Pesquisa da UFPE aponta impacto positivo dos telhados verdes no clima urbano do Recife
Estudos mostra que coberturas vegetadas ajudam a reduzir temperaturas, reter água da chuva e combater ilhas de calor urbanas
Em um Recife cada vez mais quente, impermeabilizado e vulnerável a enchentes, um artigo recente da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) aponta os telhados verdes como uma alternativa sustentável capaz de reduzir temperaturas, melhorar o conforto térmico e ajudar no controle da água da chuva.
A estratégia é aplicada devido ao crescimento urbano acelerado. Dados do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que 87% da população brasileira vive em áreas urbanas. Em Pernambuco, cerca de 84% dos habitantes estão concentrados nas cidades.
A urbanização e a redução da cobertura vegetal aparecem associadas ao aumento das ilhas de calor urbanas, segundo o estudo "Telhados Verdes: avaliação do seu papel na redução das ilhas de calor urbanas em Recife-PE", desenvolvido na Unidade Experimental de Telhados Ecológicos do Recife (UETER), localizada no Centro de Tecnologia e Geociências da UFPE. A pesquisa analisou imagens de satélite entre 2014 e 2024 e identificou uma expansão das áreas impermeabilizadas e diminuição da vegetação na capital pernambucana.
“O crescimento pode estar associado à expansão da infraestrutura urbana e à substituição de superfícies naturais por materiais impermeáveis, como concreto e asfalto. Esse fenômeno intensifica o efeito das ilhas de calor urbanas”, destaca o estudo da UFPE.
Com isso, os telhados verdes surgem como uma estratégia de adaptação climática. Em Pernambuco, a Lei Estadual nº 18.875/2025 regulamenta a implantação desse tipo de cobertura vegetal em novas edificações com mais de quatro pavimentos.
A legislação determina que projetos prevejam vegetação sobre lajes, coberturas, estacionamentos ou áreas de lazer. O descumprimento pode resultar em multas que variam de R$ 1 mil a R$ 100 mil, além do impedimento de licenciamento da obra.
Como funciona um telhado verde
Os telhados verdes consistem na instalação de camadas de vegetação sobre coberturas de edificações. Além das plantas, o sistema inclui impermeabilização, drenagem e substratos específicos para suportar o crescimento vegetal e o escoamento da água da chuva.
Segundo o engenheiro ambiental Gabriel Mendes, o principal efeito é a redução da absorção de calor pelas construções.
“A vegetação funciona como uma espécie de proteção natural da cobertura. Em vez do telhado absorver toda a radiação solar e devolver esse calor para o ambiente urbano, a camada vegetada ajuda a reduzir essa absorção e ainda promove resfriamento através da evapotranspiração das plantas. Na prática, isso contribui para diminuir a temperatura das edificações e ajuda no combate às ilhas de calor, que são cada vez mais comuns em cidades muito impermeabilizadas como Recife”, explica.
A pesquisa da UFPE confirma esse comportamento. Em testes realizados entre telhados convencionais e telhados verdes na UETER, os pesquisadores identificaram temperaturas internas mais amenas nas estruturas vegetadas durante os horários mais quentes do dia. Em um dos experimentos, enquanto um telhado convencional atingiu 33°C, o telhado verde permaneceu em torno de 30°C.
O estudo conclui que os telhados verdes apresentam “vantagens significativas em comparação às coberturas convencionais, especialmente no controle térmico”.
Retenção da água da chuva e redução de enchentes
Além do conforto térmico, especialistas apontam ganhos importantes no controle das águas pluviais, um problema histórico em Recife durante o período chuvoso.
De acordo com o estudo, a vegetação e o substrato conseguem absorver parte da água da chuva, reduzindo a velocidade do escoamento superficial e diminuindo a sobrecarga da drenagem urbana.
“O telhado verde ajuda na retenção da água da chuva, melhora a qualidade do ar, contribui para aumento das áreas verdes urbanas, reduz parte dos ruídos durante o período chuvoso e ainda melhora o desempenho energético das edificações na redução de potência necessária dos aparelhos de ar”, afirma Gabriel Mendes.
Segundo a pesquisa da UFPE, os telhados verdes funcionam como uma “solução sustentável para o manejo das águas urbanas”, reduzindo o risco de alagamentos e inundações nas cidades.
Apesar das vantagens ambientais, os telhados verdes ainda estão longe de se tornar comuns nas cidades pernambucanas. Entre os principais entraves estão os custos iniciais, a necessidade de mão de obra especializada e as limitações estruturais de muitos imóveis antigos.
“O principal cuidado é estrutural. Nem toda edificação foi projetada inicialmente para receber esse tipo de carga adicional, principalmente considerando o peso do sistema já saturado com água. Além disso, impermeabilização, drenagem e proteção contra raízes precisam ser muito bem executadas para evitar infiltrações e problemas futuros”, explica Gabriel Mendes.
O próprio estudo da UFPE ressalta que os sistemas exigem avaliação técnica e manutenção periódica para garantir desempenho térmico e durabilidade.
Gabriel Mendes afirma que Pernambuco possui condições climáticas favoráveis para expansão desse tipo de infraestrutura verde, mas avalia que ainda falta incentivo técnico e conscientização da população.
“Isso faz com que o telhado verde ainda seja visto, muitas vezes, como algo mais voltado para empresas que querem fortalecer ações ambientais ou para um número menor de residências que já possuem uma visão mais sustentável da construção”, afirma o engenheiro.
“Ao mesmo tempo, ainda falta uma compreensão maior da população sobre os ganhos reais dessa solução. Muitas pessoas associam apenas à estética, mas os benefícios vão muito além disso, envolvendo conforto térmico, retenção da água da chuva, melhoria ambiental urbana e até eficiência energética. Pernambuco tem um clima extremamente favorável para esse tipo de infraestrutura verde, então acredito que a tendência é esse debate crescer cada vez mais nos próximos anos”, complementa.
A conclusão da pesquisa da UFPE também cita essa perspectiva. Segundo o estudo, a implementação de telhados verdes, associada a outras medidas de infraestrutura verde, “pode transformar Recife em uma cidade mais resiliente às mudanças climáticas e mais habitável para sua população”.