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Estação Crepúsculo

Ser idoso não é destino para os fracos. Sobretudo quando o objetivo não é ganhar mais dinheiro, mas apenas ter um pouco de paz. De dignidade. De um mínimo qualidade de vida nos dias sobrantes da longa jornada

Por Joel de Hollanda

Idosos praticando exercício

Certa vez, uma repórter perguntou a um modesto agricultor o que era preciso fazer para chegar aos 90 anos de idade. E ele respondeu de pronto, com cortante simplicidade:
— Basta não morrer.

Pois é, caro leitor. Para alcançar a velhice, é preciso viver. Ou, no mínimo, sobreviver. E atrevo-me a acrescentar: é preciso ser forte. Corajosamente forte.

Ser idoso não é destino para os fracos. Sobretudo quando o objetivo não é ganhar mais dinheiro, mas apenas ter um pouco de paz. De dignidade. De um mínimo qualidade de vida nos dias sobrantes da longa jornada.

O idoso precisa ser forte porque não carrega apenas o peso dos anos. A insegurança dos passos. O ranger dolorido dos ossos gastos. O mofo de antigas decepções. Ou o gosto amargo dos desenganos. Traz também o peso árido da subsistência, transformada em conflito diário. De um lado, a precariedade de uma aposentadoria injusta e aviltante. Do outro, a voracidade das muitas contas a pagar — que não envelhecem nem se cansam de chegar.

Na idade dita “prateada”, multiplicam-se os gastos. Nunca a “prata”. Remédios cada vez mais caros sustentam o pulsar de um coração vacilante. Somam-se a isso as despesas com cuidadoras, fisioterapeutas, planos de saúde e consultas médicas. Estas, cada vez mais difíceis de agendar, porque os irrisórios valores pagos pelas operadoras afastaram dos planos de saúde um grande número de bons profissionais.

Mas, sobretudo, o idoso carrega o peso da solidão. Dias encompridados de ausências e silêncios. Demoradas horas impregnadas de tristeza e melancolia, acompanhadas apenas pelo latir triste e distante de um cão saudoso de seu dono.

Esse penoso sentimento de solidão se faz visita permanente. Transpõe as frias paredes das casas e apartamentos. Senta-se ao lado. E arrasta o idoso para o chão do desânimo ou para o vale sombrio da depressão.

Lentamente, sua autonomia se esvai. De forma silenciosa e persistente. Depender de filhos e netos torna-se o novo normal — para quem tem a felicidade de tê-los por perto. Quem não a tem, sofre ainda mais. Passa a depender da boa vontade de amigos ou da ajuda de estranhos. Até as tarefas mais banais viram travessias por sombrios labirintos.
Marcar uma simples consulta torna-se um teste desumano de paciência. É que a modernidade ergueu um insensível muro digital. Sistemas automatizados e vozes sintéticas ignoram a vista cansada, as mãos trêmulas, a perplexidade diante de telas confusas. Para a máquina fria e distante, a fragilidade humana é apenas um ruído na linha.

A mesma dependência incômoda se repete na rotina do pagamento de boletos, no emaranhado de logins, senhas e códigos exigidos pelos bancos, e no medo constante dos abutres digitais, que espreitam, dia e noite, suas parcas economias.

Para atravessar esse deserto, insisto: é preciso uma força quase sobrenatural. O idoso precisa buscar, no fundo da alma, a chama acesa de uma lâmpada antiga. Só assim continuará a caminhar pelo terreno pedregoso do seu crepúsculo.
E seguir em frente.

A passos lentos, caminhar rumo ao pôr do sol, levando consigo as lembranças dos momentos vividos, as ausências sentidas e a dignidade que ainda lhe resta.
Até que, um dia, sem ruído nem alarde, a tela da vida suavemente se apague. E surja, lá no fundo do palco, luminosa e definitiva, uma derradeira palavra: “Fim”.