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No Paiva, surfista recolhe resíduos e incentiva frequentadores na preservação da praia

Surfista há 39 anos, Mabuia transformou o cuidado com a praia em parte da rotina e busca estimular clientes e novos praticantes do esporte a preservar o litoral

Por Adelmo Lucena

Alexandre de Lima, mais conhecido "Mabuia", coleta lixo na Praia do Paiva e busca incentivar outros surfistas na preservação

Basta caminhar alguns metros pela faixa de areia da Praia do Paiva, no Cabo de Santo Agostinho, para que o olhar do surfista e comerciante Alexandre Fernando de Lima, de 47 anos, encontre aquilo que passa despercebido pela maioria das pessoas. Diariamente ele recolhe tampinhas de garrafa parcialmente enterradas, pedaços de canudos, palitos de pirulitos levados pelo vento e pequenas embalagens deixadas para trás depois de um dia de lazer.

Enquanto banhistas seguem em direção ao mar e surfistas procuram a melhor onda, “Mabuia”, como é conhecido, aproveita as brechas durante as vendas de açaí para recolher resíduos deixados na natureza.

A cena faz parte da rotina de quem frequenta o trecho da praia onde funciona sua barraca de açaí. O surfista repete esse ritual desde que abriu o negócio, há nove anos. Muito antes disso, porém, a relação com aquele ambiente já havia sido construída sobre uma prancha de surfe.

Há quase 40 anos ele entra no mar quase diariamente e aprendeu que preservar o lugar onde pratica o esporte é uma responsabilidade que não termina quando acaba a sessão de ondas.

Para Mabuia, recolher pequenos resíduos da areia nunca foi uma ação extraordinária. “Quem é surfista das antigas sempre cresceu com essa ideia de preservar o lugar onde vive. A praia é a nossa casa. Muitas vezes a gente passa mais tempo aqui do que dentro da própria casa, então não faz sentido ficar esperando que outra pessoa cuide. Se cada um fizer um pouco, esse ambiente permanece limpo e todo mundo ganha.”

As caminhadas de limpeza costumam acontecer duas vezes por semana, às quintas e sextas-feiras, quando o movimento ainda permite alguns minutos longe do balcão. Nos fins de semana, com a praia cheia, sobra pouco tempo para percorrer a areia. Ainda assim, ele garante que percebe uma diferença na área que acompanha diariamente.

Segundo o surfista, os resíduos aparecem todos os dias, mas raramente permanecem acumulados. O que encontra com mais frequência são tampinhas plásticas, embalagens, canudos, palitos e pequenos objetos carregados pelo vento ou deixados por frequentadores.

Ele diz que, ao longo dos anos, também passou a perceber que o exemplo influencia outras pessoas. Alguns clientes começaram a recolher resíduos espontaneamente e outros passaram a descartar corretamente o próprio lixo depois de observarem sua rotina.

“O lixo nunca vai deixar de existir. Mas eu percebi que a área onde faço essa limpeza permanece organizada. As pessoas observam, começam a entender que aquele espaço também é delas e passam a colaborar. A solução não depende só de grandes ações. Às vezes basta uma pessoa começar.”

Relação construída dentro d’água

A ligação entre Mabuia e o mar começou ainda na adolescência. Desde então, o surfe se tornou parte da maneira como ele enxerga o mundo. Na avaliação dele, essa convivência constante com a natureza desperta um senso de pertencimento difícil de explicar para quem não vive essa realidade.

“O surfe faz você prestar atenção em tudo. Você observa o vento, a maré, a corrente, os animais, o comportamento do mar. Essa convivência cria uma consciência natural de preservação. A gente aprendeu isso com os surfistas mais antigos e tenta passar para quem está chegando agora. Não é uma obrigação. É um jeito de viver.”

Essa percepção aparece também em uma pesquisa realizada com surfistas pernambucanos. O levantamento da Raio-X Ecosurf mostrou que todos os participantes afirmaram já ter mudado hábitos para reduzir impactos ambientais, enquanto 81,8% disseram estar dispostos a participar de ações concretas de proteção do mar.

Para Mabuia, os números apenas confirmam algo que ele sempre observa na areia. “Quem passa muito tempo no mar acaba percebendo que tudo está ligado. O lixo jogado na rua vai para os canais, chega aos rios e termina no oceano. Depois ele volta para a nossa vida.”

Praia também faz parte do trabalho

Quando decidiu abrir a barraca de açaí na Praia do Paiva, Mabuia percebeu que cuidar do entorno do estabelecimento também fazia parte do negócio.

Além de recolher resíduos, passou a organizar a área em frente ao comércio, manter a areia limpa e até retirar peixes mortos que eventualmente aparecem na faixa de praia para evitar mau cheiro e acidentes.

Para ele, essas ações ajudam a tornar o ambiente mais agradável para quem frequenta o local, mas nunca tiveram como objetivo principal atrair consumidores.

“Quando cheguei, essa área era bem desorganizada. A gente foi arrumando, plantando, limpando e os clientes começaram a perceber isso. As pessoas gostam de ficar em um lugar limpo e organizado, mas eu faço porque também quero chegar aqui e encontrar a praia bem cuidada. Esse espaço faz parte da minha rotina.”

A preocupação se estende ao próprio funcionamento da barraca e, mesmo reconhecendo que o custo é maior, ele substituiu parte dos materiais descartáveis por alternativas menos poluentes, como copos e canudos de papel e palitos de madeira.

Nos últimos anos, a Praia do Paiva passou a receber um número crescente de praticantes de surfe. Três escolinhas funcionam atualmente perto da barraca de Mabuia, levando crianças, adolescentes e adultos para o primeiro contato com o esporte.

O surfista acredita que esse crescimento representa também uma oportunidade para fortalecer a educação ambiental. “Seria muito bonito se o primeiro dia de aula também fosse um dia para cuidar da praia. Antes mesmo de aprender a pegar onda, a pessoa entenderia que aquele espaço precisa ser preservado.”

Sempre que visita outras praias para surfar, ele repete o mesmo comportamento. Conta que se incomoda ao encontrar lixo espalhado na areia, principalmente em locais onde há intenso movimento de comerciantes e frequentadores.

Na visão dele, quem trabalha à beira-mar também poderia assumir um papel mais ativo na conservação desses espaços.

“Não estou dizendo que o poder público não deva fazer a parte dele. Faz, e aqui mesmo a limpeza acontece com frequência. Mas quem trabalha todos os dias na praia também pode contribuir. Se cada comerciante mantivesse limpa a área onde atua, já haveria uma diferença enorme. O cliente percebe quando chega a um ambiente organizado.”

Há nove anos, a caminhada entre a barraca de açaí e o mar raramente termina da mesma forma que começou. Quase sempre há um pequeno lixo para ser retirado e Mabuia simplesmente recolhe, descarta e segue em frente. Atualmente, ele calcula a quantidade de material recolhido para fazer um balanço, ao lado de uma engenheira ambiental.