° / °
Cadernos Blogs Colunas Rádios Serviços Portais

Até a máfia tem ética. Ministros sangram STF

Corte degradada por interesses pessoais fornece aula magna de patrimonialismo erudita, evocando os mais nobres princípios em defesa dos mais torpes privilégios

Por Mano Ferreira

O ministro Alexandre de Moraes na sessão plenária extraordinária do STF desta terça (15)

Gilmar Mendes foi autor da frase símbolo da sessão de ontem do Supremo Tribunal Federal: "Mesmo que um colega tenha envolvimento não pode ser submetido a esse vexame. Até a máfia tem ética". A tese do decano é que, para poupar seus amigos do desgaste causado pela luz do sol diante da revelação das condutas que adotam sob as sombras, o vexame deve ser imposto sobre a própria instituição, que sangra a céu aberto. Porque a máfia tem ética, mas o corporativismo não tem limites.

Flávio Dino foi capaz de avaliar que vivemos "o momento mais corrupto da história do Judiciário" e adotar como providência imediata, sinal do seu senso de urgência, um pedido de vista que paralisa tudo por até 90 dias. O ministro Fachin assistiu passivamente, engolido pelas táticas de tumulto.

Tudo após vazamentos constrangedores. O filho do ministro Fux compartilha relatos de amizade com Daniel Vorcaro. Já o ministro Nunes Marques teria desfrutado de serviços sexuais pagos pelo banqueiro.

Certamente não fui o único a lembrar as palavras de carinho do ex-ministro Barroso, imaginando uma abrangência mais ampla de destinatários: "Você é uma pessoa horrível, a mistura do mal com o atraso e pitadas de psicopatia, está sempre atrás de algum interesse, que não é o da Justiça”.

Nesta grave crise, o interesse da justiça é inequívoco: garantir uma Suprema Corte íntegra, que restaure sua credibilidade, comprometida com a Constituição, a Democracia e os princípios republicanos. Só havia um desfecho compatível com esse interesse: a abertura de investigação contra o ministro Moraes, pelos graves indícios de envolvimento corrupto com o banqueiro mafioso.

Abrir investigação não significa condenar, mas fazer o básico: iniciar a apuração, obedecendo ao devido processo legal, com amplo direito à defesa e presunção de inocência. Condenação ou arquivamento só cabem ao fim do processo. Sem a apuração, impera a desconfiança, que degrada o tribunal.

Diante das evidências levantadas pela Polícia Federal, qualquer cidadão brasileiro seria submetido a investigação. Se o juíz fosse o próprio Moraes, o cidadão seria preso. Na caneta do ministro, o apagamento de mensagens fundamentou “consciência da própria culpa” no famoso caso da golpista Débora do Batom. Os ministros, porém, demonstraram insubmissão à mesma lei dos cidadãos comuns.

Para honrar a toga, Moraes deveria se licenciar, defender a imediata investigação e dedicar-se à sua defesa. Se ao cidadão cabe a presunção de inocência, ao ocupante de cargo público cabe o dever da reputação ilibada. O fato dessas afirmações parecerem ingênuas é sintoma da perversão geral da República.

Juízes não são imperadores absolutistas. Seus poderes derivam da Constituição outorgada pelo povo, de quem são funcionários. Nesse sentido, apenas a ministra Carmen demonstrou alguma dignidade, ao pedir desculpas ao país. O problema é que precisamos de muito mais do que pedidos de desculpas.