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Às vésperas do julgamento de Lula Cabral marcado, ex-diretor do CaboPrev denuncia ingerência política

Em entrevista ao Diario de Pernambuco, Albérico relatou que presidiu a autarquia de janeiro de 2019 até março de 2026

Por Elaine Guimarães

Instituto de Previdência Social dos Servidores do Municipais do Cabo de Santo Agostinho (Caboprev)

O ex-diretor-presidente do Instituto de Previdência dos Servidores do Cabo de Santo Agostinho (CaboPrev), Albérico Rodrigues, afirma que sua exoneração, ocorrida no dia 10 de março de 2026, foi ilegal e motivada por ingerência política. Em entrevista ao Diario de Pernambuco, Albérico relatou que presidiu a autarquia de janeiro de 2019 até março de 2026, tendo sido reconduzido em 2024 pelo Conselho Deliberativo.

Ainda como membro do conselho e do comitê de investimentos, ele afirma ter testemunhado em 2017 o que chama de "maior assalto proporcional a uma previdência municipal do país". Na época, segundo ele, 47% do patrimônio, cerca de R$ 92 milhões, teriam sido aplicados em fundos podres. "Eu disse não a essa operação ilícita. Prestei depoimento à Polícia Federal e ao Ministério Público. Dentre os acusados está o atual prefeito Lula Cabral", declarou.

Atualmente, Lula Cabral (PDT) cumpre seu quarto mandato na Prefeitura do Cabo de Santo Agostinho, como também é réu em uma ação penal sobre o caso, com julgamento marcado para o dia 11 de novembro. Em 2018, o chefe do Executivo municipal foi preso na Operação Abismo, da Polícia Federal (PF), suspeito de desviar R$ 92,5 milhões de recursos do instituto da previdência dos servidores do município. 

Cabral foi solto em janeiro de 2019 após habeas corpus concedido pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), que na época era o ministro Dias Toffoli. Apesar da liberdade concedida, Lula Cabral ficou afastado da função, sendo o município do Cabo de Santo Agostinho administrado pelo vice-prefeito Keko do Armazém (PSDB).

Albérico Rodrigues estima que o montante citado, em valores atualizados no final de 2025, equivaleria a cerca de R$ 120 milhões, o que, de acordo com ele, pagaria 174 aposentadorias mínimas." Esse dinheiro garantiria o futuro de 174 famílias." O Cabo de Santo Agostinho conta com quatro mil servidores ativos e aproximadamente dois mil aposentados.

Ingerência política

À reportagem, Rodrigues alegou que a suposta perseguição começou após a reeleição do prefeito em 2024. "O primeiro projeto que o prefeito reeleito enviou à Câmara não foi de segurança, saúde ou educação. Foi um projeto para reestruturar as autarquias, inclusive o Caboprev, para influenciar na escolha do diretor-presidente. O projeto foi afastado pela Câmara."

Albérico também relembrou que, à época, foi criada uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para macular sua imagem". Ademais, o ex-diretor-presidente afirmou que o movimento se estendeu ao Conselho Deliberativo. "O perfil do Conselho mudou depois da reeleição [do prefeito]. Ficou agressivo, tendencioso. Passaram a exigir gratificação sem lei, cartão corporativo. Começaram a frequentar a Câmara e gabinetes de aliados do prefeito."

No dia seguinte à leitura do relatório da CPI, ao qual ele diz não ter tido acesso e direito à defesa, houve a exoneração do cargo. "Fui exonerado, não afastado. Quando há investigação, afasta-se. Eu fui exonerado sem direito de defesa por alegações genéricas. A pescaria processual veio depois."

Ao Diario de Pernambuco, Albérico diz ter recorrido à Justiça e ao Ministério Público. Segundo ele, o MPPE fez duas recomendações em menos de três meses, pedindo a exoneração do atual gestor e uma intervenção judicial imparcial no CaboPrev. "O MP reconheceu que não tive direito de defesa e que o prazo de 120 dias do processo já foi extrapolado." Na avaliação dele, o instituto está vulnerável a um novo desvio, justamente em ano pré-eleitoral, em 2027. 

O ex-presidente também denunciou a troca do assistente de acusação do CaboPrev. Segundo ele, o escritório especializado que contratou para atuar na recuperação dos valores desviados em 2017 e para dar celeridade aos processos nos órgãos de controle foi distratado após sua exoneração.

"Quem está no lugar hoje é um advogado genérico, especialista em previdência, cuidando de toda a parte de recuperação do Instituto, assim como dessa parte de responsabilização penal. Esse advogado foi da comissão de transição, que tentou invalidar meu mandato em 2025. E o Ministério Público averbou o meu mandato. Então, assim, a coisa está sendo feita a toque de tambor e com desfaçatez."

Julgamento

O Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF5) marcou para 11 de novembro de 2026, o julgamento da ação penal envolvendo Lula Cabral. O procedimento apura possíveis crimes de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e gestão fraudulenta relacionados à transferência de recursos do CaboPrev para fundos de investimento administrados pela empresa Terra Nova Gestão de Recursos.

Sobre a audiência, Albérico Rodrigues diz esperar condenação do réu. "Creio na dignidade dos tribunais. Mexeram no sagrado, na subsistência de quem se dedicou 30, 40 anos à sociedade. Não é briga de cadeiras. É resgatar a autonomia da instituição. Minha meta, se voltar, é fazer concurso público para o CaboPrev e blindar a autarquia de ingerência política."

O prefeito Lula Cabral foi procurado através da sua assessoria, mas não deu retorno até a divulgação desta matéria.