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O espelho, a foto, a idade

Gilberto Amado revela, em Minha formação no Recife, que só em 1905, ao chegar ao Recife, a fim de fazer o curso de Direito, é que, num hotel, para se abrigar da chuva, se deparou com um espelho enorme

Por Vladimir Souza Carvalho

Espelho

Gilberto Amado revela, em Minha formação no Recife, que só em 1905, ao chegar ao Recife, a fim de fazer o curso de Direito, é que, num hotel, para se abrigar da chuva, se deparou com um espelho enorme, no qual “pela primeira vez me via de corpo inteiro”. Então, a desagradável surpresa: “Aí é que tomei conhecimento da minha fealdade”. O diabo do espelho enorme. Uma vez, em Maceió, em hotel, saindo do banheiro, bem à vontade, senti que alguém me acompanhava os passos. Susto imediato. Parei para apurar. Não era ninguém. Era eu mesmo e o espelho, do piso ao teto, Ufa! Respirei.

Se o espelho, o espelho grande, revela o que está a sua frente, sem respeitar os anos vividos por cada um, sem ter um cirurgião plástico que estique as papadas do rosto, levante as pálpebras, se o espelho é tão cruel com a imagem que exibe, eu penso que mais tenebroso é a fotografia, que guarda a fisionomia do fotografado pelo resto da vida, independentemente das medalhas, que conserve no peito, de amigo disso e daquilo, por serviços prestados, que nunca o foram, jogando no lixo a liturgia da solenidade de entrega, os passos do oficial a caminhar levantando o joelho até perto da cintura, a medalha ou o diploma, numa peça de veludo. Nada disso leva em conta. Mantém a pessoa como era, sobretudo porque o fotógrafo não é dado ao deleite da leitura , e, assim, certamente, não mergulhou nas páginas de O retrato de Dorian Gray.

Se corro do espelho grande, por ficar a perguntar do que a vida fez do meu rosto dos vinte anos, para não repetir um poema de Cecília Meireles, não consigo fazer o mesmo da fotografia, que guardo como um hábito de todos os tempos. Não é agora que vou mudar meus passos. E, vez ou outra, sem dolo algum, me deparo com uma, de velhas datas, ou quando a curiosidade aperta o cinto, o espanto é maior. Deus do céu, como eu era, exclamação inútil. E aí constato que o tempo passou e continua passando, como um filme que só se encerra quando a morte tomar assento à mesa. O consolo é que mamãe, com onze anos em outra dimensão, não está mais aqui. Estivesse, não me reconheceria.


Membro das Academias Sergipana e Itabaianense de Letras