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Do Coque para o mundo: violinista recifense vence as barreiras da periferia e conquista mestrado nos EUA

Aos 22 anos, Luhan Lucena se prepara para embarcar para o Tennessee após concluir graduação na Louisiana. Ex-aluno da Orquestra Criança Cidadã recorre a vaquinha para custear os primeiros meses na nova cidade

Por Nicolle Gomes

Luhan Lucena, de 22 anos

Nas ruas da comunidade do Coque, no Centro do Recife, nasceu um sonho que ultrapassou os limites geográficos e sociais. Luhan Lucena, de 22 anos, é um jovem músico que encontrou no violino um sentido para a vida. Essa história começou há 18 anos.

Luhan tinha 4 anos quando conheceu o mundo da música, por meio da Orquestra Criança Cidadã. O instrumento que mais tarde veio a ser o fiel companheiro, na verdade, entrou em evidência por uma questão prática.

“Tinha outras opções, mas, como eu era muito pequeno, o violino era o único instrumento que eu conseguia tocar”, relembra Luhan, em entrevista ao Diario de Pernambuco.

Caçula de três irmãos, o menino “traquino”, como descreve a tia de Luhan, Ilka Oliveira, de 48 anos, sempre foi obstinado.

“Desde o início ele gostou, se apegou à música, aos instrumentos, e ele é muito dedicado. A gente sempre viu isso nele”, comenta.

Por ter um pai músico, Luhan teve contato com outros instrumentos, mas acabou por se afeiçoando às quatro cordas do violino, que viraram um caminho pelo qual ele passeou incontáveis vezes. O talento era claro.

O incentivo da família o aproximou ainda mais da prática, que se tornou mais do que um hobby, uma vocação de vida. Luhan conta que, aos 11 anos, percebeu que a relação com a música era muito mais forte do que ele mesmo sabia.

“Foi com a influência dos meus professores e da minha família, que sempre me apoiavam. Eu ficava reproduzindo isso na minha cabeça. Foi quando percebi que poderia dar certo”, diz.

Aos 13 fez uma apresentação em um evento na Paraíba. Lá, um professor americano, encantado pela performance de Luhan, ofereceu uma bolsa para a graduação em música. O garoto ainda era muito novo, sequer havia concluído o Ensino Médio. O professor apostou em aguardá-lo na cidade da Louisiana, no Sul dos Estados Unidos.

Ainda muito novo, ele recorda que não entendia o tamanho da oportunidade que tinha aparecido. “Fui sem compromisso nenhum, porque até então eu só tocava por diversão”. O sonho teve que esperar.

Mesmo após se formar no ensino médio, a pandemia atrasou a viagem de Luhan. Esse tempo, ele relata, foi marcado por dúvida e angústia. Ainda assim, ele seguiu. Cinco anos depois, aos 18, se mudou. Como ele mesmo diz, foi preciso resistir.

“Teve um momento, principalmente na pandemia, bastante difícil. Porque viver da música, ser artista, é complicado, especialmente por aqui. Não tem muito recurso. Muitas vezes acontece de colegas de trabalho precisarem de dinheiro e acabarem desistindo. Eu realmente pensei, mas não desisti porque minha família e os professores me motivaram a continuar”, conta.

Com um sorriso orgulhoso, a tia exalta também a inteligência do sobrinho, que, aos 18 anos, partiu numa jornada em um país com linguagem, cultura e costumes completamente diferentes. E, apesar de tudo isso, ele não desistiu.

“Um menino meigo. Como toda criança, gostava de atenção e carinho. Hoje ele se tornou um rapaz tímido, mas é muito inteligente; também muito autônomo, independente”, afirma a tia toda orgulhosa.

Foram outros cinco anos de graduação na Nicholls State University. Hoje, bacharel em Performance Musical, Luhan relata os desafios daquele período.

“O maior desafio é a questão da família, a saudade. A cultura também, idioma, alimentação, jeito das pessoas, tudo é diferente. O financeiro também pesa. Para a gente que vem, por exemplo, de comunidades, já crescemos pensando que é mais difícil para nós”, comenta, emocionado.

O tempo precisou ser dividido entre o trabalho e os estudos, mas o importante era não parar. E assim aconteceu. A saudade da família era saciada nas férias, quando o jovem arrumava uma brecha para voltar às terras recifenses.

A formação não é um ponto final na história de Luhan. Para ele, há muito ainda para aprender, ele argumenta. Ele sonha em poder dar melhores condições à família e em se tornar professor de música.

O futuro, na verdade, não é a maior das preocupações, segundo Luhan. O presente assim é chamado por um motivo: por todas as possibilidades disponíveis no agora.

“Muita gente me pergunta meus planos, mas não tenho planos fixos. Para mim, onde eu tiver a possibilidade de tocar, de estar fazendo música e arte, está bom" diz.

O poder da música

Filho de um músico amador, Luhan pondera que sempre houve uma relação afetiva entre ele e a música – o motor de toda a trajetória percorrida por ele.

“A música sempre foi parte da minha vida. Todos os amigos que eu conheci, as viagens que fiz, os momentos que eu tive, tudo pela música. Esse é um dos motivos que me faz continuar. Eu sei que, se eu consegui isso até hoje, posso conseguir mais com a música”, pontua.

A magia que ronda a música para Luhan é o poder de conexão, ele diz. Apaixonado pela área, ele conta que consome e toca de “tudo um pouco”.

“A música pode alcançar as pessoas de forma diferente. Todo mundo tem uma banda que ouve e gosta. Eu toco violino, um instrumento clássico. E, como uma pessoa de comunidade, sei que muita gente não tem acesso à música clássica, então toco de tudo, para me aproximar das pessoas”, relata.

Para além de tudo isso, Luhan destaca a capacidade da música como agente de transformação social. Não à toa, ele carrega uma tatuagem no antebraço esquerdo que diz “Music Heals” – música cura, em tradução direta do inglês.

“Ainda estou crescendo na minha carreira, mas, quando eu volto para cá e eu olho a minha história, vejo a transformação. O projeto social foi criado para afastar as crianças da criminalidade, de envolvimento com coisas erradas. Vejo que muitos amigos foram por um caminho melhor, tiveram oportunidade de crescer, de ter perspectiva de vida. Eu vejo essa importância”, alega.

Hoje, aquele menino do Coque sonha em poder também ajudar a inspirar outras crianças. “Quando eles veem uma pessoa de uma comunidade igual a eles, têm essa inspiração. Acho que todo mundo que vem de comunidade tem o sonho de ‘ser alguém’. Há essa imagem marginalizada, mas só queremos o direito de viver, de conquistar, de ser visto e reconhecido pelo esforço”, explica.

Mestrado

Há cerca de um mês, Luhan foi aprovado em um mestrado em mais uma universidade americana. Esse passo é mais um nessa caminhada de evolução pessoal e profissional.

O artista finaliza os últimos detalhes para embarcar já no mês de agosto. Desta vez, levará um pedaço da comunidade do Coque para a cidade de Memphis, no estado do Tennessee.

“Penso em continuar na minha busca acadêmica. É importante procurar conhecimento primeiro, até para passar uma informação, por exemplo, para melhor instruir meus alunos. Quando eu me formar, eu tenho duas possibilidades: fazer outro mestrado ou ir para o doutorado de música”, projeta.

Apesar de já ter vivido a experiência de estudar fora, Luhan comenta que vai para um lugar diferente, o que demanda uma nova adaptação. O jovem conseguiu uma bolsa que custeia os estudos (uma economia de cerca de 20 mil dólares), mas ele explica que os primeiros meses são os mais difíceis para conseguir emprego e arcar com as despesas básicas de moradia e alimentação.

Para buscar ajuda, Luhan compartilha a própria história nas redes sociais e abriu uma vaquinha virtual para arrecadar dinheiro. Quem tiver interesse em contribuir, pode acessar o perfil dele no Instagram @_luhanlucena_.

“Eu acho que o mais importante não é onde a gente chega, mas o caminho. Então eu acho que o processo todo, as dificuldades, as pessoas que a gente conhece, esses momentos bons, as memórias, é o que fica. Estou empolgado e o que eu espero é ter essa experiência durante o caminho”, finaliza.