Sem alianças, Flávio corre contra o tempo por vice para a chapa
Neutralidade de partidos do Centrão reduz opções do pré-candidato pelo PL, que pode ser levado a disputar a Presidência com uma chapa "puro-sangue". Senadora Tereza Cristina diz que "chance diminuiu" de ocupar o posto, após veto do PP
Perto do encerramento do prazo para as convenções partidárias, a composição das chapas para a disputa ao Palácio do Planalto entra na reta final com algumas indefinições. Pré-candidatos como Flávio Bolsonaro (PL) e Romeu Zema (Novo) seguem sem anunciar quem ocupará a vaga de vice. O prazo para a definição termina amanhã (5), enquanto o registro das candidaturas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) deverá ser feito até 15 de agosto.
"Sonho de consumo" de Flávio, como o próprio pré-candidato já declarou, a senadora Tereza Cristina (PP-MS) aceitou ser vice, mas o PP vetou, anunciando neutralidade para a Presidência da República. Nessa segunda-feira, a parlamentar admitiu que a possibilidade de vencer a resistência do partido reduziu bastante. Depois de afirmar que "até a hora final, tem espaço" para uma definição, acrescentou: "Tem ainda dois dias, mas eu acho que a chance diminuiu bastante", frisou, em evento na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).
Tereza Cristina foi ministra da Agricultura e é uma das lideranças do agronegócio. A avaliação dentro do PL é de que a parlamentar reúne atributos capazes de ampliar o alcance da candidatura: bom trânsito no Congresso, interlocução com o setor produtivo, baixa rejeição e capacidade de dialogar com o eleitorado feminino.
Na sexta-feira, porém, o PP encerrou as especulações ao confirmar que permanecerá neutro na disputa presidencial. A decisão foi tomada após consulta aos diretórios estaduais e inviabilizou qualquer composição nacional envolvendo a legenda. Em nota, a sigla informou que "a decisão já foi comunicada e acatada pela senadora Tereza Cristina, nossa líder no Senado Federal".
Após o anúncio, Flávio afirmou respeitar a decisão, mas sinalizou que continuará buscando alternativas. "Fiquei muito honrado quando ela aceitou o convite para caminhar conosco na qualidade de candidata a vice-presidente e, por questões internas do Progressistas, vimos essa nota dizendo sobre a neutralidade do partido."
Questionado se insistiria na negociação, respondeu: "Essa nota deixou bem claro que o partido tinha decidido, por maioria, pela neutralidade. Óbvio que eu respeito, mas eu sou brasileiro, não desisto nunca. Vamos continuar nas conversas".
Outro nome que circulou nas conversas foi o da deputada federal Simone Marquetto (PP-SP). Ao Correio, a parlamentar confirmou que permanece à disposição para integrar uma chapa presidencial, mas ressaltou que a decisão não depende dos possíveis indicados. "Agora a gente está mais na mão do Ciro Nogueira. O Flávio pode chamar, mas, se o Ciro não quiser, não adianta", frisou, numa menção ao presidente nacional do PP.
De acordo com Simone, qualquer composição depende do aval da executiva nacional. "Tem muitas pessoas, inclusive do movimento da Igreja Católica, que defendem uma representante desse segmento na chapa. Eu estaria à disposição, mas não depende da gente. Depende muito mais da decisão do presidente nacional."
A deputada também confirmou que não disputará novo mandato na Câmara em 2026. "Já tomei essa decisão no ano passado. Meu perfil é mais de Executivo. Agora vou concluir o mandato e depois decidir os próximos passos."
Embora a decisão oficial do PP tenha sido justificada como uma escolha coletiva dos diretórios estaduais, interlocutores ouvidos pelo Correio afirmam que a principal resistência à aliança partiu de Ciro Nogueira.
Segundo uma fonte com trânsito entre dirigentes partidários, Tereza Cristina não teria criado obstáculos para integrar a chapa. "Pelo que entendi, ela já aceitou. O problema é o partido. Quem manda no PP é o Ciro Nogueira."
Ainda de acordo com esse interlocutor, a relação entre Flávio Bolsonaro e Ciro teria se desgastado durante a crise envolvendo o Banco Master. "O que ouvi nos bastidores é que o Ciro se sentiu meio abandonado pelo Flávio quando começou toda aquela situação do Banco Master." O presidente do PP foi alvo de operação da PF que investiga fraudes no banco de Daniel Vorcaro.
O isolamento do PL pode se aprofundar nas próximas horas. Depois da decisão da federação União Brasil-Progressistas, Republicanos e Podemos também passaram a discutir internamente a adoção de uma postura de neutralidade na eleição presidencial. Integrantes dessas legendas argumentam que a estratégia permite preservar as alianças regionais e dá liberdade para que cada diretório estadual apoie candidatos diferentes, de acordo com seus interesses locais.
A presidente do Podemos, deputada federal Renata Abreu (SP), é um dos nomes cogitados para ocupar a vice de Flávio. Caso o partido confirme a neutralidade, porém, a possibilidade de uma composição nacional será praticamente descartada, repetindo o cenário do PP.
Sem conseguir atrair partidos do Centrão, cresce dentro do PL a avaliação de que Flávio poderá disputar a Presidência com uma vice da própria legenda.
Eleitorado feminino
A campanha mantém a estratégia de escolher uma mulher para a vaga, na tentativa de reduzir a resistência ao senador entre o eleitorado feminino. Dos nomes citados por dirigentes da sigla há as deputadas Julia Zanatta (SC) e Bia Kicis (DF), ambas identificadas com a ala mais conservadora da legenda.
A eventual opção por uma chapa "puro-sangue", no entanto, representaria uma mudança de estratégia em relação ao plano inicial da campanha, que buscava ampliar o tempo de televisão, fortalecer a divisão dos recursos eleitorais e construir uma frente mais ampla com partidos do Centrão.
A indefinição não é exclusividade do PL. O candidato do Novo à Presidência, Romeu Zema, também chegou à reta final das convenções sem anunciar oficialmente seu vice. A tendência, segundo integrantes da campanha, também é a formação de uma chapa puro-sangue.
Entre os nomes lembrados nos bastidores estão o senador Eduardo Girão (Novo-CE), pré-candidato ao governo do Ceará, e o ex-presidenciável Felipe d'Avila, que disputou o Palácio do Planalto em 2022.
O pré-candidato Augusto Cury (Avante) também não definiu quem ocupará a vaga de vice em sua chapa. A candidatura dele ao Planalto foi oficializada nessa segunda-feira, em convenção do partido na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp).
Confira matéria no Correio Braziliense.