Muro no Pontal de Maracaípe: entenda o caso que se arrasta há três anos na Justiça
Na decisão mais recente, 35ª Vara Federal de Pernambuco determinou retirada imediata do muro
Erguido na faixa de areia de uma das praias mais valorizadas no turismo do Litoral Sul de Pernambuco, o muro de contenção marítima construído no Pontal de Maracaípe, em Ipojuca, acumula um imbróglio jurídico que se arrasta por três anos.
Na decisão mais recente, assinada na última sexta (15), a 35ª Vara Federal de Pernambuco determinou a retirada imediata do muro, estabelecendo um prazo de 15 dias para que o proprietário realize a demolição completa da barreira.
Ainda conforme a decisão, que cabe recurso, se o responsável pela construção não cumprir a determinação dentro do prazo, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e a Agência Estadual de Meio Ambiente (CPRH) estão autorizados a fazer a remoção direta da estrutura. Os custos desta operação poderão ser cobrados posteriormente do proprietário do terreno.
Decisões a favor da derrubada do muro, que restringe o acesso à praia, já foram emitidas em anos anteriores, com o proprietário reconstruindo a estrutura poucas horas depois.
Diante de toda essa situação que se alonga na esfera judicial, o Diario de Pernambuco reuniu as principais informações sobre o impasse que gira em torno do muro no Pontal.
Construção do muro
Composto por dezenas de troncos de coqueiros e sacos de ráfia preenchidos com areia, o muro foi erguido em maio de 2023 pelo advogado e empresário João Vita Fragoso de Medeiros, dono de um terreno na área, sob o argumento de conter um suposto processo de erosão costeira.
A construção, que se tornou alvo de disputas judiciais, protestos de moradores e críticas de ambientalistas desde que foi instalado, tinha autorização da Agência Estadual de Meio Ambiente de Pernambuco (CPRH) na época, que liberou uma estrutura de 250 metros. Porém, a estrutura possui atualmente cerca de 570 metros de extensão.
A construção da barreira motivou uma audiência pública sobre o caso na Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe). Na ocasião, a CPRH voltou atrás e determinou a retirada da estrutura, admitindo que o muro atrapalhava o acesso à praia e não cumpria as regras ambientais determinadas.
Além da revogação da autorização da CPRH, entidades como a Comissão Pastoral dos Pescadores e Pescadoras (CPP) e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) realizaram denúncias coletivas contra a estrutura, associando o muro à privatização da praia de Maracaípe e destacando a violações de direitos das comunidades locais.
A denúncia mencionou relatórios de vistoria e fiscalização do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e da Superintendência do Patrimônio da União em Pernambuco (SPU), que apontaram avanço do muro sobre 1.089,61 metros quadrados de área pública.
Além disso, as vistorias observaram que a barreira artificial danifica a vegetação de restinga, provocando graves danos à dinâmica costeira, pois polui a praia, o estuário e o mangue com a deterioração dos milhares de sacos de ráfia, um tipo de tecido plástico utilizado na implantação do muro.
Ainda segundo o Ibama, o muro também impede a reprodução de tartarugas na área de restinga, ao inviabilizar o acesso dos animais.
Por conta destas constatações, a SPU multou João Fragoso no valor de R$ 124 mil.
Entrada do Ministério Público Federal (MPF)
Em janeiro do ano passado, o Ministério Público Federal (MPF) entrou com uma ação civil pública solicitando a retirada da barreira artificial. Após essa decisão, o proprietário João Fragoso procedeu com um interdito proibitório, como é chamada uma ação com o objetivo de proteger um bem – neste caso, o muro.
Desde essa época, o MPF aguardava um “laudo pericial sobre o caso”, que identificou, por meio de perícias, que o muro ocupa integralmente área de preservação ambiental e avança sobre terreno de marinha, pertencente à União.
O laudo também indicou que a estrutura ultrapassou em mais do dobro o tamanho inicialmente autorizado pela CPRH.
Tentativa de derrubada do muro e pedido da AGU
Em janeiro deste ano, a CPRH chegou a iniciar a demolição do muro, mas o trecho removido foi reconstruído poucas horas depois pelo proprietário. Desde então, o caso seguia em disputa judicial na esfera federal.
A decisão da retirada imediata da estrutura, dentro de um prazo de 15 dias, atende a um pedido da Advocacia-Geral da União (AGU). Durante o processo na Justiça Federal, foi reconhecido uma série de impactos ambientais provocados pela estrutura erguida em uma área considerada sensível do ponto de vista ecológico.
Segundo os relatórios técnicos, anexados à ação, a obra causou soterramento de áreas de restinga e praia, destruição irregular de vegetação nativa e impactos diretos em trechos utilizados para desova de tartarugas marinhas.
Os documentos também apontam que os sacos de ráfia usados na contenção estão se degradando com a ação do mar, liberando fragmentos plásticos na água e no manguezal, o que representa risco para a fauna marinha e para o ecossistema local.
Além dos impactos ambientais, comerciantes, moradores e turistas vinham denunciando dificuldades de circulação no Pontal de Maracaípe desde a construção da barreira. O muro restringia o acesso à faixa de areia e ao manguezal, um dos principais atrativos naturais da região.