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Com Tânia Maria, terror político pernambucano "Yellow Cake" tem estreia nacional no Olhar de Cinema

Abertura da 15ª edição do Olhar de Cinema lota o Teatro Ópera de Arame com a estreia nacional de "Yellow Cake", novo longa de ficção científica do pernambucano Tiago Melo

Por Allan Lopes

Tânia Maria em cena como a carismática Dona Rita, de "Yellow Cake"

As baixas temperaturas não afastaram o público curitibano da abertura da 15ª edição do Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba. Na última quinta-feira (4), mais de 1.500 pessoas lotaram o imponente Teatro Ópera de Arame para prestigiar a sessão inaugural, que exibiu a estreia nacional de “Yellow Cake”, o novo longa-metragem do pernambucano Tiago Melo depois do sucesso “Azougue Nazaré” (2018).

Até 13 de junho, a programação exibirá mais de 80 produções nacionais e internacionais divididas em dez mostras, que já nos primeiros dias demonstram a pluralidade de discursos e estéticas do festival. O Diario acompanhou de perto a noite de estreia e traz uma entrevista exclusiva com a equipe do filme.

Ambientado na pacata Picuí, na Paraíba, “Yellow Cake” parte de uma premissa ousada de ficção científica para se consolidar como uma obra profundamente política e, em certos momentos, de puro terror — evidenciando o quanto esses dois universos podem se cruzar.

Conhecida pela extração de terras raras, a cidade paraíbana serve de laboratório para cientistas americanos que usam urânio em um experimento sigiloso com o objetivo de erradicar o Aedes aegypti. No olho do furacão dessa controversa operação está a física nuclear Rúbia Ribeiro, interpretada por Rejane Faria, conhecida por “Marte Um”.

Ao longo da trama, Rúbia passa a mudar o seu comportamento no experimento. Sendo uma mulher negra, LGBT e a única brasileira em um comitê dominado por americanos, ela vê suas opiniões serem constantemente preteridas, sobretudo pela barreira do idioma.

Para romper com a expectativa de subserviência que tentam lhe impor, a cientista precisa erguer a voz e demarcar seu espaço. “Quero que a enxerguem não apenas como uma provocação, mas com naturalidade, entendendo que isso é possível e que existem pessoas assim”, afirma Rejane.

A relação de Tiago Melo com o cenário de “Yellow Cake” vem de berço, já que ele está profundamente conectado à Picuí pelas raízes de sua família. “Quando comecei a pesquisar, acabei conhecendo melhor o meu avô, que morreu antes de eu nascer. Todos começaram a falar dele para mim”, revela o cineasta.

Ele já havia dirigido, em 2012, o premiado curta-metragem “Urânio Picuí”. no qual explora a lenda e os relatos históricos de que o urânio extraído na região do Seridó (PB/RN) durante a Segunda Guerra Mundial teria sido usado pelos Estados Unidos na construção da bomba de Hiroshima.

Embora os mosquitos assumam o papel de vilões aterrorizantes na trama, o perigo mais real e imediato vem da presença americana. A iminência de um desastre com urânio assusta o espectador justamente por dialogar diretamente com as tensões reais da atualidade. “O filme começou a ser pensado há cerca de dez anos, quando não existia essa ameaça tão real de uma nova guerra nuclear como existe hoje. Isso mostra como somos vulneráveis diante do que pode acontecer”, ressalta Tiago.

Representando a memória e a força da comunidade local diante dos americanos, a carismática Dona Rita brilha na pele de Tânia Maria, o mais novo destaque do cinema brasileiro, que assimilou o papel com facilidade. “Tudo era verdadeiro para mim: eu cuidava das galinhas, preparava a comida e tomava conta do meu neto. Sentia como se aquela casa realmente fosse minha”.

Para compor a personagem, ela teve a ajuda de um velho aliado que também consagrou sua aclamada Dona Sebastiana em “O Agente Secreto”: o cigarro. “Na época, eu ainda era fumante. O cigarro era como se fosse a minha saúde. Enquanto estava fumando, eu achava que estava bem”, conta.

*O jornalista viajou a convite do festival Olhar de Cinema