° / °
Cadernos Blogs Colunas Rádios Serviços Portais

Dossiê: Como o PCC, nascido em SP, virou alvo de Donald Trump

Massacre do Carandiru, irmandades secretas e tráfico de drogas transcontinental: relembre os capítulos que marcaram a ascensão do PCC

Por Estadão Conteúdo

Marcos Willians Herbas Camacho é um narcotraficante brasileiro Marcola

O Departamento do Tesouro americano classificou a facção Primeiro Comando da Capital (PCC) como "a maior organização criminosa do Hemisfério Ocidental" em um documento publicado na quarta-feira (1º).

"O PCC é hoje a maior organização criminosa transnacional do Hemisfério Ocidental e, nos últimos anos, expandiu suas operações globalmente, com presença significativa em países como Reino Unido, Turquia e Japão. Nos EUA, a facção representa uma ameaça criminal real e crescente", diz o comunicado.

Segundo o governo americano, o PCC explorava o sistema financeiro dos EUA para lavar dinheiro do tráfico de drogas. A facção representa uma ameaça crescente à segurança nacional por conta da atuação na lavagem de dinheiro, no tráfico de drogas e no contrabando de dinheiro em espécie.

Fundação: disputas sangrentas em Taubaté com Cesinha e Geleião

O Primeiro Comando da Capital (PCC) surgiu na Casa de Custódia e Tratamento de Taubaté, no Vale do Paraíba. O local, conhecido como "Piranhão", era considerado pelos presos da época como uma espécie de castigo, em razão das condições precárias e de brigas frequentes entre os detentos. O Massacre do Carandiru, que resultou na morte 111 presos na zona norte de São Paulo em 1992, aumentou ainda mais a tensão no presídio.

A primeira demonstração de força viria em um campeonato de futebol. Era 31 de agosto de 1993, no que era para ser mais uma partida da competição, oito detentos emboscaram dois presos considerados rivais (Baiano Severo e Garcia) em uma quadra. A carnificina foi encabeçada por nomes como Geleião e Cesinha. Estava fundado o Primeiro Comando da Capital.

Na primeira década após sua fundação, o PCC era marcado por uma ofensiva até mais explícita contra o Estado, muito em conta do que pensavam nomes como Cesinha, Sombra e Geleião.

Expansão: ‘irmandades secretas’ sob o comando de Marcola

Com a ascensão de Marcola, o PCC passou a ter caráter mais próximo ao de "irmandades secretas", com uma regulação mais estruturada das atividades criminosas e proibições expressas para quem ingressasse na facção. Em contrapartida, foram providos benefícios e proteção aos presos. Essa segunda fase foi decisiva para consolidar a organização como a principal força do narcotráfico do País.

Transcontinental: cocaína parte de Santos para o mundo com André do Rap e Fuminho

O foco passou a ser a ampliação da presença da organização no cenário internacional. A mudança se deu em resposta a condenações de lideranças históricas da organização, a transferências de nomes fortes da alta cúpula para presídios federais e a novas medidas adotadas pelas autoridades para dificultar a comunicação de quem está na prisão - o celular teve papel central na expansão do PCC no começo dos anos 2000.

Nos últimos anos, as autoridades têm buscado sufocar financeiramente a organização. Histórias recentes ajudam a mostrar como o PCC tem se reconfigurado diante dessa nova dinâmica. Nomes como André do Rap, Fuminho e Cabelo Duro, influentes na Baixada Santista, despontaram com força na organização e passaram até a acumular riquezas a partir do crime. Em 2018, Gegê do Mangue, considerado uma das principais lideranças do PCC nas ruas, suspeitou da atuação do trio e proibiu que a estrutura da facção fosse usada para fins particulares.

Gegê foi assassinado a tiros em uma suposta emboscada em território indígena em Aquiraz, no Ceará. Uma semana depois, Cabelo Duro também foi morto - ele havia sido apontado como o assassino, a mando de Fuminho. A revelação abalou a organização, uma vez que Gegê era batizado como "irmão" e Fuminho, não. Ou seja, ele não poderia ter mandado executar Gegê sem aval da "Sintonia Final", cúpula mais alta da organização.