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Poluição faz surfistas de Pernambuco mudarem hábitos para evitar impactos, aponta estudo

Levantamento nacional mostra elevado engajamento ambiental no estado, que também lidera o ranking brasileiro de conhecimento sobre leis relacionadas à poluição plástica

Por Adelmo Lucena

Praia do Carmo em Olinda.

A preocupação com a preservação do oceano já se transformou em mudança de comportamento entre os surfistas pernambucanos. Uma pesquisa do Instituto Ecosurf revela que 100% dos entrevistados em Pernambuco afirmaram ter alterado a rotina para reduzir os impactos ambientais, enquanto 72,7% se dizem extremamente preocupados com a poluição causada por plásticos no mar.

Além disso, 81,8% demonstraram disposição para participar de ações de proteção do oceano, indicando um dos mais elevados níveis de engajamento ambiental registrados no levantamento.

Os dados fazem parte do Raio-X Ecosurf, pesquisa nacional que ouviu 539 surfistas brasileiros para avaliar a percepção da comunidade sobre conservação marinha, mudanças climáticas, poluição plástica e participação em ações de proteção ambiental. No recorte de Pernambuco, foram analisadas as respostas de 11 participantes.

Além do engajamento, o estado também se destacou em outro indicador e aparece na liderança entre as dez unidades da federação com amostra suficiente para comparação no quesito conhecimento sobre leis e políticas públicas voltadas ao combate da poluição plástica.

Segundo o estudo, 72,7% dos surfistas pernambucanos afirmaram conhecer alguma legislação relacionada ao tema.

O índice coloca Pernambuco à frente de estados tradicionalmente ligados ao surfe, como Santa Catarina (54,6%), Rio Grande do Sul (53,7%), São Paulo (51,9%), Rio de Janeiro (51%), Ceará (48%) e Espírito Santo (46,2%). Na outra ponta do ranking está o Paraná, onde apenas 27,3% dos entrevistados disseram conhecer esse tipo de política pública.

A pesquisa também aponta que a percepção sobre os efeitos das mudanças climáticas é praticamente unânime entre os surfistas pernambucanos. Ao todo, 90,9% afirmam que as alterações no clima já afetam significativamente o oceano e as condições para a prática do surfe.

Um destes surfistas é Jerônimo Pereira da Paz, de 50 anos, que costuma surfar em praias como Maracaípe e Itapuama. Ele destaca que, em Olinda, onde vive, a presença do lixo já afastou diversos surfistas, mas que resíduos também já são encontrados em praias do Litoral Sul.

“Vejo muita sujeira em Itapuama, até porque tem um canal que deságua lá e suja o mar com muito plástico. Outros surfistas também comentam sobre isso e inclusive um colega meu tem um projeto para conscientizar sobre essa causa. Acho que os órgãos públicos têm que olhar para isso, porque o mar também mexe com o turismo”, afirma.

No entanto, o levantamento mostra que ainda existe uma visão crítica sobre a mobilização da própria comunidade. Mais da metade dos entrevistados (54,5%) considera que o engajamento dos surfistas na proteção da natureza ainda não é satisfatório.

Cabo de Santo Agostinho concentra praticantes

O estudo também identificou os principais locais utilizados para a prática do surfe em Pernambuco. O Cabo de Santo Agostinho foi o município mais citado pelos participantes, com sete menções.

Entre as praias mais frequentadas aparecem Itapuama e Porto de Galinhas, ambas com 23,1% das citações, seguidas por Maracaípe (15,4%). Também foram mencionadas Cacimba do Padre, Conceição, Paiva, Pau Amarelo e Praia do Cupe, todas com 7,7%.

O perfil predominante dos entrevistados em Pernambuco é de surfistas entre 36 e 45 anos (36,4%) e com nível intermediário de experiência (63,6%).

Brasil

Em âmbito nacional, a pesquisa destaca que a poluição plástica é uma realidade diária para quem frequenta o litoral brasileiro.

Dos 539 surfistas entrevistados, 93,9% afirmaram encontrar resíduos plásticos sempre ou frequentemente nas praias onde surfam. Outro dado que chama atenção é que 43,2% relatam encontrar animais marinhos mortos sempre ou frequentemente.

O Instituto Ecosurf ressalta que essa informação não estabelece uma relação direta entre essas mortes e a poluição plástica, mas demonstra uma percepção recorrente de degradação ambiental nas áreas costeiras.

A pesquisa mostra ainda que essa percepção tem se convertido em práticas para amenizar o cenário. Em todo o país, 97,2% dos surfistas afirmaram já ter mudado hábitos pessoais para reduzir impactos ambientais, enquanto 76,3% disseram estar dispostos a participar ativamente da proteção do oceano.

Além das mudanças individuais, a comunidade cobra ações estruturais. Quase a totalidade dos participantes defende mais investimentos públicos no combate à poluição (99,6%) e maior responsabilização das empresas pela geração de resíduos plásticos (98%).

Embora o engajamento ambiental seja elevado, a pesquisa identificou uma lacuna na formação da comunidade. Mais da metade dos entrevistados (53,2%) afirmou desconhecer o conceito de Ecossistemas de Surfe, que integra aspectos ambientais, sociais e culturais fundamentais para a conservação das ondas, da biodiversidade e das comunidades costeiras.

Para o Instituto Ecosurf, o resultado demonstra que os surfistas já reconhecem os impactos da degradação ambiental e estão dispostos a agir, mas ainda precisam ter maior acesso ao conhecimento científico e aos instrumentos de gestão costeira.

A avaliação é que ampliar programas de educação oceânica e comunicação científica pode fortalecer a participação da comunidade na formulação de políticas públicas voltadas à proteção do litoral brasileiro.

Por meio de nota, a Prefeitura do Cabo de Santo Agostinho informou que realiza, de forma contínua, serviços de limpeza em toda a orla do município, além de promover campanhas de conscientização voltadas ao descarte correto de resíduos, tanto junto aos comerciantes quanto à população.

De acordo com a gestão municipal, é necessária a colaboração coletiva para manter as praias limpas, preservar os recursos naturais e garantir a preservação do meio ambiente.