quando preparo uma exposição desse tipo. Por isso mesmo que adoro o trabalho com a cor. Ver o barro se transformando com o processo da queima, e o que sai desse processo natural, é essencial para mim”, ressalta Mestre Nado, acrescentando o poder da música no seu trabalho. “A parte sonora, na pesquisa, vira uma coisa só, tanto de fazer o objeto quanto de tocar, é um entrelaçado”, conta. O curador Daniel Donato aponta que o próprio nome do projeto sugere “um coletivo de ocarinas e, ao mesmo tempo, o eco do som produzido por suas esculturas”, reforçando a ideia de Nado.

Os dois artistas, assim, desmembram a cultura popular nordestina através de códigos que, cada um a seu modo, estão em constante mutação. E, no processo, carregam as emoções de quem as observa para lugares imprevisíveis.