Pernambuco 2027: a economia que espera o próximo governador
A gestão que assumirá em 2027 será medida menos pela extensão das promessas de campanha e mais pela capacidade real de transformar este diagnóstico em entregas concretas, financiáveis e executáveis para a sociedade de Pernambuco
Valdeci Monteiro*
Na primeira parte desta análise, foram abordados a reforma tributária, a infraestrutura logística, a transição energética e o apoio à base produtiva de menor escala. Ficam para esta edição os quatro desafios restantes do quadriênio 2027-2030.
A sustentação da nova matriz produtiva exige encarar de forma combinada educação, qualificação e transição demográfica. A força de trabalho pernambucana está envelhecendo e encolhendo em termos absolutos. A expansão futura do PIB e da renda dependerá diretamente da produtividade, e não do volume bruto de trabalhadores. Portanto, a política educacional não pode limitar-se à ampliação da escolarização formal; é imperativo alinhar os currículos do ensino técnico e superior às vocações produtivas regionais e às habilidades requeridas pela economia contemporânea, aproximando a formação profissional das demandas reais das empresas e dos novos fluxos de investimento.
Essa estratégia de produtividade deve ser combinada com a planejamento do desenvolvimento territorial. É preciso construir pontes que integrem o Semiárido, o Agreste e a Zona da Mata a um processo de desenvolvimento equilibrado, superando a histórica e desproporcional concentração de recursos na Região Metropolitana do Recife. É fundamental retomar o planejamento territorial do estado, regional e urbano, fortalecendo a interiorização do desenvolvimento e dando conta dos desafios metropolitanos, em articulação com os municípios.
Nenhuma dessas transformações sairá do papel sem espaço fiscal. Apesar de Pernambuco ter recuperado a nota B+ na Capacidade de Pagamento (CAPAG) da Secretaria do Tesouro Nacional — abrindo margem para operações de crédito da ordem de 6% da Receita Corrente Líquida (cerca de R$ 1,6 bilhão) —, o orçamento estadual permanece limitado diante da magnitude dos problemas estruturais. O futuro gestor precisará alavancar os investimentos públicos sem descumprir a Lei de Responsabilidade Fiscal, mobilizando parcerias público-privadas (PPPs), concessões, fundos federais e rigor na eficiência do gasto público. A capacidade de financiamento é a pré-condição de toda a agenda.
Tudo isso ocorre em meio a uma acirrada disputa geopolítica regional. Pernambuco concorre diretamente com Ceará e Bahia pela atração de projetos industriais e grandes investimentos. A diplomacia federativa e a articulação política com o governo federal definirão o ritmo das transferências voluntárias e das obras estratégicas.
Por fim, impõe-se o gargalo silencioso da capacidade de execução da máquina pública estadual: licitações, licenciamento ambiental, gestão profissional de projetos e desatar de nós burocráticos. Sem adequações administrativas que elevem a produtividade do setor público e a interação com os demais entes federativos, qualquer plano de desenvolvimento corre o risco de naufragar.
Estes oito desafios são intrinsecamente interdependentes: a infraestrutura logística exige financiamento estruturado; a qualificação profissional não gera empregos formais sem política industrial; e a transição energética só cria riqueza local sob articulação federativa eficiente. Em última análise, a gestão que assumirá em 2027 será medida menos pela extensão das promessas de campanha e mais pela capacidade real de transformar este diagnóstico em entregas concretas, financiáveis e executáveis para a sociedade de Pernambuco.
(*) Doutor em Economia (IE-Unicamp), professor e assessor de planejamento da Unicap e sócio-diretor da Ceplan Consultoria Econômica e Planejamento