° / °
Cadernos Blogs Colunas Rádios Serviços Portais

Ícone do cinema francês, Isabelle Huppert salva ‘Histórias Paralelas’, que disputa a Palma de Ouro em Cannes

Apesar das boas expectativas, o filme "Histórias Paralelas", exibido nesta quinta (15), no Festival de Cannes, não vai além do que se vê convencionalmento no cinema francês

Por André Guerra - Enviado Especial

Isabelle Huppert interpreta uma escritora no filme "História Paralelas"

Um dos mais aguardados da disputa pela Palma de Ouro no 79º Festival de Cannes, "Histórias Paralelas", de Asghar Farhadi, foi exibido nesta quinta-feira (14), para matar a curiosidade dos espectadores. Trata-se de um misto bastante convencional de drama metalinguístico e humor francês, embora prestigiado por um dos elencos mais fortes de toda a mostra competitiva do evento.

Na trama, a escritora Sylvie, interpretada pela francesa Isabelle Huppert, tem o hábito de vigiar os vizinhos e escrever histórias sobre suas vidas. Frequentemente, sua imaginação e a realidade começam a se misturar, o que passa a mobilizar seus dias de maneiras inesperadas — não menos inusitadas, no entanto, do que a rotina da vizinha Nita (Virginie Efira), que trabalha intensamente com o marido, Nicolas (Vincent Cassel), e o irmão, Théo (Pierre Niney), produzindo efeitos sonoros para um projeto audiovisual.

Em resposta ao Diario, durante a coletiva de imprensa realizada durante o Festival de Cannes, a atriz enfatizou a sua surpresa com a reação da plateia na sessão de estreia do filme. “Não estava necessariamente esperando essa reação de risadas, especialmente porque Sylvie é uma figura bastante intelectual, que racionaliza tudo o tempo inteiro. É muito bom ver que ela pode ser também tão divertida de acompanhar, até porque é a deixa mais vulnerável de certa maneira. Ela não é definida por certezas e isso traz uma humanidade enorme ao filme”, explicou.

De todo o elenco, a atriz, considerada uma das maiores do cinema francês, é de longe aquela que melhor consegue imprimir humor e humanidade a uma personagem cheia de contradições, cujas atitudes quase sempre pegam o espectador de surpresa. As demais participações são fortes e mantêm algum interesse nos personagens, que, por sua vez, são quase todos bastante desagradáveis. O caminho deles se cruzam a partir da interferência de Adam (Adam Bessa), um jovem que Sylvie contrata para ajudá-la em pequenas tarefas, mas que assume um papel central na narrativa ao tomar uma decisão arriscada sobre o manuscrito da chefe.

O diretor iraniano Asghar Farhadi venceu o Oscar de Melhor Filme Internacional duas vezes — por “A Separação”, em 2012, e “O Apartamento”, em 2017. Com “Histórias Paralelas” (tradução livre), ele faz seu primeiro filme em francês desde “O Passado” (2013) e demonstra como um diretor autoral pode ter sua essência diluída ao filmar em outro idioma.

Sempre há exceções que desafiam essa regra, claro, mas, no caso de Farhadi, sua câmera imersiva e pulsante dá lugar, aqui, a uma estética genérica que beira o televisivo. Há alguns momentos fantasmagóricos sutilmente inspirados, nos quais a paleta de cores muda e a ambiência sonora se torna mais presente, mas, no geral, Histórias Paralelas parece uma sucessão de vinhetas que o cinema francês produz aos montes todos os anos.

Ainda na coletiva de imprensa, Huppert acrescentou que as alternâncias de tom de “Histórias Paralelas” são, para ela, a maior força do longa. “Foi uma grande surpresa ler esse roteiro, principalmente por conta das mudanças de atmosfera constantes na narrativa. Aliás, eu acho que é aí que está justamente a maior força do filme: oscilar entre momentos mais existenciais e situações burlescas. Foi muito prazeroso e gratificante navegar por uma personagem tão incrível e complexa”, reforçou.

“Histórias Paralelas” tem previsão de chegar aos cinemas brasileiros ainda em 2026, mas sem data definida. Caso saia premiado do Festival de Cannes, pode chegar mais cedo do que se espera.