Há 181 anos, Diario noticiou ataque de tubarão no Recife; contagem dos casos só começou em 1992
Noticiado no dia 26 de maio de 1845, incidente causou morte de banhista na área onde ficava o Porto do Recife
Há 181 anos, o Diario de Pernambuco noticiava um dos primeiros relatos conhecidos de ataque de tubarão no litoral pernambucano. Publicada em forma de uma discreta nota no dia 26 de maio de 1845, a notícia chamava atenção para a morte trágica de um banhista que havia descido as “escadinhas da alfândega” para tomar um banho de mar, provavelmente, nas proximidades de onde funcionou o Porto do Recife.
“Um pobre preto metteo-se n’agoa para tomar um banho, junto às escadinhas da alfândega, e n’um fechar de olhos levou-lhe o tubarão uma perna (sic)”, diz a notícia, segundo a qual o incidente aconteceu dois dias antes da publicação daquela edição, em um sábado.
De acordo com o registro, a vítima chegou a ser socorrida, mas não resistiu aos ferimentos. “Acodiram-lhe immediatamente, porém a amputação do monstro havia sido tão superior que o preto morreu poucos momentos depois (sic)”, conclui a nota, com grafia típica da época.
Segundo a tese de doutorado “As praias e os dias: história social das praias do Recife e Olinda, 1840-1940”, realizada por Rita de Cássia Barbosa de Araújo pelo Departamento de História da Universidade de São Paulo (USP), na época do incidente, a presença de pessoas negras e pobres nas praias costumava se resumir ao acompanhamento dos senhores e banhos salgados, por vezes, procurados por recomendação médica. As camadas populares apareciam nesses espaços “subliminar e esporadicamente, quando acompanham os senhores aos banhos salgados, carregando as bacias com água para lavar-lhes os pés sujos de areia, ou quando emprestam os músculos e a força física para amparar as brancas sinhás no enfrentamento das ondas”.
Embora tenham atuado como operárias empregadas na construção da Avenida Boa Viagem, pessoas negras só eram lembradas pela imprensa em sua relação com a praia quando eram vítimas de algum sinistro: afogamentos, acidentes nas pedras do porto ou ataques de tubarão. “A partir da década de 1930, a presença das camadas populares nas orlas marítimas torna-se mais regular e expressiva. Altera-se daí em diante as feições social e cultural das praias", acrescenta o estudo.
Na década de 1840, quando o Brasil ainda era governado pelo império de Dom Pedro II e a escravidão ainda não havia sido abolida, já corriam pelo Recife os relatos de ataques de tubarão. Em seu famoso “diário íntimo”, o engenheiro francês Louis Léger Vauthier relata a repercussão negativa de sua decisão de tomar um banho nas proximidades do porto, no dia 30 de setembro de 1940.
“Deitei-me tarde depois de um banho em frente à nossa casa. Água deliciosamente tépida. Prazer um pouco perturbado pela ideia de que às vezes entram tubarões no porto. É certamente uma pilhéria, mas enfim, dizem isso e é o bastante para eu temer ter cometido uma imprudência”, diz o relato do francês.
À época, a população do Recife acreditava, segundo a tese de Rita de Cássia Barbosa de Araújo, que a cidade ficava em uma espécie de “rota dos tubarões”. A despeito da reprovação dos recifenses, Vauthier voltou às águas da cidade no dia seguinte, em um banho de rio, ignorando o que chamou de “temor dos tubarões”.
Casos
Embora incidentes envolvendo tubarões estejam registrados nos jornais locais desde o século XIX, a contagem oficial dos casos no Grande Recife só começou em 1992, com a criação do programa de monitoramento conduzido pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). Desde então, o Estado contabiliza 83 ocorrências (veja o infográfico), número considerado mais preciso por ser baseado em critérios científicos de registro e investigação.
“Os registros anteriores a 1992 foram desconsiderados na contagem. Por questão de segurança mesmo e de confiança nas informações anteriores”, explica Paulo Oliveira, professor de Engenharia de Pesca da UFRPE.
Ele integra a equipe que conquistou o recurso de R$ 1 milhão através de um edital do Governo do Estado, para realizar dois anos de monitoramento em Olinda, Recife e Jaboatão dos Guararapes. O programa de acompanhamento dos animais tinha sido descontinuado em 2015.
“Esse recurso que recebemos agora para monitoramento não foi dado, nós conquistamos através de um edital. O monitoramento não pode depender de escolhas políticas de governo A ou B, mas ser transformado em uma política de Estado, com recursos garantidos inclusive para educação da população”, destaca Oliveira.
O pesquisador afirma que a descontinuidade do programa impede que os cientistas analisem a situação da costa pernambucana com precisão, através de uma série histórica. Ele também lembra que novos tubarões nascem, crescem e morrem de maneira dinâmica, bem como ressalta que as mudanças climáticas têm afetado o comportamento das espécies no mundo inteiro.
“É cada vez mais comum, em vários lugares do planeta, que os tubarões estejam se aproximando da costa. E aí quando a gente vai ter uma série histórica bacana, o monitoramento precisa acabar porque o financiamento é descontinuado”, comenta.