Cerca de 106 tartarugas marinhas morreram entre janeiro e agosto no Grande Recife
Especialistas apontam redes de pesca, embarcações e resíduos plásticos entre as principais ameaças
O número de registros de óbitos de animais marinhos no litoral pernambucano cresceu nos últimos meses. Entre os casos mais recentes, que ocorreram entre a sexta-feira (7) e o sábado (8), estão quatro tartarugas que foram encontradas mortas em praias de Jaboatão dos Guararapes e do Recife. Em 2026, somente no Grande Recife, foram notificadas cerca de 106 mortes de tartarugas marinhas do Cabo de Santo Agostinho ao litoral de Goiana, passando por Paulista, Olinda e demais municípios.
O dado alarmante foi revelado pelo integrante do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Tartarugas Marinhas e da Biodiversidade Marinha do Leste (Centro Tamar), Adriano Artoni.
O pesquisador, que também é coordenador do Núcleo de Monitoramento de Animais Marinhos e Silvestres (Moamas), da Prefeitura de Jaboatão dos Guararapes, lança um alerta para o crescimento de pescadores independentes que atuam sem a devida normatização da atividade de pesca.
“Houve um aumento no número de pescadores que atuam de forma independente, incluindo aposentados e pessoas que pescam por hobby. Com isso, cresce também a preocupação com os acidentes envolvendo animais marinhos", explica.
As colônias de pescadores dos municípios mantêm cadastros dos pescadores tanto profissionais como amadores. "Eles possuem identificação e são classificados de acordo com o tipo de pesca que praticam, seja artesanal ou industrial, e com o tipo de embarcação utilizada", explica Adriano. "Essas pessoas recebem orientações sobre as normas e a legislação, inclusive sobre quais espécies podem ou não ser capturadas e quais estão ameaçadas de extinção”, completa.
Principais causas de mortalidade de animais marinhos
Artoni acrescenta que há regras para a utilização de equipamentos, como redes de espera e espinhéis, espécie de corda longa com vários anzóis iscados, entre outros instrumentos. Segundo ele, quando esses instrumentos são colocados no mar, é necessário que o pescador faça o monitoramento adequado.
“Os pescadores registrados nas colônias, em geral, têm conhecimento dessas normas e dos procedimentos de fiscalização, o problema está nos pescadores que não são registrados e que acabam utilizando redes sem seguir essas orientações. Muitas vezes, eles não acompanham o equipamento depois que ele é deixado no mar, o que pode provocar acidentes. Por isso, temos registrado ocorrências envolvendo não apenas determinadas espécies de peixes, mas também animais marinhos, como mamíferos”, ressalta.
Outras causas também são apontadas pela bióloga Rayza Brasileiro, diretora do Núcleo de Sustentabilidade Urbana da Secretaria de Meio Ambiente de Paulista.
“Entre as principais causas de mortalidade, destacam-se o impacto com embarcações e hélices, a ingestão ou interação com resíduos sólidos, especialmente plásticos. Estudos indicam que esses resíduos estão presentes em mais de 50% dos indivíduos analisados em necropsias, além do aprisionamento em redes de pesca, especialmente as chamadas 'redes fantasmas'", explica.
Segundo Rayza, essas redes, muitas vezes abandonadas por pescadores sem a devida orientação ou autorização, "podem permanecer ativas no ambiente marinho por décadas, tornando-se armadilhas letais e responsáveis por uma parcela significativa da captura incidental de megafauna marinha”.
Conforme a pesquisadora, embora sejam animais marinhos, as tartarugas são répteis pulmonados e dependem do oxigênio atmosférico para sobreviver. Elas possuem grande capacidade de apneia, podendo permanecer submersas por cerca de quatro a seis horas, dependendo da espécie, da temperatura da água e do nível de atividade metabólica.
“No entanto, quando ficam presas em redes, são impedidas de subir à superfície para respirar, o que leva à hipóxia e, consequentemente, ao afogamento”, ressaltou.
Diante desse cenário, ambos reforçam que é fundamental fortalecer ações de monitoramento e conservação, promovendo a integração entre pescadores, municípios, prefeituras, CPRH e ICMBio.
“Essa atuação conjunta é essencial para reduzir os impactos, considerando que áreas com programas de educação ambiental e manejo de pesca apresentam redução significativa na mortalidade por captura incidental, e garantir a proteção das tartarugas marinhas”, conclui a bióloga.