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A dor do assassinato do filho que fez surgir um Centro Comunitário no Ibura, na Zona Sul do Recife

Criado há oito anos no Dia da Consciência Negra, o Centro Comunitário Mário Andrade carrega o nome e os sonhos de um adolescente de 14 anos que foi assassinado por um ex-PM

Por Bartô Leonel

As atividades de reforço escolar precisam de doações para continuar acontecendo

Foi em meio ao alívio de conseguir comprovar a inocência do filho e ao luto de uma mãe que perdeu seu bem mais precioso por conta da violência de um ex-policial que o Centro Comunitário Mário Andrade surgiu, em 2018, com o objetivo de promover uma mudança social na vida de jovens e famílias do bairro do Ibura, na Zona Sul do Recife.

O Centro Comunitário, que promove cursos profissionalizantes para mulheres, aulas de reforço para crianças e adolescentes e a doação de cestas básicas para famílias do bairro, foi criado no dia 20 de novembro de 2018, Dia da Consciência Negra.

A inauguração aconteceu 14 dias após a condenação do assassino de Mário Andrade, que foi sentenciado a cumprir 28 anos e seis meses de prisão, dois anos depois do crime. O adolescente foi morto a tiros por um ex-PM que, à época, era sargento da reserva, após colidir sua bicicleta com a motocicleta do ex-militar.

Na época, a Polícia Militar de Pernambuco (PMPE) afirmou que o caso teria sido uma tentativa de assalto, à qual o ex-PM teria reagido.

"Mário tinha muitos sonhos. Ele me dizia que queria ter uma fábrica de feijão e que iria doar alimentos para as famílias que não tinham condições de comprar. Foi por causa desse e de outros sonhos dele que decidi derrubar a minha casa, onde passei 14 anos com meu filho, para construir o Centro Comunitário, justamente para ajudar minha comunidade e fazer algo pelos adolescentes, para que não haja outros Mários e outras Joelmas", destacou a mãe de Mário, Joelma Andrade Lima, fundadora do Centro Comunitário.

Segundo Joelma, a distribuição de cestas básicas, que diminuiu bastante por conta da falta de doações, chega a atender cerca de mil famílias do Ibura e de outras localidades próximas.

Com relação ao reforço escolar, que atende 40 crianças e adolescentes de 4 a 14 anos, as atividades estão paralisadas justamente por causa da redução das doações.

"As atividades de reforço estão paradas por conta da falta de doações de lanche para as crianças, porque, como a gente mora em uma comunidade muito vulnerável, muitas delas já chegam ao Centro para comer, pois não têm uma refeição em casa", explicou Joelma.

Atualmente, segundo Joelma, 20 mulheres participam, no Centro, do curso de Direito à Cidade e Justiça Climática, enquanto outras 25 beneficiárias fazem a oficina de comunicação comunitária. Vale ressaltar que todos os cursos são promovidos em parceria com outras instituições.

Outras atividades

Além dos cursos de formação e do reforço escolar, o Centro Comunitário promove, todos os anos, a Festa das Crianças, realizada no mês de outubro, evento que reúne cerca de 80 meninos e meninas da comunidade.

Além de ser um espaço de acolhimento para as crianças, o Centro também se transforma em abrigo durante períodos chuvosos, como os registrados em 1º de maio deste ano e em 2022, quando o local acolheu famílias atingidas pelas chuvas.

 

Questão financeira

Por ter como principal fonte de recursos as doações de pessoas físicas, o Centro vem enfrentando dificuldades para manter suas atividades. Segundo Joelma, as contribuições diminuíram consideravelmente nos últimos anos, o que impacta diretamente a assistência prestada às famílias.

"As doações estão paradas, tanto que a gente está com a escolinha parada. Eu ganhei, por exemplo, os maquinários de uma cozinha comunitária e equipamentos de corte e costura, mas o problema é a compra dos insumos para colocar esses equipamentos para funcionar. Por conta disso, eles estão parados aqui em casa."

Outros problemas enfrentados pelo Centro dizem respeito ao número reduzido de voluntários e à falta de um CNPJ, o que limita a captação de recursos por meio de editais públicos.

Apesar dessas dificuldades, o sentimento de cuidar das famílias do Ibura faz com que Joelma mantenha as atividades do Centro e preserve viva a memória do filho.

"O Centro é o coração de Mário. É um lugar onde as pessoas se sentem verdadeiramente acolhidas e sabem que podem contar com a gente. A partir do momento em que eu ajudo uma família, sinto meu filho presente, pois sei que estou dando continuidade aos sonhos dele. O Centro é minha força e o que me mantém de pé", finalizou Joelma Andrade Lima.