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Derramamento de petróleo atingiu 22 praias e expôs fragilidades em Pernambuco, diz Fundaj

Atlas lançado pela Fundação Joaquim Nabuco identificou 94,66 km² de áreas temáticas nas zonas analisadas no estado, que ocupa o quinto lugar no ranking nordestino. Estudo também aponta perdas para pescadores, marisqueiras e atividades turísticas

Por Adelmo Lucena

Litoral de Pernambuco ainda carrega marcas do desastre do petróleo de 2019, aponta estudo

O derramamento de petróleo que atingiu o litoral nordestino em 2019 deixou marcas ambientais e socioeconômicas em Pernambuco, principalmente nos 11 municípios atingidos. Ao todo, 22 praias foram afetadas diretamente pelo desastre, segundo o Atlas das Praias Atingidas pelo Desastre Tecnoindustrial do Derramamento de Petróleo, lançado nesta quarta-feira (4) pela Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj).

O levantamento identificou 94,66 km² de áreas temáticas nas zonas costeiras analisadas no estado, incluindo manguezais, recifes de corais, vegetação nativa, áreas urbanizadas e faixas de areia.

O estudo volta a atenção para a concentração de ambientes ecologicamente sensíveis em trechos do litoral que também apresentam intensa ocupação humana e dependência econômica das atividades ligadas ao mar. A sobreposição entre esses elementos amplia a complexidade dos danos provocados pelo petróleo, principalmente em áreas onde a pesca artesanal, a mariscagem e o turismo são importantes fontes de renda.

Entre os ambientes que exigem maior atenção estão os manguezais, que funcionam como áreas de reprodução de espécies marinhas, contribuem para a proteção do solo contra a erosão e sustentam atividades tradicionais de comunidades costeiras. A contaminação desses ecossistemas pode comprometer a cadeia alimentar, a biodiversidade e a disponibilidade de recursos naturais utilizados por pescadores e marisqueiras.

O Atlas também identificou a presença de recifes de corais, corpos hídricos superficiais, afloramentos rochosos e diferentes tipos de cobertura vegetal nas áreas analisadas. Em Pernambuco, a pesquisa destaca a combinação entre ecossistemas frágeis e espaços densamente ocupados, sobretudo no Litoral Norte e na Região Metropolitana do Recife.

Um dos aspectos ressaltados pelos pesquisadores é que a ausência de manchas de petróleo identificadas diretamente nas imagens de satélite utilizadas para o mapeamento pernambucano não significa que os ambientes tenham ficado livres dos efeitos da contaminação. O próprio levantamento aponta que resíduos oleosos permaneceram incrustados em recifes, rochas e substratos arenosos, dificultando a recuperação natural de alguns trechos.

A análise foi realizada por meio de processamento digital de imagens multiespectrais de satélite, com utilização de classificação supervisionada. A equipe relacionou as imagens às áreas onde o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) havia registrado depósitos de petróleo até 28 de outubro de 2019.

O levantamento apresenta municípios pernambucanos que reúnem diferentes características de vulnerabilidade ambiental. Ipojuca, por exemplo, aparece entre os principais pontos de atenção pela presença de recifes, manguezais e extensas faixas de areia, em uma região marcada pela atividade turística de Porto de Galinhas e pela ocupação do litoral.

No município, o estudo identificou 422,3 mil metros quadrados de áreas de corais, 943,1 mil metros quadrados de manguezais, 2,54 milhões de metros quadrados de áreas urbanizadas e 4 milhões de metros quadrados de faixa de areia branca nas áreas consideradas pela análise.

Paulista também se destaca pela presença de ecossistemas costeiros associados à ocupação urbana. Foram mapeados 530,4 mil metros quadrados de corais e 2,4 milhões de metros quadrados de manguezais. Praias como Maria Farinha e Conceição aparecem como exemplos da proximidade entre áreas urbanizadas e ambientes ambientalmente sensíveis.

Em Olinda, a Praia del Chifre reúne áreas de manguezal, ocupação urbana e faixa de areia. Já em Goiana, localidades como Ponta de Pedras e Catuama apresentam a combinação entre áreas de preservação e pressão urbana.

No Litoral Sul, Tamandaré também figura entre os municípios destacados pela pesquisa. A região da Praia dos Carneiros reúne aproximadamente 858,8 mil metros quadrados de áreas de corais e 771,8 mil metros quadrados de manguezais nas áreas mapeadas. O Recife, por sua vez, aparece na análise com destaque para a extensão de sua faixa arenosa e a ocupação urbana da Praia de Boa Viagem.

A pesquisa também chama atenção para Sirinhaém, que apresenta menor densidade de vegetação nativa em comparação com outras áreas analisadas, mas possui ambientes costeiros que continuam relevantes para a conectividade ecológica e a conservação da biodiversidade.

Pesca e turismo sofreram consequências

O Atlas descreve uma crise nas comunidades pesqueiras e marisqueiras de Pernambuco, que enfrentaram perdas imediatas de renda e insegurança alimentar durante o período de contaminação.

A interdição informal de praias e estuários, somada à queda abrupta da procura por pescado, comprometeu o sustento de trabalhadores que dependem diretamente dos recursos naturais. Mulheres marisqueiras e pescadores de pequena escala foram apontados como grupos particularmente vulneráveis, devido à baixa escolaridade e ao acesso precário a políticas públicas de proteção social.

O turismo, outro importante setor econômico do litoral pernambucano, também sofreu consequências. O estudo registra cancelamentos de reservas, redução da visitação a destinos tradicionais e prejuízos para pousadas, bares, restaurantes e vendedores ambulantes.

Ipojuca, Itamaracá, Paulista e Goiana estão entre os municípios que registraram impactos econômicos expressivos. Um aspecto destacado pelos pesquisadores é que os prejuízos nem sempre ficaram concentrados nos locais com maior presença de resíduos. A percepção de risco ambiental também contribuiu para afastar visitantes, demonstrando que os efeitos econômicos de um desastre podem ultrapassar as áreas de contaminação diretamente identificadas.

Pernambuco ocupa quinta posição no ranking

Na comparação com os nove estados da região, Pernambuco aparece na quinta posição em extensão total das áreas temáticas mapeadas, com 94,66 km², o equivalente a 11,3% do total apresentado no levantamento.

O Rio Grande do Norte e a Bahia lideram o ranking, com 194,38 km² e 164 km², respectivamente. Na sequência aparecem Alagoas, com 99,89 km², e Sergipe, com 96,78 km². Depois de Pernambuco estão Maranhão (56,26 km²), Paraíba (53,87 km²), Ceará (48,19 km²) e Piauí (26,33 km²).

A posição pernambucana, segundo a análise, está relacionada às características geográficas e ao grau de urbanização da costa. O estado apresenta uma faixa litorânea densamente ocupada, na qual áreas de valor ecológico convivem com atividades humanas, industriais, portuárias e turísticas.

O Atlas reúne informações sobre o derramamento que começou a atingir o litoral brasileiro no segundo semestre de 2019. Entre agosto e novembro daquele ano, manchas de petróleo cru chegaram a praias de todos os nove estados nordestinos. A origem do vazamento e a quantidade total de petróleo liberada no Oceano Atlântico continuam sem identificação definitiva, conforme a publicação.

Para dimensionar o desastre, os pesquisadores utilizaram como referência um levantamento georreferenciado do Ibama, publicado em 28 de outubro de 2019, que registrou 201 pontos de praias atingidas, distribuídos por 92 municípios nordestinos. Algumas localidades foram atingidas mais de uma vez.

A partir dessa base, a equipe desenvolveu uma metodologia própria para relacionar os registros de contaminação às características ambientais e ao uso e ocupação do solo. O resultado foi a produção de 402 mapas, sendo 201 imagens de satélite e outros 201 mapas temáticos correspondentes.

No conjunto dos nove estados, a pesquisa identificou aproximadamente 838 km² de áreas temáticas nas zonas analisadas. Desse total, cerca de 190 km² correspondem a áreas de vegetação nativa e manguezais, enquanto aproximadamente 15 km² estão associados a áreas de corais. Os números evidenciam a dimensão territorial do desastre e a exposição de ecossistemas fundamentais para a manutenção da biodiversidade costeira.

A costa nordestina, especialmente Alagoas, Pernambuco e Paraíba, é apontada como uma região de elevada vulnerabilidade pela presença de formações recifais, manguezais e intensa atividade turística e pesqueira artesanal.

Em Alagoas, a pesquisa destaca os impactos sobre recifes de corais e manguezais, sobretudo em municípios que combinam atividades turísticas e aquicultura. Na Paraíba, a contaminação também alcançou formações recifais e manguezais, com repercussões sobre a biodiversidade e a pesca artesanal.

Na Bahia, o estudo ressalta os prejuízos às comunidades pesqueiras artesanais, especialmente em municípios como Cairu, Vera Cruz, Itaparica, Camaçari, Madre de Deus e Ilhéus. A interrupção da pesca, a desvalorização do pescado e a desconfiança dos consumidores agravaram a vulnerabilidade econômica e alimentar das famílias.

No Rio Grande do Norte, estado que lidera o ranking de áreas temáticas mapeadas, foram analisadas 43 praias distribuídas por 11 municípios. O levantamento identificou 33,75 km² de vegetação nativa e manguezais, além de 1,97 km² de áreas de corais, evidenciando a presença de ecossistemas sensíveis na costa potiguar.

Os demais estados também apresentaram diferentes configurações de vulnerabilidade, relacionadas à distribuição dos ecossistemas costeiros, à ocupação humana e às atividades econômicas desenvolvidas nas áreas atingidas.

O Atlas é resultado da pesquisa Impactos Socioeconômicos e Ambientais da Contaminação por Petróleo nas Praias do Litoral da Região Nordeste, coordenada pelos pesquisadores Neison Cabral Ferreira Freire e Luís Henrique Romani de Campos e conduzida pela Diretoria de Pesquisas Sociais (Dipes) da Fundaj.