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Corrida por apoios de prefeitos redesenha tabuleiro político de Pernambuco para 2026

Cientista político pondera que apoios de prefeitos não representa transferência automática de votos para candidatos ao governo do estado

Por Mariana de Sousa

João mantém influência direta na capital e em cidades historicamente ligadas ao PSB, enquanto Raquel avança sobre municípios administrados pelo PSD

Com a aproximação do calendário eleitoral de 2026, os bastidores da política pernambucana começam a ganhar intensidade e os movimentos em torno das pré-candidaturas ao Governo do Estado já desenham um mapa estratégico de apoios entre o ex-prefeito do Recife, João Campos (PSB), e a governadora Raquel Lyra (PSD).

Embora Raquel Lyra apresente ampla vantagem numérica no total de municípios aliados, João Campos demonstra força política nos maiores colégios eleitorais do estado, especialmente nas cidades de grande porte e em localidades estratégicas da Região Metropolitana do Recife e do Agreste.

Para o cientista político Bhreno Vieira, esse cenário revela duas estratégias eleitorais distintas: enquanto Raquel aposta em uma presença mais capilarizada pelo interior, João concentra influência em municípios de maior densidade eleitoral. Segundo ele, o mapa de apoios precisa ser analisado “com duas lentes”: a extensão territorial da aliança e o tamanho do eleitorado alcançado.

No cenário atual, dos 184 municípios, Raquel teria o apoio de mais de 100 prefeitos pernambucanos, enquanto João Campos contaria com cerca de 40 gestões municipais alinhadas. Há ainda prefeitos indefinidos ou que evitam declarar posição neste momento pré-eleitoral.

Bhreno Vieira pondera, porém, que o apoio de prefeitos não representa transferência automática de votos. De acordo com o especialista, fatores como aprovação da gestão municipal, perfil do eleitorado local, força da oposição e tamanho da cidade influenciam diretamente o potencial eleitoral desses apoios.

A base da governadora é fortemente sustentada pelo PSD, legenda da qual é presidente estadual, reunindo mais de 70 prefeitos do partido em Pernambuco. Entre os principais aliados de Raquel estão os prefeitos de cidades estratégicas como Mano Medeiros (PSD) em Jaboatão dos Guararapes, Rodrigo Pinheiro (PSD) de Caruaru, Simão Durando (UB) de Petrolina, Mirella Almeida (PSD) em Olinda, Ramos Santana (PSD) de Paulista, Diego Cabral (PSD) em Camaragibe e a Professora Elcione (PSD) de Igarassu.

Já João Campos concentra apoios em cidades consideradas importantes polos políticos e econômicos, como Recife com seu sucessor Victor Marques (PCdoB), Garanhuns na gestão do prefeito Sivaldo Albino (PSB), Vitória de Santo Antão com Paulo Roberto (MDB), Ipojuca gerida por Carlos Santana (Republicanos), Serra Talhada onde trabalha a prefeita Márcia Conrado (PT) e São Lourenço da Mata com Vinícius Labanca (PSB), além de manter forte presença entre prefeitos do PSB e partidos do campo aliado.

Para Vieira, o crescimento do PSD fortalece estruturalmente a pré-candidatura da governadora porque amplia a capacidade de mobilização regional, organização de eventos, articulação de lideranças locais e presença territorial. O cientista político ressalta, contudo, que a musculatura partidária não garante, por si só, conversão eleitoral.

Do outro lado, segundo o especialista, a principal vantagem do ex-prefeito recifense está justamente na força dos grandes centros urbanos e na associação de sua imagem à capital pernambucana. O desafio, na visão de Bhreno, será transformar essa visibilidade em maior interiorização política.

Entre as 15 cidades pernambucanas com mais de 100 mil habitantes, a divisão evidencia um equilíbrio político regionalizado. João Campos lidera nos apoios dos gestores de Recife, Cabo de Santo Agostinho, Garanhuns, Vitória de Santo Antão, São Lourenço da Mata e Abreu e Lima. Por outro lado, Raquel Lyra domina em Jaboatão dos Guararapes, Petrolina, Caruaru, Paulista, Olinda, Camaragibe, Igarassu e Santa Cruz do Capibaribe. Para Bhreno Vieira, esse recorte demonstra que a disputa tende a ser definida menos pela quantidade absoluta de prefeitos e mais pelo peso eleitoral dos municípios aliados.

Na Região Metropolitana do Recife, o cenário mostra um tabuleiro dividido. João mantém influência direta na capital e em cidades historicamente ligadas ao PSB, enquanto Raquel avança sobre municípios administrados pelo PSD e por aliados do Palácio do Campo das Princesas.

O cientista político destaca que a RMR possui relevância estratégica uma vez que concentra grande parcela do eleitorado estadual e maior exposição midiática, reduzindo, em parte, a influência direta dos prefeitos sobre o comportamento do eleitor.

Analisando os respectivos apoios, Bhreno destaca que prefeitos exercem papel importante principalmente na estrutura de campanha, ajudando na mobilização política, formação de palanques, articulação com vereadores e logística eleitoral, especialmente em municípios menores, onde a política tende a ser mais personalizada.

Bases partidárias moldam estratégias eleitorais

No recorte partidário, João Campos concentra maior força entre prefeitos do PSB, além de aliados em partidos como Republicanos, PT, MDB e PDT. Já Raquel Lyra reúne uma ampla coalizão municipalista formada principalmente por PSD, PP, União Brasil, MDB, Podemos e Republicanos. Para o cientista político, o avanço do PSD representa uma reorganização do campo governista em Pernambuco, reduzindo parte da antiga hegemonia municipal do PSB no interior do estado.

Apesar da vantagem quantitativa da governadora no interior, o especialista observa que o peso eleitoral das grandes cidades pode equilibrar a disputa em 2026. Recife, Jaboatão, Olinda, Caruaru e Petrolina concentram parcela significativa do eleitorado pernambucano e tendem a ser decisivas no desempenho dos candidatos.

Bhreno Vieira ressalta que esses cinco municípios concentram aproximadamente 35% do eleitorado estadual, sendo Recife sozinha responsável por cerca de 17% dos eleitores pernambucanos, fazendo com que o desempenho nos grandes centros possa compensar desvantagens numéricas em municípios menores.

O cientista político reforça que o atual quadro deve ser interpretado mais como uma “fotografia do momento” do que como projeção definitiva para outubro de 2026. A tendência é de que, nos próximos meses, o mapa de apoios sofra alterações à medida que o ambiente eleitoral se intensifique em Pernambuco.

Para Bhreno Vieira, a disputa tende a permanecer equilibrada entre dois modelos distintos de construção política: de um lado, a capilaridade territorial sustentada pela ampla rede de prefeitos aliados e do outro, a força concentrada nos maiores colégios eleitorais e na presença consolidada do PSB em áreas urbanas estratégicas.