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Adalgisa Cavalcanti: a primeira mulher eleita deputada em Pernambuco

Adalgisa Rodrigues Cavalcanti tomou posse na Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe) no dia 19 de abril de 1947, 15 anos após o voto feminino ser aprovado nacionalmente no Brasil

Por Elaine Guimarães

Adalgisa Cavalcanti

Em 1947, Pernambuco elegeu sua primeira deputada estadual. Adalgisa Rodrigues Cavalcanti tomou posse na Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe) em 19 de abril daquele ano, apenas 15 anos após a conquista do voto feminino no Brasil, garantida pelo Decreto nº 21.076, de 1932, assinado pelo então presidente Getúlio Vargas. No cenário nacional, a primeira mulher eleita deputada estadual foi Maria do Céu Fernandes, no Rio Grande do Norte.

A eleição de Adalgisa Cavalcanti, candidata pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB) - que, à época, utilizava a denominação Partido Comunista do Brasil - ganhou destaque nas páginas do Diario de Pernambuco. Ela obteve 2.298 votos, figurando entre os candidatos mais votados da legenda. Naquele pleito, o PCB lançou 56 candidatos em Pernambuco, dos quais cerca de dez conquistaram mandato.

Acervo Diario de Pernambuco - Apuração da votação

Antes de chegar à Assembleia Legislativa, Adalgisa já havia disputado uma eleição. Em 1945, concorreu a uma vaga para a Câmara Federal. Em entrevista ao Diario, a historiadora Daniane Vicente, autora da dissertação "A atuação política de Adalgisa Rodrigues Cavalcanti: o comunismo feminino no Brasil", defendida na Universidade Federal de Alagoas (UFAL), explica que Adalgisa foi a única mulher indicada pelo PCB em Pernambuco para disputar o pleito federal daquele ano. “Em 1947, o PCB indica três nomes: o de Adalgisa, Cândida Maranhão e Gilda Pereira”, afirma.

Nascida em Glicério (hoje Canhotinho), no Agreste pernambucano, em 28 de junho de 1905, Adalgisa era filha da dona de casa Maria Madalena Rodrigues de Freitas Neves e do agricultor Joaquim Justo Rodrigues de Freitas. Ainda criança, foi adotada pelos tios, Sílvio de Aguiar Campello e Amélia Campello, após a morte da mãe e abandono paterno.

Com a nova família, a política acabou chegando cedo na vida de Adalgisa. Durante as eleições estaduais, Sílvio de Aguiar Campello apoiou a candidatura de Dantas Barreto, já Amélia Campello era apoiadora de Rosa e Silva. À época, Barreto saiu vitorioso no pleito. Além disso, as figuras dos cangaceiros se tornaram parte das lembranças de infância da ex-deputada.

Adalgisa não chegou a cursar o ensino superior; casou-se antes dos 16 anos com Tito Tenório Cavalcanti, por influência da família e da sociedade da época. Tito era 10 anos mais velho que a noiva e viúvo. O relacionamento dos dois, que durou mais de cinco décadas, foi marcado por companheirismo e afeto. O casal não teve filhos. 

Registros da época não certificam qual teria sido a ocupação da ex-deputada. À reportagem, Daiane Vicente comenta que as informações acessadas para a escrita dos trabalhos acadêmicos, de fato, não evidenciam se Adalgisa foi empregada doméstica, trabalhadora do comércio ou dona de casa.

"Eu encontrei textos que falavam que ela teria sido empregada doméstica, trabalhado no comércio. Em um outro ou outro relatório do DOPS [Departamento de Ordem Política e Social], eles comentam algo do tipo. Em uma entrevista, ela se apresenta como dona de casa. Inclusive, tem um discurso dela na Assembleia [Legislativa], já eleita deputada estadual, em que ela fala para os colegas: 'Hoje, eu vim aqui mais como uma dona de casa do que como uma deputada". 

Uma vida marcada pela militância

Registros da época indicam que Adalgisa Cavalcanti ingressou de fato na política após 1934, ano de início do voto feminino. Aproximou-se do comunismo, período em que começou a atuar no Socorro Vermelho, iniciativa que fornecia ajuda financeira e jurídica aos militantes comunistas e seus familiares que estavam sofrendo perseguições e prisões. Ao mesmo tempo, ela passou a integrar a Aliança Nacional Libertadora (ANL).

Lançada em 1935, a ANL nasceu como um movimento popular. No evento de lançamento, no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro, Luiz Carlos Prestes foi escolhido como o presidente de honra da organização. Nesse mesmo ano, a ex-deputada se filiou à organização no diretório do Pina, na Zona Sul do Recife. Em 26 de março de 1936, Adalgisa teve sua primeira detenção, motivada por sua ligação com o Levante de 1935, sendo uma das poucas mulheres a participar do ato. 

 

Em 1945, ela se filia ao PCB. Em 1947, disputou o cargo de deputada estadual pela legenda, sendo eleita. Em entrevista ao Diario, Roberto Arrais, jornalista, membro do Comitê Central e militante do PCB desde 1974, relata que Adalgisa Cavalcanti foi uma das primeiras mulheres a integrar o partido. "Ela já participava do partido antes de se filiar, quando participava do Socorro Vermelho. Em 1945, ela se filia formalmente ao partido logo que abre o processo de filiação", conta. 

A sua escolha para o pleito desse ano não foi aleatória. Segundo Arrais, o nome de Adalgisa foi escolhido coletivamente, mediante debates internos, e levou em consideração a trajetória da militante. "Ela era muito participativa, era uma pessoa de luta, participava do movimento feminista, era muito ativa dentro do partido. Então, facilmente, ela foi indicada. Em uma época predominantemente machista, ela tinha uma força política, conseguia participar dos comícios, dos debates, se colocava, ela conseguiu ocupar esse espaço". 

Com uma votação expressiva, ela passou a ocupar a Alepe, local majoritariamente masculino. O mandato de Adalgisa durou nove meses. Após decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que cancelou o registro do PCB e colocou o partido na clandestinidade, o mandato de Adalgisa foi cassado em janeiro de 1948. 

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Nos meses em que esteve na Casa do Povo, Adalgisa Cavalcanti teve projetos importantes, como a concessão de abono familiar às mães que exerciam função pública estadual. O benefício era apenas direcionado aos homens. "Na Assembleia Legislativa, ela vai focar justamente na questão da Educação, ela vai dar assistência à causa dos estudantes, tem preocupação com o movimento econômico de Pernambuco, com a questão da democracia. Na campanha, ela dialogou mais com as mulheres e continuou quando eleita. E, aí, é que vem o projeto do abono", observa a historiadora. 

Além disso, há registros de que ela teria proposto uma subversão anual, no valor de 20 mil cruzeiros, moeda da época, à Liga Camponesa de Iputinga. A Liga era uma organização de trabalhadores rurais, fundada em 1946, no bairro da Iputinga, na Zona Oeste do Recife, e liderada pelo militante comunista José dos Prazeres. A organização foi precursora na luta pela Reforma Agrária no Brasil. 

À reportagem, Roberto Arrais ressalta que, mesmo no período de clandestinidade do PCB, Adalgisa continuou militando na organização. "O PCB foi o único partido em que ela militou. Por volta da década de 1960, ela acaba se afastando por motivos de saúde". 

O primeiro encontro entre Arrais e Adalgisa não aconteceu no partido, mas durante uma entrevista para o Jornal do Commercio, em 1977. À época, Arrais era repórter fotográfico e relatou que só tinha disponíveis três negativos. "Acabei fazendo mais do que isso, uns seis, por minha conta", relembra. Após a entrevista, os dois tiveram uma breve conversa e foi nesse momento que Arrais contou que era militante do PCB. "Depois [da entrevista], chamei ela no canto e disse que era militante do PCB. Ela ficou muito feliz", recorda. 

 

Roberto Arrais/PCB/Cortesia - Registro da entrevista com Adalgisa Cavalcanti

Para Roberto Arrais, a importância de Adalgisa Cavalcanti ultrapassa Pernambuco. "Adalgisa foi protagonista, uma revolucionária que conseguiu, em um determinado momento histórico, protagonizar a participação feminina no espaço político, como também na sociedade. Ela deixou um legado para as gerações que a sucederam, lutando por igualdade. Ela rompe com o papel de uma mulher na sociedade". 

Apesar do legado político e histórico, Daiane Vicente chama atenção para a ausência e dificuldade de encontrar registros da época. "Talvez o Partido Comunista tenha um pouco de dívida com a atuação das mulheres", aponta. Com relação ao legado de Adalgisa como a primeira mulher eleita deputada estadual de Pernambuco, ela analisa que ainda é algo minimizado.

"Falta uma atenção maior. A única coisa que a gente tem de Adalgisa nos últimos anos foi a Resolução 13.754, de agosto de 2006, que corresponde à criação da Ação Formativa de Mulheres na Tribuna Adalgisa Cavalcanti, elaborada pela deputada estadual Simone Santana. Acredito que o estado de Pernambuco não destaca, não dá confiabilidade à trajetória de Adalgisa".