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Senado do Paraguai começa processo de impeachment contra Peña por escândalo bancário

Congresso se recusou a aceitar renúncia de Santiago Peña na quinta-feira (5), o que impediria que ele fosse a julgamento

Por AFP

Advogado do presidente Santiago Peña, Rodolfo Ferreiro (ao centro), fala durante um processo de impeachment no Congresso Nacional do Paraguai

O Senado do Paraguai iniciou, nesta sexta-feira (6), o processo de impeachment contra o presidente Santiago Peña, envolvido em um escândalo bancário que deixou três milhões de clientes sem acesso aos seus depósitos.

O processo de impeachment aprovado por deputados na quinta-feira foi deflagrado após a rejeição de um pedido de prorrogação feito por Peña. O mandatário não compareceu ao Senado e está sendo representado por dois advogados de defesa.

"Esta sessão foi convocada com o objetivo de decidir sobre a admissão ou a rejeição de cada prova apresentada", disse o presidente do Senado, Basilio Núñez, ao abrir a sessão.

Na quinta-feira (5), o Congresso recusou-se a aceitar a renúncia de Peña, de 47 anos, o que impediria que ele fosse a julgamento. A destituição pode ocorrer ainda na noite desta sexta.

A crise eclodiu na terça-feira, quando o Banco Central decidiu intervir no Ueno Bank, associado a Peña, devido a problemas de solvência, o que acarretou o congelamento das contas de cerca de três milhões de clientes, além de grandes recursos estatais ali depositados.

Milhares de pessoas protestaram nos últimos dias em Assunção, inclusive em frente ao Congresso, para exigir a devolução do dinheiro e a destituição do mandatário de direita aliado de Washington.

"Quero ver Santiago Peña na prisão, porque ele nos roubou, roubou o povo, mentiu", disse à AFP Mariano Giménez, um estudante de 26 anos, em um protesto que terminou com caminhões de combate a incêndio lançando água e gás lacrimogêneo.

Com a rejeição à sua renúncia, o mandatário ficou sem a imunidade parlamentar que teria adquirido ao se tornar senador vitalício, conforme a lei no Paraguai sobre ex-presidentes, explicaram à AFP constitucionalistas e deputados.

Nesta sexta-feira, a embaixada dos Estados Unidos no Paraguai expressou "sua solidariedade ao povo paraguaio", sem mencionar o mandatário.

Quem assume o governo?

O anúncio de sua renúncia ocorreu quando a Câmara dos Deputados votava o processo de impeachment, aprovado pelos 78 parlamentares presentes, incluindo todos os de seu próprio partido, que lhe retirou o apoio.

Simultaneamente, os deputados recusaram-se a abrir outro processo de impeachment contra o vice-presidente, Pedro Alliana, de 52 anos, o que abre caminho para que ele eventualmente suceda Peña.

"Aqui foi montado um esquema criminoso que se dedicou a esvaziar um banco com a proteção de instituições que ele controlava como presidente da República", disse na quinta-feira, em sua acusação, o deputado opositor Raúl Benítez.

Peña, ex-ministro da Fazenda que assumiu a presidência em 2023, detinha ações de um grupo que controlava o banco, das quais se desfez em 2025.

O caso escalou em poucos dias e resultou na renúncia do presidente do Banco Central, Carlos Carvallo. O ministro do Interior, Enrique Riera, renunciou ao cargo na quinta-feira.

Peña promulgou uma lei que estabeleceu um prazo máximo de cinco dias úteis para devolver aos correntistas a maior parte dos fundos. Mas não foi suficiente. Iniciou-se uma investigação na Justiça paraguaia que levou à prisão de oito diretores do banco.

Na tarde de quinta-feira, a Procuradoria-Geral do Paraguai também anunciou a abertura de uma investigação penal contra o mandatário por "fatos relativos à supervisão e resolução do Ueno Bank S.A. e à colocação de fundos públicos nessa entidade".

Impacto na Argentina e no futebol paraguaio

A crise atingiu a Argentina, onde cerca de 1.000 funcionários da empresa de tecnologia ITTI, do mesmo grupo, foram suspensos por 30 dias sem salário.

Também afetou o futebol paraguaio. A Confederação Sul-Americana de Futebol tinha cerca de 13 milhões de dólares (R$ 71,5 milhões) no banco, disse à AFP uma fonte da confederação sob condição de anonimato, e ressaltou que "isso não afeta em absoluto o funcionamento da Conmebol".

O Ueno Bank patrocinava os principais times da primeira divisão do país e a seleção paraguaia. "Também fomos vítimas dessa situação", disseram os jogadores da seleção em um comunicado no X.

O Paraguai ainda tem viva na memória o impeachment do então presidente Fernando Lugo, em 2012, quando foi destituído no Congresso em decorrência de um massacre de 11 camponeses e seis policiais a cerca de 250 quilômetros ao nordeste de Assunção.

O ex-bispo havia chegado ao poder em 2008, pondo fim a 61 anos de hegemonia do Partido Colorado.