Vice-presidente da Câmara de Ipojuca é alvo de operação da Polícia Civil
Gilmar Costa (Republicanos) é um dos principais investigados da terceira fase da Operação Alvitre, deflagrada nesta quinta-feira (3) pela Polícia Civil de Pernambuco
O vice-presidente da Câmara Municipal de Ipojuca, Gilmar Costa (Republicanos), é um dos alvos da terceira fase da Operação Alvitre, deflagrada nesta quinta-feira (3) pela Polícia Civil de Pernambuco. Duas residências do vereador e seu gabinete parlamentar foram alvos de mandados de busca e apreensão. A investigação apura um esquema de direcionamento de emendas parlamentares para associações sociais e o caminho dos recursos após os repasses.
Segundo o delegado titular do 1° Departamento de Polícia de Repressão ao Narcotráfico, Dr. Ney Luiz, responsável pela investigação, vereadores, assessores, advogados, empresários e uma contadora teriam atuado de forma coordenada para definir as entidades beneficiadas pelas emendas. A apuração aponta ainda a emissão de notas fiscais falsas e movimentações financeiras consideradas suspeitas.
“Eles se reuniam antes para fazer os contratos, para direcionar os valores para determinada associação”, afirmou Ney.
Ao todo, a terceira fase tem 12 investigados e resultou no cumprimento de 13 mandados de busca e apreensão, além do bloqueio de R$ 1.227.800 em ativos financeiros.
Um dos principais pontos investigados é a atuação da MUDART, associação que tinha como presidente Simone Marques, morta em outubro de 2025 após deixar uma unidade policial onde havia sido chamada para prestar depoimento.
Segundo os dados apresentados pela Polícia Civil, a associação recebeu R$ 1.227.800 em repasses públicos entre 2017 e 2024. A investigação passou a analisar especialmente o período em que Simone esteve à frente da entidade.
Dois projetos da associação concentraram R$ 400 mil em recursos. Entre os gastos analisados estão duas notas fiscais que somam R$ 480 mil, emitidas em nome da empresa M. A. da Silva Festas. Os investigadores foram até o endereço indicado nos documentos, em Paulista, e encontraram um restaurante. Conforme Ney, a responsável pelo estabelecimento afirmou desconhecer os serviços descritos nas notas.
"Venho a público esclarecer que estou tranquilo e à disposição das autoridades para colaborar com todos os esclarecimentos necessários", informou o vereador em nota enviada ao Diario. "Sempre busquei exercer minhas funções com responsabilidade, transparência e respeito às leis. Respeito o trabalho da Polícia civil e confio que as investigações irão esclarecer todos os fatos. Seguirei acompanhando o andamento das apurações com serenidade e confiança. A verdade prevalecerá", afirmou Gilmar Costa.
A contadora responsável pela emissão dos documentos foi chamada para prestar esclarecimentos e, segundo a Polícia Civil, admitiu ter produzido notas fiscais falsas a pedido de Simone. “Ela confessou que fez notas fiscais frias. Em troca disso, recebeu alguns valores”, disse o delegado.
A Polícia Civil ainda investiga o destino dos recursos e não afirma que todo o dinheiro recebido pela associação tenha sido desviado.
Movimentação de R$ 16,7 milhões
A investigação também identificou uma movimentação financeira de R$ 16,7 milhões atribuída a uma mulher ligada ao gabinete de Gilmar Costa. Ela também foi alvo de busca nesta quinta-feira.
Segundo Ney, os valores chamaram a atenção dos investigadores e podem indicar a atuação de outras associações no esquema.
“A gente está investigando outras associações porque verificamos uma movimentação de cerca de R$ 15 milhões que pode indicar a participação de outras associações de Ipojuca também no esquema criminoso”, afirmou.
A Polícia Civil ainda apura a origem e o destino dos valores e a eventual relação dessas movimentações com as emendas parlamentares.
Vereadores investigados
Além de Gilmar Costa, são investigados os vereadores Flávio do Cartório (PSD) e um terceiro, cujo o nome não foi divulgado. Segundo a Polícia Civil, os três destinaram emendas para a associação presidida por Simone.
Nesta terceira fase, no entanto, Gilmar foi o vereador alvo dos mandados de busca.
A investigação aponta que os envolvidos teriam dividido funções. Os parlamentares seriam responsáveis pela destinação das emendas, advogados atuariam na parte jurídica e administrativa, a contadora na emissão dos documentos fiscais e assessores na estrutura de movimentação dos recursos. “Havia uma divisão de tarefas entre eles”, afirmou Ney.
R$ 39 milhões na primeira fase
A Operação Alvitre começou em outubro de 2025 com uma investigação sobre o repasse de R$ 39 milhões, por meio de emendas parlamentares, ao Instituto de Gestão em Políticas Públicas do Nordeste (IGPN), em Ipojuca.
Segundo a Polícia Civil, o instituto não teria capacidade técnica e operacional para executar os serviços para os quais recebeu os recursos. Parte das atividades teria sido repassada para outras instituições, entre elas uma faculdade e o Instituto Rede Vhida, sediado em Caruaru, mas com serviços prestados em Ipojuca.
Na primeira fase, “os eventuais cursos que foram pagos pela prefeitura não eram realizados. Quando eram, eram superfaturados”, afirmou o delegado.
Os repasses ao IGPN, segundo os dados levantados pela Polícia Civil, cresceram de R$ 2,28 milhões em 2022 para R$ 25 milhões em 2025. Dos 13 vereadores de Ipojuca, nove destinaram emendas ao instituto.
A primeira fase resultou na prisão de duas advogadas e de uma mulher ligada a uma instituição de ensino. Posteriormente, o gestor de uma faculdade também foi preso após se apresentar à Polícia Civil.
Presidente e vice foram presos na segunda fase
A segunda fase da investigação ocorreu em novembro de 2025 e atingiu diretamente a Câmara Municipal de Ipojuca. Na ocasião, foram presos os vereadores Flávio do Cartório e Professor Eduardo, então presidente e primeiro vice-presidente da Casa, ambos do PSD (Partido Social Democrático).
Os dois foram abordados quando deixavam um supermercado no Recife. Segundo a Polícia Civil, estavam com R$ 17 mil e uma lista com nomes.
A etapa também teve mandados de busca, bloqueio de ativos, sequestro de bens e suspensão do exercício de funções públicas.
Morte de testemunha ampliou investigação
Durante o avanço das apurações, Simone Marques foi chamada para prestar depoimento. Poucas horas depois de deixar a unidade policial, ela foi assassinada.
A morte levou a Polícia Civil a aprofundar a investigação sobre a associação presidida por ela.
“Uma testemunha que a gente havia intimado para depor na delegacia acabou sendo morta poucas horas depois. Isso fez com que a gente intensificasse ainda mais o trabalho investigativo e aprofundasse as investigações”, afirmou Ney.
Segundo o delegado, foi a partir desse aprofundamento que os investigadores identificaram indícios de participação da MUDART no esquema de direcionamento e utilização das emendas.
A associação atuava na área cultural, com projetos voltados a cursos para adolescentes e jovens. Segundo a Polícia Civil, alguns serviços chegaram a ser realizados, mas havia indícios de superfaturamento.
A investigação continua para identificar o destino dos recursos, a possível participação de outras associações e a responsabilidade individual dos investigados.