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O Novo Paradigma Produtivo: O Impacto Econômico e Social do Fim da Escala 6x1

Por Keynis Cândido de Souto e Diana Sampaio

Carteira de Trabalho

Por Keynis Cândido de Souto e Diana Sampaio*

A aprovação do fim da escala 6x1 no Congresso Nacional representa um marco nas relações de trabalho no Brasil. A mudança transcende o debate sobre direitos trabalhistas e exige uma análise dos impactos econômicos e sociais de uma nova organização produtiva.

Para os trabalhadores, a redução da jornada pode trazer ganhos de qualidade de vida, saúde e produtividade. Historicamente, jornadas de 44 horas semanais estão associadas a ocupações com menores salários, maior rotatividade e menor escolaridade. Evidências científicas apontam que a redução do tempo de trabalho pode melhorar o sono, diminuir o estresse e ampliar a percepção de saúde. Trabalhadores mais saudáveis tendem a faltar menos, enquanto o tempo livre pode favorecer a qualificação profissional e melhores oportunidades no mercado.

Entretanto, é necessário avaliar os efeitos sobre os custos empresariais, a organização da produção, as contratações e o consumo das famílias. Os resultados dependerão da capacidade dos setores de adaptar processos e elevar a produtividade.

A Nota Técnica nº 123 do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), de 2026, oferece parâmetros para essa discussão. Mantida a remuneração nominal, a redução da jornada de 44 para 40 horas semanais eleva em 10% o custo da hora trabalhada. Se chegar a 36 horas, o aumento será de 22%. O impacto sobre o custo total, porém, varia conforme o setor: as estimativas ficam entre 1% em atividades como indústria e comércio e 3% no setor agropecuário. Em serviços intensivos em mão de obra, como vigilância e limpeza, a pressão pode ser maior.

O desafio tende a ser mais significativo para micro e pequenas empresas. No Brasil, mais de 6,6 milhões de trabalhadores formais estão em empresas com até nove funcionários. Nesses negócios, reorganizar escalas pode ser mais difícil, e as margens de lucro são sensíveis a mudanças na folha de pagamento.

Por isso, o Estado terá papel importante na transição. Linhas de crédito subsidiado e eventuais desonerações estratégicas da folha podem ajudar os pequenos empreendedores a absorver os custos sem comprometer os empregos que a medida busca proteger.

Em Pernambuco, a análise deve considerar o peso do comércio e dos serviços na economia local. Estudos da Fecomércio-PE projetaram risco de perda de até 49.866 postos de trabalho caso a transição ocorra sem mecanismos de compensação. O impacto dependerá do porte das empresas, da intensidade de mão de obra e da possibilidade de reorganizar turnos.

O cenário mais realista é trabalhar com possibilidades. Com ganhos de produtividade, escalas mais eficientes e tempo adequado de adaptação, parte dos custos poderá ser absorvida. Sem avanços produtivos, alguns setores poderão enfrentar pressão sobre preços, contratações e oferta de serviços. São cenários possíveis, não resultados garantidos.

A experiência brasileira também merece atenção. A redução da jornada de 48 para 44 horas semanais, estabelecida pela Constituição de 1988, e a valorização real do salário mínimo nos anos 2000 mostram que mudanças nas relações de trabalho podem coexistir com crescimento econômico. Isso não elimina riscos, mas reforça a importância de decisões orientadas por evidências.

O debate precisa avançar com planejamento, negociação e monitoramento dos efeitos sobre emprego, remuneração, preços e produtividade. O objetivo não deve ser apenas reduzir a jornada no papel, mas garantir que o descanso se traduza em bem-estar, sem comprometer a sustentabilidade dos negócios e a geração de empregos. O desafio é fazer com que a melhoria das condições de trabalho e o desenvolvimento produtivo avancem juntos.


*Keynis Cândido de Souto é presidenta do Corecon-PE e Diana Sampaio é conselheira do Corecon-PE