Plantado por pessoas escravizadas, Baobá revela raízes do bairro do Fundão, no Recife
Tombado pela Prefeitura do Recife, baobá do Fundão, na Zona Norte da capital, faz parte da história e da identidade do bairro
Leonilson de Jesus dos Santos tinha exatamente 27 anos quando virou árvore. O ano era 1960 e ele, um elegante garçom do Grand Hotel Recife, cujas economias viabilizaram a compra de uma poucas casas de taipa que povoavam a comunidade no Fundão, Zona Norte do Recife. Partindo do número 92 da Rua do Espírito Santo, suas raízes se encontram, no final do estreito logradouro, com as do centenário Baobá, para quem olha todos os dias com a intimidade de um velho amigo.
“Eu admiro a ‘barriguda’ porque, no inverno, ela ‘cai’ a folha toda. Isso é que eu acho importante. Porque quando é pelo verão, ela fica toda verdinha, toda frondosa”, diz Leonilson, que completou 93 anos em 2026.
“Barriguda” é como a comunidade do Fundão costuma chamar o Baobá, localizado na Rua Coronel Urbano Ribeiro de Sena, de frente para o lava-jato de Jadson Antônio Miguel, que (do outro lado da rua) cruza os braços e assiste orgulhosamente ao trabalho de registro que a reportagem faz da árvore. “É um orgulho pra gente”, dispara.
“Barriguda” já deu nome a farmácia, mercado e agora batiza o time de futebol amador da comunidade. À sua sombra, surgiram agremiações carnavalescas e entidades sociais, como o Sindicato dos Malandros. Ainda hoje, seu entorno é local de namoro dos jovens e descanso dos velhos. Aos domingos, todos se reúnem no pagode mais celebrado da região.
Os moradores contam que a árvore foi plantada por pessoas escravizadas há mais de 200 anos, embora a Prefeitura do Recife evite cravar a idade da barriguda. “Cafuringa, que era um morador de 84 anos, morreu dizendo que no tempo do avô dele a árvore já existia”, defende Jadson.
Com nada menos do que 22 metros de altura, a barriguda foi tombada pelo antigo IBDF, atual Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Sagrada em países africanos como Senegal, a árvore é originária das estepes africanas e regiões semi-áridas de Madagascar, podendo chegar aos 30 metros de altura. Seu caule robusto possui grande capacidade de armazenar água e suas flores brancas costumam aparecer entre os meses de dezembro e março.
Raízes
Leonilson relata que as raízes da árvore têm feito aparições cada vez mais distantes do imponente tronco. Enquanto a cidade corre descompassada sobre o asfalto, elas dançam pacientemente por dentro da terra, atravessam ruas e, eventualmente, fraturam o solo. Impõem algumas reformas e impedem que outras aconteçam, dando prova da soberania do tempo da Terra. “Tudo mudou. De igual por aqui, só ela mesma”, diz o antigo morador.
Na companhia do Baobá, Leonilson viu muita gente chegar e ir embora, enquanto as antigas casas de taipa davam lugar às construções de alvenaria, onde vivem boa parte dos 8.132 moradores do Fundão. Mudando como as estações, ele já foi agricultor, lavador de pratos, atendente, garçom e comerciante. Tudo em nome, diz ele, de sustentar os filhos de seu primeiro e único casamento, com Maria José dos Santos, de 88 anos.
“Minha raiz sai de Bezerros, onde nasci no dia 9 de setembro de 1933, numa manhã de sábado. Tive cinco filhos, oito netos e três bisnetos, e todos moram no Fundão. Acho que nós somos a raiz da barriguda”, resume.
O guardião do baobá
Para Jadson, o bom estado físico do baobá também resulta do esforço coletivo da comunidade. Morador do Fundão desde os 15 anos, ele acompanha de perto a rotina do baobá e ajuda a cuidar do espaço ao redor da árvore. A cada dois dias, conta, ele e outros moradores varrem o interior e o entorno do tronco, retiram o lixo e regam as plantas do jardim. “Toda vez que a gente tá cuidando dela, a gente sente uma paz muito grande”, conta.
No passado, o entorno da árvore chegou a ser utilizado como ponto de descarte de resíduos. Após uma intervenção da prefeitura, o espaço foi gradeado, pintado e ganhou um canteiro. “A gente mesmo rega as plantas e o jardim para as pessoas não colocarem mais lixo”, afirma Jadson.
Nos dias de poda, ele faz questão de acompanhar o trabalho dos profissionais de limpeza urbana, especialmente quando os galhos tornam a entrar em contato com cabos e exigem ainda mais delicadeza e atenção da poda. Apesar disso, o morador reconhece que a proteção formal também ajuda a preservar o baobá.
“Todo dia a gente fica impressionado com o tamanho, com a sombra, com o tronco. A gente admira a barriguda como se ela tivesse sido colocada aqui hoje. É privilégio”, conclui Jadson.
Saiba como solicitar tombamento
Segundo os dados mais atualizados da prefeitura, o Recife possui 71 árvores tombadas, das quais 14 são baobás. Entre as espécies encontradas na lista também aparecem mangueiras, cajueiros, gameleiras, paus-brasil, sapotizeiros e juazeiros, dentre outros. A maior parte das árvores tombadas da cidade estão localizadas na Zona Norte, com destaque para o bairro de Casa Amarela, com oito indivíduos protegidos.
De acordo com João Victor França, engenheiro florestal e gerente de Arborização da Autarquia de Manutenção e limpeza Urbana do Recife (Emlurb), o processo de tombamento de uma árvore pode ser iniciado por qualquer pessoa, embora a Comissão de Tombamento de Árvores também possa fazer a solicitação. O pedido deve ser encaminhado por e-mail (arvorestombadas@recife.pe.gov.br) à Prefeitura do Recife, com informações que permitam identificar e justificar a relevância da árvore.
“Além do endereço, obviamente, é importante enviar fotos e dizer qual a espécie, histórico da árvore e o porquê de ela ser tombada. A legislação municipal estabelece diferentes critérios para o reconhecimento. A árvore pode ter importância histórica, cultural ou religiosa, por exemplo, ou apresentar características ambientais que justifiquem sua preservação”, afirma França.
O gerente de arborização também destaca que o tombamento é formalizado por decreto e estabelece uma proteção semelhante à aplicada a bens históricos construídos. Quando uma árvore é tombada, ela passa a ser de responsabilidade da gestão municipal mesmo que esteja localizada em terreno privado. “A prefeitura tem a responsabilidade de manter ela viva, de podá-la e de fazer a manutenção, fazer todo o manejo”, destaca França
Ranking: bairros com mais árvores tombadas no Recife
1º) Casa Amarela: 8 (7 Mangueiras e 1 Sapotizeiro)
2º) Casa Forte: 4 (1 Baobá, 1 Cajazeiro, 1 Mangueira e 1 Gamelina)
3º) Dois Irmãos 4 (1 Palmeira Imperial, 1 Baobá, 1 Cajueiro e 1 Guapuruvu/Pau-mulato)
4º) Poço da Panela: 4 (2 Mangueiras, 1 Cajazeiro e 1 Cajueiro)
5º) Santo Antônio 3 (1 Baobá, 1 Cajueiro e 1 Pau-brasil)
6º) Bongi: 3 (conjunto de 3 Baobás na Estrada do Bongi)
7º) Boa Viagem: 2 (1 Oiti e 1 Craibeira)
8º) Madalena: 2 (2 Juazeiros)
9º) Espinheiro: 2 (1 Gameleira e 1 Pau-brasil)
10º) Graças: 1(1 Baobá)
Jaqueira: 1 (1 Baobá)
Boa Vista : 1 (1 Baobá)
Cidade Universitária: 1 (1 Baobá)
Encruzilhada: 1 (1 Baobá)
Engenho do Meio: 1 (1 Baobá)
Fundão: 1 (1 Baobá)
Mustardinha: 1 (1 Baobá)
Barro: 1 (1 Baobá)
Ilha do Retiro: 1 (1 Sapotizeiro)
Aflitos: 1 (1 Cajueiro)
Iputinga: 1 (1 Flamboyant Amarelo)
Santo Amaro: (1 Mangueira)
Curado (1 Cajueiro)
Bomba do Hemetério: 1 (1 Paineira)
Dois Unidos: 1 (1 Gameleira)
Santana: 1 (1 Pau-de-Jangada