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Governadores: Nordeste redesenha mapa político com avanço do PSD e resistência do PT

Panorama mostra que o eleitorado nordestino continua distante de uma adesão uniforme ao campo bolsonarista e, ao mesmo tempo, já não concentra o poder estadual majoritariamente em partidos de esquerda

Por Allan Lopes

O primeiro turno deixa um Nordeste mais fragmentado partidariamente, mas sem uma guinada uniforme ao bolsonarismo

As eleições de 2026 para governador no Nordeste desenharam um novo equilíbrio de forças. Com oito dos nove governos estaduais já definidos, o resultado das urnas revelou um cenário mais pulverizado, marcado pelo fortalecimento de partidos de centro e centro-direita, mas também pela manutenção de importantes redutos petistas e por alianças regionais que não reproduzem necessariamente a polarização vista na disputa presidencial.

O panorama mostra que o eleitorado nordestino continua distante de uma adesão uniforme ao campo bolsonarista e, ao mesmo tempo, já não concentra o poder estadual majoritariamente em partidos de esquerda. No campo progressista, o Partido dos Trabalhadores (PT) conseguiu preservar três dos quatro estados que comandava na região, com reeleições ainda no primeiro turno.

Na Bahia, o governador Jerônimo Rodrigues (PT) conquistou um novo mandato ao derrotar ACM Neto (União Brasil), consolidando a força histórica do petismo e garantindo a continuidade de uma hegemonia iniciada em 2007, ainda no primeiro governo de Jaques Wagner.

No Ceará, Elmano de Freitas (PT) venceu Ciro Gomes (PSDB) e se reelegeu no primeiro turno, mantendo o Palácio da Abolição alinhado ao governo federal após uma campanha acirrada e marcada pela reorganização de antigos grupos políticos do estado. No Piauí, a estabilidade foi confirmada com a reeleição de Rafael Fonteles (PT) por ampla margem. Considerado um dos nomes da nova geração do partido com projeção nacional, Fonteles reafirmou o estado como um dos principais bastiões do petismo no país.

Por outro lado, o PSB perdeu espaço formal no mapa partidário dos governos nordestinos. Na Paraíba, a legenda deixou de encabeçar o Executivo, mas sem uma ruptura do grupo político que já administrava o estado. Lucas Ribeiro (PP), que assumiu o governo após a saída de João Azevêdo (PSB) para disputar o Senado, venceu Efraim Filho (PL) no primeiro turno e garantiu a permanência da atual coalizão no poder. Ribeiro disputou a eleição com apoio de Lula e de uma aliança que reuniu, entre outras siglas, PT, PCdoB, PSB e Republicanos. A mudança, portanto, transferiu formalmente o governo para o Progressistas, mas preservou o bloco político que já comandava a Paraíba.

Em Pernambuco, o revés socialista foi mais significativo. A governadora Raquel Lyra (PSD) impôs uma dura derrota ao PSB ao conquistar a reeleição ainda no primeiro turno diante do ex-prefeito do Recife João Campos. O resultado barrou o plano de retomada do Palácio do Campo das Princesas pelo partido, que governou Pernambuco durante 16 anos consecutivos, entre 2007 e 2022, e havia apostado em uma de suas principais lideranças nacionais para voltar ao comando do estado.

Entre as legendas, o Partido Social Democrático (PSD) emerge como uma das principais forças do novo mapa político nordestino, com três governos garantidos a partir de 2027. Além de manter Pernambuco com Raquel Lyra, o partido assegurou a reeleição de Fábio Mitidieri em Sergipe ainda no primeiro turno. Embora filiado a uma legenda de centro, Mitidieri disputou a eleição alinhado a Lula, evidenciando como as alianças estaduais escaparam à divisão estabelecida pela corrida presidencial.

O PSD também conquistou o Maranhão com a vitória de Eduardo Braide no primeiro turno. Prefeito de São Luís, Braide conseguiu projetar para o estado a força eleitoral construída na capital e ampliou a presença da legenda no Nordeste.

O redesenho das forças políticas também chegou a Alagoas, onde Lula perdeu um importante aliado estratégico. O prefeito de Maceió, JHC (PSDB), venceu a disputa pelo governo no primeiro turno e impôs uma derrota a Renan Filho (MDB), ex-governador e aliado do presidente, que tentava retornar ao Palácio República dos Palmares.

A queda de Renan Filho enfraqueceu um dos grupos políticos mais tradicionais e influentes de Alagoas. O resultado ganhou peso adicional com a derrota de Renan Calheiros (MDB), pai do candidato a governador e histórico aliado de Lula, na disputa pelo Senado. Apesar dos reveses, o MDB segue com representação política relevante no estado.

Em contrapartida, o PL não venceu nenhum dos oito governos nordestinos definidos no primeiro turno. Entre seus principais desempenhos esteve o segundo lugar de Efraim Filho na Paraíba. No Rio Grande do Norte, Álvaro Dias, candidato do campo conservador, terminou na terceira colocação e ficou fora da etapa decisiva.

O Rio Grande do Norte, inclusive, foi a única exceção à definição dos governos estaduais no primeiro turno. A sucessão da governadora Fátima Bezerra (PT) segue aberta entre Allyson Bezerra (União Brasil) e Cadu de Lula (PT). O primeiro terminou a votação à frente por uma diferença estreita e enfrentará o petista, que tenta assegurar a permanência do estado sob o comando da esquerda.

A configuração das disputas estaduais ganha peso adicional diante do segundo turno presidencial, depois de Flávio Bolsonaro terminar a primeira etapa da corrida pelo Palácio do Planalto à frente de Lula. O resultado cria um contraste no Nordeste: apesar do desempenho nacional do candidato do PL, seu partido não conseguiu converter a votação presidencial em vitórias para os governos estaduais da região.

Os governadores reeleitos do PT — Jerônimo Rodrigues, Elmano de Freitas e Rafael Fonteles — tendem agora a assumir papel estratégico na mobilização em favor de Lula, sobretudo em estados que historicamente garantem larga vantagem eleitoral ao presidente. O objetivo do petismo será ampliar essa diferença no Nordeste para compensar eventuais derrotas em outras regiões e buscar a virada no resultado nacional.

Do outro lado, porém, o avanço de partidos de centro não significa uma transferência automática de força para Flávio Bolsonaro. Governadores eleitos ou reeleitos por legendas como PSD e PP construíram alianças distintas em cada estado, algumas delas com apoio direto de Lula, como nos casos de Fábio Mitidieri e Lucas Ribeiro. Em Pernambuco, Raquel Lyra evitou vincular sua candidatura à polarização nacional durante a campanha.

O primeiro turno deixa, assim, um Nordeste mais fragmentado partidariamente, mas sem uma guinada uniforme ao bolsonarismo. O PT preservou três governos, o PSD consolidou espaço em outros três estados e PP e PSDB completam o mapa dos oito Executivos já definidos. A última peça será decidida no Rio Grande do Norte, enquanto a região volta a ocupar posição central na batalha entre Lula e Flávio Bolsonaro pela Presidência da República.