Pessoas em situação de rua ocupam as margens do Canal de Setúbal, em Boa Viagem
Grupo em situação de vulnerabilidade provoca incômodo, medo e também compaixão entre moradores, turistas e trabalhadores dos arredores
Há dois dias, Rebeca Silva passou a ler o romance espírita Giselle (2007), de Mônica de Castro, depois de a chuva encharcar e impedir a continuidade da leitura do infanto-juvenil Gênio do Crime (1969), de João Carlos Marinho. “São o meu mundo”, afirma ao Diario a mulher de 37 anos, que há cinco vive nas ruas. Para trás, ficou outra vida, mais tangível: a mãe, seis filhos e o familiar bairro do Ibura, no Recife.
Hoje, instalada à margem do canal de Setúbal e acampada sob uma lona preta, ela guarda latas, garrafas e outros recicláveis que consegue reunir no trecho que conecta as avenidas Domingos Ferreira e Fernando Simões Barbosa, no bairro de Boa Viagem, na Zona Sul. O material lhe rende, “num dia bom”, até R$ 30. Com o recurso, ela compra comida, cigarros, remédios e entorpecentes.
Conhecida pelos agentes de saúde como “a referência do canal”, Rebeca cuida de outras pessoas como ela. “Eu só dou cigarro, se comer três bolachinhas.” Há cinco anos, é usuária de maconha e crack. História semelhante à de Wilka, 36 anos, há sete usuária de drogas e há 12 meses moradora do canal. “Eu saí [do meu bairro] para algum amigo do meu filho não me ver usando.”
Wilka tem apenas um pulmão. Com imprecisão, afirma que perdeu o segundo em 2013. Na bolsa, onde guarda duas carteiras de cigarro vermelho, carrega também uma bombinha de asma. “Eu não posso sair sem isso”, conta. Antes do canal, diz que era residente do bairro de Candeias, em Jaboatão dos Guararapes. Passou por quatro internações para tentar superar o vício. Todas sem sucesso.
Impacto
As duas mulheres integram um grupo de oito pessoas em situação de rua no local, onde quatro pequenas estruturas foram improvisadas. O novo cenário preocupa o setor de serviços turísticos do entorno. “É uma perturbação. Eles invadem, ficam pedindo na escada, incomodando os hóspedes”, afirma a recepcionista de um hotel.
“Sempre houve ‘noiados’ aqui, mas acampar é a primeira vez”, reclama a trabalhadora, que atua há 12 anos no local. “Não houve nenhum assalto, mas há intimidação. Isso assusta o turista”, destaca. Para ela, a situação teve início meses após um supermercado da região ser vendido e o novo proprietário do imóvel cercar a calçada cuja cobertura antes servia de proteção para as pessoas sem teto.
No último domingo (31 de agosto), um vídeo das barracas foi publicado em uma rede social, onde conta com 22,2 mil visualizações. “Isso já passou de todos os limites”, comentou uma usuária. No local, Rebeca adiciona camadas. “Passamos por muitos perrengues. Eu tenho certeza de que sou capaz. Só preciso de uma oportunidade”, diz. “Nós somos usuários. Crime é vender.”
Outros olhares
Os comerciantes paulistanos José Carlos, 61, e Rosemary Padovani, 53, estão hospedados no bairro e pararam no local para deixar duas marmitas no acampamento improvisado. “Nós somos pastores”, revela Rosemary. “Sempre vimos essas pessoas como vítimas. Todo mundo passa e repudia. Isso é uma doença. Precisamos que as pessoas olhem e estendam as mãos”, defende.
“Na verdade, são escolhas”, emenda José Carlos. “Isso depende delas terem força e coragem. Haverá momentos de fraqueza, mas é preciso lutar”, concluiu o pastor da Igreja do Evangelho Quadrangular. Antes da doação, Rebeca falava em Deus: “Se eu estou respirando ainda, algum motivo Ele tem”, disse, antes de recomendar que todos agradeçam ao Senhor enquanto "ainda dá tempo".
O cenário
O Censo da População em Situação de Rua do Recife, realizado pela Prefeitura em parceria com a Universidade Federal Rural de Pernambuco, identificou que, em 2022, 1.806 pessoas moravam em vias públicas. A metodologia adotada para o levantamento serviu de referência para um recenseamento inédito do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) relacionado ao tema, que ainda será lançado.
Por meio de nota, a Secretaria de Assistência Social e Combate à Fome destacou que o trabalho é constituído por uma rede de proteção, com diversos serviços articulados de forma transversal. De acordo com a pasta, abordagens sociais são realizadas diariamente junto à população em situação de rua em diversos bairros da cidade, com a oferta de acolhimento institucional “cuja adesão é voluntária, em respeito ao direito constitucional de ir e vir”, destaca.
Ainda de acordo com a nota, uma equipe formada por “psicólogos, assistentes sociais e redutores de danos realiza visitas sistemáticas a fim de compreender demandas, estabelecer vínculos e sensibilizar as pessoas para o acesso à rede de cuidados”.
A nota ainda informa que “a Secretaria Executiva de Controle Urbano (Secon) também atua no território com ações de zeladoria. O procedimento prevê, quando necessário, a retirada de barracas, lonas, colchões e outras estruturas improvisadas instaladas irregularmente em espaços públicos. Antes do início da ação, as pessoas são formalmente notificadas”.
“A Secretaria de Assistência Social informa ainda que oferece diversos serviços, incluindo os Centros Pop, que oferecem atendimento e suporte especializado; o Centro Integrado de Atenção à População em Situação de Rua, que reúne serviços sociais, jurídicos, de saúde e de inclusão produtiva; além de unidades de acolhimento, como o Abrigo Noturno Irmã Dulce dos Pobres e os Hotéis Sociais”, conclui.