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Justiça manda pais de menina morta na Unimed retirarem posts e se retratarem

Sentença também condenou os parentes a pagarem R$ 2 mil por danos morais à operadora de saúde. Investigação sobre a morte de Bruna Brito segue em outras instâncias

Por Adelmo Lucena

Pais de Bruna Brito denunciaram, através de um vídeo no Instagram, médicos da Unimed Recife após morte de criança na unidade de saúde

A Justiça de Pernambuco determinou que os pais de Bruna Brito, menina de 4 anos que morreu após atendimento na rede da Unimed Recife, retirem publicações consideradas ofensivas à operadora de saúde e paguem R$ 1 mil cada um por danos morais.

A decisão também estabelece que Gabriella Brito, que concorreu ao cargo de deputada federal em 2026, e Josinaldo Júnior, vereador de Timbaúba, façam uma retratação pública nos mesmos meios em que divulgaram as manifestações, após o trânsito em julgado da sentença.

A decisão foi assinada pelo juiz da Seção B da 19ª Vara Cível da Capital, no Recife. O magistrado julgou parcialmente procedente uma ação movida pela Unimed Recife, que havia pedido, entre outras medidas, a remoção dos conteúdos e o pagamento de indenização de pelo menos R$ 80 mil.

A sentença determina que os pais removam, no prazo de cinco dias, as publicações ofensivas indicadas no processo. O descumprimento pode resultar em sanções processuais, incluindo multa de até 20% do valor atualizado da causa. Já a retratação pública deverá ocorrer em até 15 dias após o trânsito em julgado, quando não houver mais possibilidade de recurso.

Por outro lado, o juiz rejeitou o pedido da Unimed para proibir previamente novas manifestações dos pais sobre o caso. Segundo a decisão, críticas futuras devem ser analisadas individualmente, de acordo com o conteúdo publicado, para evitar censura prévia.

Justiça diferencia denúncia de ofensa

Na ação, a Unimed Recife alegou que os pais divulgaram manifestações nas redes sociais que atribuíam à instituição e a seus profissionais responsabilidade pela morte da criança antes de uma conclusão definitiva das autoridades competentes. Entre as expressões citadas no processo estão “matadouro” e “mãos cheias de sangue”, além de críticas à atuação da operadora e de sua direção.

A empresa sustentou que as publicações prejudicaram sua reputação perante beneficiários e profissionais de saúde e pediu reparação por danos morais.

Na contestação, os pais defenderam que as manifestações estavam amparadas pela liberdade de expressão e pelo direito de buscar justiça pela morte da filha. Também apontaram a existência de investigações sobre o atendimento prestado à criança, incluindo um inquérito policial e um processo ético-profissional no Conselho Regional de Medicina de Pernambuco (Cremepe).

Ao analisar o caso, o magistrado reconheceu a legitimidade da busca por esclarecimentos e responsabilização, mas entendeu que determinadas expressões ultrapassaram os limites da crítica. Para o juiz, divulgar a existência de investigações é diferente de apresentar como definitiva uma responsabilidade que ainda está sendo apurada.

A sentença também levou em consideração o alcance das publicações. De acordo com o documento, Gabriella possuía perfil verificado com cerca de 143 mil seguidores, enquanto Josinaldo, vereador de Timbaúba, tinha aproximadamente 46,3 mil seguidores.

Na definição da indenização, o magistrado considerou a gravidade das expressões utilizadas, mas também o contexto em que foram publicadas. A decisão destaca que os réus são pais que perderam uma filha de 4 anos em circunstâncias ainda investigadas e que as manifestações tiveram origem na dor da perda.

Por isso, o juiz fixou a indenização em R$ 1 mil para cada um, valor abaixo dos R$ 80 mil solicitados pela operadora.

Morte de criança é investigada

Bruna morreu em 13 de dezembro de 2024, após atendimento em uma unidade da Unimed Recife. O caso ganhou repercussão pública depois que os pais relataram, em vídeo publicado nas redes sociais, suspeitas sobre os procedimentos realizados durante a assistência médica.

Segundo o relato da família, a menina apresentou sintomas de resfriado e foi levada inicialmente à unidade de urgência com suspeita de amigdalite. Após receber atendimento e medicação, ela continuou debilitada e retornou à rede de saúde.

Os pais afirmaram que Bruna foi submetida a uma tomografia com sedação e que o procedimento demorou mais do que o esperado. Conforme a versão apresentada pela família, a criança não teria despertado após as tentativas dos profissionais e precisou ser encaminhada à emergência pediátrica.

A mãe também relatou suspeitar que a menina tenha sofrido uma queda durante o atendimento. A família questionou a informação de que a morte teria ocorrido por hemorragia pulmonar e solicitou a apuração das circunstâncias do caso.

O inquérito policial citado no processo cível resultou no indiciamento de quatro médicas pelo crime de homicídio culposo, conforme descrito na sentença. O documento também registra a instauração de um Processo Ético-Profissional no Cremepe contra as profissionais. O indiciamento e a abertura de procedimento ético, contudo, não equivalem a uma condenação definitiva.

A sentença da ação movida pela Unimed não analisou a responsabilidade médica pela morte de Bruna. O juiz delimitou que a discussão sobre eventual culpa dos profissionais deve ocorrer nas esferas competentes, incluindo a criminal, a ético-profissional e a ação indenizatória própria.

Em nota enviada ao Diario de Pernambuco, os pais de Bruna Brito informaram que participam de uma "briga desleal." Confira a nota na íntegra:

"Sabemos que lutar contra uma operadora como a Unimed Recife é uma briga desleal e hoje 4 médicos da Unimed Recife envolvidos na morte da nossa filha estão respondendo por homicídio doloso. O caminho foi muito duro até aqui e sabemos o quão duro ainda será.

Transformar nós, que somos as vítimas, em réus, por usarmos nossa voz pra buscar justiça e alertar a população, é desumano. Para a gente, isso fala ainda mais sobre os princípios dessa operadora. Nossa defesa está preparando o recurso cabível, recorrendo da sentença, pois entendemos que essa decisão precisa ser reavaliada. Cogitar a nós pais uma retratação pública para essa empresa é diabólico. Seguimos firmes buscando por justiça e esperando que a justiça seja feita não porque trará nossa filha de volta, mas pra honrar a sua vida e evitar outras mortes."