"Candidatura movida por autoproteção", diz ministra; "evasão é atentado à Justiça", afirma advogado
Para Luciana Santos, movimento acusa "desfaçatez". Na análise de Delmiro Campos, senador atraiu para si fato político, que se presta a alimentar a claque
“Chama-se uma evasão”, esclarece o advogado Delmiro Campos sobre o movimento feito pelo senador Flávio Bolsonaro de deixar o País, tachado, nesta terça-feira (27), por muitos como “fuga”. “Ele não estava preso nem tinha ordem de prisão. Para a Polícia Federal (PF) ele fugiu, eu entendo que ele escapou aos limites da legislação brasileira”, realça Delmiro. “Ele se evadiu e essa evasão é um atentado à Justiça porque ele é investigado”, acrescenta, lembrando que, com isso, Flávio está abdicando da prerrogativa de foro privilegiado de senador, vigente até 31 de janeiro de 2027.
“Porque Moraes não pode prender ele até 31 de janeiro”, sublinha. Se não pode ser preso, pontua Delmiro Campos, ele, de outro lado, “atraiu para si um fato político", que, na análise do advogado, se presta a “alimentar a claque dele”. Um dia antes de sair do Brasil, o senador, em seu Instragram, publicara: “Pra resistir ao caos, eu vou organizar a oposição”. E afirmou que pretendia “fazer da Câmara e do Senado a nossa fortaleza” contra o quarto mandato de Lula.
Um dia depois, descumprindo prazo de entrega de seu passaporte à PF, cujo limite era as 11h de ontem, conforme fixado pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), Flávio consolidou sua saída do Brasil.
Pegou de surpresa até aliados, a exemplo do senador Rogério Marinho, coordenador da candidatura dele à Presidência da República. Entre os adversários, se a evasão não surpreende, acusa “desfaçatez”, na leitura da ministra de Ciência e Tecnologia, Luciana Santos.
“Não me surpreendo com nada que vem da família Bolsonaro. Eles são capazes de qualquer coisa. O que me espanta é a desfaçatez", introduz a auxiliar do presidente Lula. Em seguida, recorda: "Ontem, afirmou categoricamente que nunca pensou em sair do País e que iria liderar a oposição e, no dia seguinte, faz exatamente o contrário”.
Para ela, a postura do senador revela “que a candidatura dele era movida por autoproteção e proteção do pai e da família mais do que qualquer compromisso com o Brasil e com o programa de direita que ele se arvora a representar”.
Na esteira, ela considera: “Na verdade, nem programa ele tem. É movido por interesse do clã Bolsonaro, da família e só”. Ao deixar o Brasil, Flávio deu as costas não só ao processo legal, mas aos 59.826.041 votos que obteve no último domingo, alimentando, além da claque, também os discursos dos adversários. Diante do episódio, ainda nesta terça (27), o presidente Lula, em discurso, disparou: "Quem não deve não teme", afirmando ainda que o Brasil é a "segunda pátria" do adversário, registrando que a primeira é "lamber botas dos Estados Unidos", para onde Flávio se dirigiu.
Impressões
Presidente estadual do MDB, Raul Henry trocou impressões com o presidente nacional da sigla, Baleia Rossi, após o 2º turno. Satisfeito com sua eleição para Câmara Federal, o dirigente nacional chamou a atenção para “o ambiente hostil” que tem identificado na política atualmente, diferente, na análise dele, do que se costumava ver na política tradicional. A Raul, Baleia defendeu que é preciso “pacificar o País”.
Fila preferencial
Neutro no 1º turno, o MDB liberou os diretórios. No 2º turno, se deu uma divisão e 10 estados do Norte e Nordeste declararam apoio a Lula. “Com exceção do Rio Grande do Norte, todo mundo apoiou Lula”, realça Raul Henry. No governo, se fala que é das primeiras siglas que o presidente vai receber.
Vitimização
Seja qual fosse a pretensão da candidatura de Flávio Bolsonaro, ela estava no campo da legitimidade, argumenta Delmiro Campos. Agora, ao invés de exercer liderança de oposição no Brasil, como o próprio Flávio se comprometeu a fazer, ele optou, avalia o advogado, “por potencializar a campanha de vitimização do irmão, Eduardo, de que é um perseguido político”.
Em xeque
“Existe essa questão da potencialização, da vitimização da família e do potencial de amplificar esse protesto internacional, ou de tentar buscar um maior apoiamento por parte de Trump”, enfatiza Delmiro. “Ele se evadiu pondo em xeque a ordem de entrega do passaporte e em desobediência à proibição de saída do País”, arremata Delmiro Campos.
Sob análise
Flávio Bolsonaro é formalmente investigado em dois casos que correm no Supremo Tribunal Federal. O primeiro deles é sobre o financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro. A segunda investigação é relacionada ao advogado Willer Tomaz. Flávio foi cadastrado como "usuário master" de uma conta bancária do advogado, investigado por suspeita de lavagem de dinheiro e o STF abriu inquérito para apurar.