Com bolo e cartaz, pai cobra justiça por filho morto em ação policial há mais de 2 anos
Davidson José da Silva levou bolo de aniversário, fotografia e camisa do Sport para protesto em frente ao Ministério Público. Dárik Sampaio completaria 16 anos no último domingo (1º), mas investigação ainda não apontou quem efetuou os disparos fatais
Com um bolo de aniversário nas mãos, uma fotografia do filho e a camisa do Sport Club do Recife sobre uma cadeira, Davidson José da Silva voltou a cobrar justiça pela morte do adolescente Dárik Sampaio da Silva, nesta terça-feira (3), em frente à sede do Ministério Público de Pernambuco (MPPE), no Recife. O menino, que jogava futsal pelo clube rubro-negro, completaria 16 anos no último domingo (1º). Em vez de comemorar mais um ano de vida, a família passou a data sem o adolescente, morto durante uma perseguição policial no bairro do Jordão, na Zona Sul da capital, em março de 2024.
Sentado diante de uma faixa com a mensagem “Não era bandido, era um inocente”, Davidson segurava os objetos que preserva como lembranças do filho. Com um olhar distante, ele voltou a cobrar respostas sobre quem foi o responsável pelo disparo que atingiu Dárik e por que a investigação ainda não resultou na responsabilização dos envolvidos.
“A gente vive o dia 16 de março de 2024 todos os dias. Para muita gente, pode parecer que faz muito tempo, mas, para mim e para minha esposa, é como se todo dia fosse 16 de março. Como pai, sinto uma dor tremenda. Acordo pensando nele e vou dormir pensando nele. A gente acorda chorando e dorme chorando”, relatou.
A manifestação foi motivada, principalmente, pela demora do MPPE em apresentar um posicionamento sobre o caso à Justiça. Segundo Davidson, o órgão foi intimado a se pronunciar em outubro, mas não respondeu dentro do prazo estabelecido. Uma nova cobrança teria sido feita pela Procuradoria-Geral de Justiça na metade daquele mês, sem que a família recebesse, até agora, uma resposta.
A perícia, que poderia ajudar a esclarecer a dinâmica dos disparos, é um dos principais pontos de divergência no andamento do caso. A realização de uma reprodução simulada foi determinada durante a retomada das investigações, mas os policiais militares envolvidos na ocorrência se recusaram a participar do procedimento. A medida acabou não sendo realizada. “Eles têm que falar e dizer qual será o próximo passo, já que a reprodução simulada não foi feita”, destaca o pai do menino.
Para ele, a recusa dos agentes aponta para a necessidade de esclarecimentos. “Os policiais se recusaram a participar nas duas vezes em que a reprodução simulada foi solicitada. Isso mostra claramente aquilo que todo mundo sabe: quem não deve não teme.”
O advogado da família, Walter Reis, também considera que a reconstituição pode ajudar a esclarecer dúvidas que permaneceram ao longo da investigação. Ele atribui parte da demora às falhas nos primeiros trabalhos periciais realizados no local do crime.
“A perícia inicial do caso não foi adequada. Seria necessário fazer o isolamento do local do crime e ter uma atenção maior durante os trabalhos periciais. Quando a perícia não é realizada adequadamente logo após a ocorrência de um fato, isso acaba provocando uma sucessão de falhas, que contribuem para criar esse embróglio jurídico.”
O advogado defende que a reprodução simulada ainda pode ser realizada, mesmo diante da resistência dos policiais.
“Acreditamos que, caso seja realizada uma reprodução simulada, algumas dúvidas poderão ser esclarecidas, para que realmente se encontre o verdadeiro autor. Não se trata simplesmente de condenar alguém, mas de a Justiça fazer o levantamento dos fatos, identificar quem errou e responsabilizar cada um de acordo com suas responsabilidades.”
Investigação ainda não apontou autor dos disparos
Dárik morreu em 16 de março de 2024, aos 13 anos, durante uma perseguição policial a suspeitos de roubar um carro. Na noite daquele sábado, o adolescente conversava com duas amigas na calçada da casa de uma delas, na Rua Professora Arcelina Câmara, no Jordão, quando começou o tiroteio. Ele tentou correr para dentro do imóvel, mas foi atingido por dois disparos.
Imagens de câmeras de segurança registraram a perseguição e os tiros efetuados pelos policiais militares contra os veículos. Inicialmente, a Polícia Militar informou que houve troca de tiros com os suspeitos. Entretanto, a investigação da Polícia Civil, com base em perícias e na análise dos projéteis encontrados na cena, apontou que somente os militares realizaram disparos.
Quatro policiais admitiram ter atirado durante a ocorrência, mas se recusaram a participar da reprodução simulada. Dois suspeitos foram presos após a perseguição, enquanto outros dois conseguiram fugir.
A Polícia Civil chegou a concluir o inquérito com pedido de arquivamento, sob a justificativa de que não havia sido possível identificar qual agente efetuou os disparos que atingiram o adolescente. Em dezembro de 2024, a juíza Fernanda Moura de Carvalho, da 1ª Vara do Tribunal do Júri da Capital, considerou precipitada a possibilidade de arquivamento e determinou a retomada das investigações, com parecer favorável da Subprocuradoria-Geral de Justiça.
Entre as determinações estava a realização da reprodução simulada, mesmo que os policiais envolvidos não aceitassem participar.
Walter Reis afirmou que o inquérito ainda não teve uma conclusão definitiva sobre o encaminhamento a ser adotado. Entre as possibilidades estão o arquivamento, o oferecimento de denúncia ou o indiciamento dos possíveis autores.
O advogado também disse não ter informações sobre a atual situação funcional dos policiais envolvidos. Segundo ele, não há impedimento para que retornem às atividades.
Três aniversários sem o filho
A cobrança da família por justiça divide espaço com as lembranças de uma rotina interrompida. Dárik começou a jogar futebol aos sete anos e era um dos destaques da equipe de futsal do Sport. Segundo o pai, o adolescente estava prestes a deixar a categoria de futsal e seguir para o futebol de campo.
“Ele poderia estar fazendo o que amava, que era jogar futebol. Era uma criança que dormia agarrada com a bola. Era o que ele mais gostava de fazer. No domingo, como acontecia todos os anos, a gente acordaria ele. Pulávamos na cama dele. Era assim que fazíamos no aniversário, porque ele também fazia isso com a gente. A gente ia fazer isso com ele, mas já são três aniversários sem poder repetir esse momento”, disse.
Em casa, Davidson mantém guardadas as roupas, os brinquedos, os troféus, as medalhas e a bola com que o filho dormia. Também permanece a lembrança da relação com a irmã mais nova, que tinha quase dois anos quando Dárik morreu e hoje começa a fazer perguntas sobre o irmão.
O pai teme o momento em que a menina compreender plenamente o que aconteceu. “Um dia, quando ela crescer e realmente quiser saber, o que vou dizer à minha menininha? O que aconteceu com o irmão dela? O que vou responder? Eu pergunto à SDS, pergunto ao Governo do Estado de Pernambuco: o que vou responder? Porque nem eu nem minha esposa sabemos como responder a essa pergunta para nossa menina.”
Davidson diz que continuará cobrando a responsabilização dos envolvidos. “Lutamos por Dárik e por outras crianças, por outras pessoas. Porque, se isso ficar impune, vai servir de base para que outros casos aconteçam novamente.”