Lições do Vietnã

Publicado em: 19/07/2018 03:00 Atualizado em: 19/07/2018 06:40

Assisti The Vietnam War, de Ken Burns e Lim Novik. Revi a foto de pessoas na escada de acesso ao terraço da Embaixada dos EUA, em Saigon. Dizíamos: “Go home, yankees!”. Mas nossos “terraços” ainda são rotas de fuga do conflito social no Brasil.

A Guerra do Vietnã deixou amargo rastro: 2 milhões de vietnamitas mortos, 50 mil americanos abatidos. No documentário, as perguntas: “Para quê?” “Por quê?”

Em 2007, quando Sérgio Cabral assumiu o Rio de Janeiro, e outros governadores tidos como “competentes” outros estados, a mortalidade infantil beirava 24,3/1000 nascidos. O desemprego, 7,4%. O tráfico movimentava 1 bilhão de reais.

O último capítulo do documentário é uma lição de como o ser humano tem a capacidade de reconstruir, de se reconstruir, quando decide fazer algo de bom.

Após a guerra, o veterano Tom Vallely iniciou uma luta de reconciliação. Depois de anos de tentativas, conseguiu voltar ao solo vietnamita. Fundou o Vietnam Program na Harvard Kennedy School. Queria plantar árvores, construir escolas. E logo no país que quase ajudara a destruir... Mas a aproximação não fluía, tanto porque os EUA queriam saber o paradeiro de 2.500 americanos, quanto os vietnamitas dos 300 mil desaparecidos.

Então, dois presidentes americanos foram ao Vietnã: Clinton e Barak Obama. O futuro poderá ser melhor “quando nos recusamos a ser prisioneiros do passado”, discursou Obama. Veteranos dos dois países se encontraram e prantearam seus mortos. No antigo teatro de uma guerra, uniam-se, antigos inimigos, à procura de um futuro melhor. Os vietnamitas queriam escrever a própria história e um país justo e decente para se viver.

Dizem que o inferno está cheio de gente com boas intenções. Três presidentes americanos trataram o Vietnã com uma política que se mostraria catastrófica. Lyndon Johnson queria erradicar a pobreza nos EUA. Perdeu-se, como outros que vemos por essas bandas, nos labirintos da inesgotável fonte de corrupção, aquela que brota da volúpia do poder.

No Brasil, gerações ainda esperam o momento da conciliação nacional, da democracia formal com a social. Chegamos a 27,7 milhões sem trabalho. O impressionante número de 170 homicídios por dia, de 550 mil brasileiros assassinados entre 2006/2016.

Se temos índices de um país em guerra civil, onde está a reação? Nos EUA, o protesto começou nas universidades, chegou nos movimentos por direitos civis. Mas o documentário nos mostra, e claramente, que a reação ganhou força quando pessoas não diretamente afetadas pelo conflito aderiram à causa.

Nas trincheiras da indiferença social brasileira, estão aqueles que detêm altos salários e aqueles a quem compete combater privilégios. Mas tudo fica no patamar de um grande fingimento nacional.

Falar de um país justo é algo monotemático, enfadonho. “Esse assunto novamente?” “Que saco!” Lutar por um país melhor é uma decisão que mexe com nossas vidas. Atiça um relutante espírito de renúncia. Um desgastante e perseverante protesto contra injustiças e privilégios e uma tomada firme de atitude. Requer ação, reação, e não apenas palavras.

Há anos, durante uma refeição num spa de luxo, introduzi o “boring” tema da injustiça social. Fui repreendido por uma comensal: conversa chata e inapropriada. Ela estava ali para descansar o corpo e relaxar a mente.

Tal qual Maria Antonieta, não compreendia. Não compreendia, como muitos ainda não compreenderam, que não haverá helicópteros e marines nos terraços da nossa “saigon”.

(Homenagem a Roberto Franca. Justiça social: nos corações e nas mentes).

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