Flávio Bolsonaro entre "tirar argumento do PT" e "virar voto"
Para Mendonça, movimento do presidenciável do PL evita que o PT siga explorando politicamente o episódio. Líder do governo no Senado, Teresa Leitão, diz que adversário de Lula "entrou no clima de vira voto"
Na última semana de votações no Congresso Nacional antes do primeiro turno, parlamentares agiam para avançar em pautas prioritárias para o Governo Federal e caras, naturalmente, ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que busca a reeleição.
Em meio às prioridades, figurava o fim da escala 6x1. Ali, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, tentava equilibrar solicitações do governo com a pressão da oposição, que acusava viés eleitoral, a julgar pelo “timing”. A oposição agiu na direção de enquadrar propostas como eleitoreiras, enquanto governistas argumentavam que havia matérias aguardando votação desde abril.
Havia pressa do governo, porque parlamentares só voltariam ao Congresso após o pleito. A mobilização de governistas, naquele momento, esbarrou em insucesso em relação à PEC do fim da escala 6x1. Aliados do presidente Lula, a exemplo de Randolfe Rodrigues, chegaram a admitir um “movimento bem-sucedido da oposição”, liderado pelo senador Flávio Bolsonaro, no sentido de não votar a matéria.
Na semana passada, Flávio chegou a comparar o projeto à promessa de Lula de facilitar o acesso da população à picanha. Agora, com a proposta na pauta do Senado para ser votada, nesta quarta-feira (14), o candidato do PL, ontem, passou a declarar voto a favor da referida PEC.
Coordenador da campanha de Flávio em Pernambuco, o deputado federal Mendonça Filho avalia, à coluna, que esse recuo era o “único caminho possível”, considerando o desenho da campanha. “Na verdade, esse era o único caminho possível diante dessa indústria de fake news que o PT criou”, argumenta.
Mendonça afirma que Flávio sempre defendeu a flexibilidade na jornada de trabalho, com autonomia para o trabalhador ter mais tempo de descanso. No entanto, adverte que “apresentar um projeto alternativo numa eleição como essa” seria inviável. “Qualquer alternativa ao que foi aprovado na Câmara poderia suscitar ruído”, pondera o parlamentar.
Indagado se seria bom ou ruim para Flávio aderir à proposta defendida pelo adversário, Mendonça analisa que o movimento do presidenciável do PL evita que o PT continue explorando politicamente o episódio. “Isso tira um argumento do PT. Era a principal cobrança de Lula contra Flávio. O resto é tudo mentira”, avalia Mendonça Filho. No PT, o recuo de Flávio foi tachado de “cálculo eleitoral”. Líder do governo no Senado, Teresa Leitão confia na aprovação do texto nesta quarta. “Ficou o tempo todo dizendo que a PEC era eleitoreira e, agora, entrou no clima do vira voto”, alfineta a petista.
Fim da escala 6x1 no menu
Ainda na semana passada, após encontro com integrantes do PP e do União Brasil, Flávio Bolsonaro, ao comparar a PEC do fim da escala 6x1 à promessa de facilitar o acesso da população à picanha, disparou: “Ele, Lula, chega com mais uma promessa de picanha que não vai resolver a vida de ninguém. Ele tem que deixar de ser hipócrita”. O presidenciável do PL afirmou que o petista achava que ia enganar o eleitor. “Não vai mais enganar. O eleitor não está à venda”, atacou. Agora, o fim da escala 6x1 parece ter virado raro ponto de convergência entre os dois.
À mesa
Presidente nacional do PSB, João Campos participou, nesta terça-feira (13), de reunião dos dirigentes de siglas aliadas da campanha Lula-Alckmin, em Brasília. O foco, agora, é “consolidar onda de crescimento até dia 25”. O socialista avalia que há, neste segundo turno, “uma curva ascendente, de crescimento da mobilização digital, da presença cada vez maior nas ruas de todo o país e de um sentimento de vitória que se consolida a cada dia”. O encontro contou com a presença de deputados, senadores e governadores, que se debruçaram sobre avaliações da conjuntura política e eleitoral.
Calendário
Até o final da semana, Mendonça Filho deve confirmar se haverá ou não espaço para Flávio Bolsonaro cumprir agenda em Pernambuco neste segundo turno. “Há 12 dias até a eleição”, calcula o parlamentar, ressaltando que a agenda do presidenciável está apertada e tem o eixo Minas Gerais-São Paulo-Rio de Janeiro como prioridade, considerando o volume de votos concentrados nesses estados. A lógica é similar a da campanha do presidente Lula. Mas, nesta quarta (14), ou na quinta-feira (15), Mendonça ainda deve ter um retorno sobre isso.
Na rota
Presidente estadual do PL, Anderson Ferreira referiu-se a Mendonça Filho, durante ato da direita, nesta terça-feira (13), no Recife, como “futuro ministro de Pernambuco”. Mendonça, que foi titular da pasta da Educação no governo Michel Temer, pontua que o foco, agora, é “exclusivamente a vitória de Flávio Bolsonaro”. Nesta quarta-feira (14), o candidato a vice-presidente, Alfredo Gaspar, comanda carreata em Carpina, na Mata Norte. No dia 22, às 19h22, quem aporta em Pernambuco é o deputado federal reeleito Nikolas Ferreira, que vai protagonizar “O Bloquinho do 22”, com concentração na Pracinha de Boa Viagem e percurso até o Parque Dona Lindu.
Quem não foi
Entre as metas da campanha do PT neste segundo turno, uma delas é diminuir a abstenção, observa o senador Humberto Costa. No PT, se trabalha para que Lula possa aumentar votação em municípios onde já obteve larga margem. Entre os locais no radar está, em Minas, o Vale do Jequitinhonha, região especialmente mais identificada com o Nordeste do que com Sudeste. No Rio de Janeiro e em São Paulo, há espaço para diminuir diferença. "Precisa priorizar onde precisa reverter voto", explica o senador.