Professor da UFPE lidera tecnologia de ‘nariz eletrônico’ que identifica aromas com IA
Tecnologia transforma aromas em dados e amplia uso da IA em áreas como perfumaria e saúde
A inteligência artificial já é usada para produzir textos, imagens, analisar dados e automatizar tarefas. Agora, a tecnologia começa a avançar sobre um território mais difícil de traduzir em códigos: o olfato. É nesse campo que atua o professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Leandro Maciel de Almeida, um dos participantes do painel “Sentir, Ser e o que a IA (Ainda) Não Faz”, realizado nesta terça-feira (11), durante o SP2B, em São Paulo.
Cofundador e CTO da Aromalytics, Leandro trabalha com um equipamento que combina sensores específicos e modelos de inteligência artificial para transformar as moléculas volatilizadas de uma amostra em dados. Essas informações são usadas para ensinar o sistema a reconhecer diferentes padrões de aroma.
O processo começa com amostras conhecidas. “Se eu colocar 1 ml de um perfume, por exemplo, as moléculas vão volatilizar e essas moléculas volatilizadas viram dados que entram no meu modelo de IA. Aí eu digo que esse é o perfume A e repito o processo com um perfume B”, explicou o pesquisador ao Diario de Pernambuco.
Segundo informações divulgadas pela Aromalytics, o equipamento alcança mais de 95% de reconhecimento em análises de até 60 segundos. A empresa afirma ainda que o sistema consegue diferenciar substâncias semelhantes, como etanol e metanol, com 98% de precisão.
Da perfumaria à saúde
A tecnologia não se restringe ao reconhecimento de fragrâncias. Segundo informações do Centro de Informática da UFPE, o grupo coordenado por Leandro já desenvolveu pesquisas voltadas à identificação de padrões relacionados a alimentos, bebidas, drogas, contaminantes do ar, fungos, bactérias e doenças.
Uma das aplicações citadas pelo pesquisador envolve pacientes internados em unidades de terapia intensiva (UTIs) no Recife.
“A gente fez isso no Recife para diagnóstico de pacientes em UTI. Então, a partir de uma gota de sangue, ou até menos, eu consigo dizer se esse paciente está com um fungo A, B, C ou D, por exemplo. Ou seja, a famosa infecção hospitalar”, afirmou.
Segundo Leandro, a identificação pode ser feita em poucos segundos, fornecendo à equipe médica uma informação que pode auxiliar na condução mais rápida do tratamento.
“Na questão da saúde, existem várias aplicações, desde essas infecções até algumas doenças que podem ser detectadas pelo hálito”, disse. O pesquisador ressalta, porém, que os modelos de inteligência artificial empregados variam de acordo com a finalidade. “Plataformas de IA são completamente diferentes quando aplicadas para perfumaria ou para a área de saúde, que é muito mais complexa”.
Uma “biblioteca de cheiros”
Apesar dos avanços no reconhecimento de aromas, um dos desafios apontados pelo pesquisador está na organização e padronização dos dados. Durante o painel, Leandro explicou que a iniciativa busca, em parceria com o Reino Unido, criar um protocolo para mapear aromas e construir uma grande “biblioteca de cheiros”.
A proposta é digitalizar e padronizar informações relacionadas ao olfato, permitindo que diferentes padrões sejam catalogados e posteriormente reconhecidos pelos sistemas de inteligência artificial.
Para Leandro, ferramentas desse tipo podem ampliar a capacidade de percepção humana. “A gente pode enxergar essas ferramentas como uma espécie de microscópio, que consegue enxergar algumas coisas que os humanos sozinhos não podem”, afirmou durante o painel.
A discussão também passou pelos limites dessa tecnologia. Embora a IA consiga detectar e classificar padrões de aromas, o pesquisador diferencia esse processo da experiência subjetiva associada ao olfato.
“O sentir é essencialmente humano. A IA só consegue detectar cheiros”, afirmou.
Para explicar a diferença, o pesquisador citou a relação entre aromas e experiências individuais. “O que é um cheiro de infância? O que é um cheiro de algo agradável? Ou de algo repulsivo? Isso depende das vivências de cada pessoa. E é isso o que a IA ainda não faz”.
O painel contou, ainda, com a participação de Joana Miranda Formigone, diretora de P&D da Natura Cosméticos, e do cientista cognitivo Diogo Cortiz, professor da PUC-SP e colunista do UOL, que mediou a discussão.