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Muito carro e moto para pouca rua: veja ideias para desatar ''nós'' no trânsito do Recife

Levantamento realizado pela Autarquia de Trânsito do Recife (CTTU), em dez anos, houve um aumento considerável de veículos individuais que também contribuem para retenções

Publicado em: 04/03/2024 06:00 | Atualizado em: 04/03/2024 05:25

Mesmo com viaduto, trânsito no Recife parece sempre quetem um "nó"  (Foto: Romulo Chico/DP)
Mesmo com viaduto, trânsito no Recife parece sempre quetem um "nó" (Foto: Romulo Chico/DP)
Uma das maiores certezas de quem mora no Recife e precisa se locomover pela cidade é que, em algum momento do dia, vai ter que enfrentar um engarrafamento. 

Para tentar entender esse problema, é preciso observar uma informação oficial. Segundo a prefeitura, em dez anos, o número de carros cresceu 26% e o de motos, 56%.

Nesse período, a cidade não acompanhou esse crescimento da frota com a abertura de vias suficientes nem adotou mecanismos de engenharia capazes de facilitar a mobilidade. 
 
Resultado da equação: tem muito veículo para pouca rua. 
 
Por isso, os chamados "nós" no trânsito fazem parte da rotina de motoristas, passageiros de ônibus e de transportes por aplicativo e táxis.  
 
Esses "gargalos" pioram nos horários de pico e acabam dificultando o trajeto devido ao grande fluxo de veículos. 
Sem falar nos dias em que a coisa fica pior por causa da chuva e ou de protestos. 
 
Diante de tudo isso, fica uma questão: o que fazer? qual o caminho?
Para tentar responder, o Diario de Pernambuco entrou em contato com a prefeitura e com especialistas em mobilidade.

Veja ideias para o trânsito do Recife 
 
Engenheiro civil e especialista em mobilidade, Stênio Cuentro pontua os principais problemas do trânsito do Recife, que segundo ele têm três origens. 

‘’Primeiro, a cidade tem muitos rios, muitos canais e poucas passagens por cima desses cursos d'água. Pontes, passarelas, pontilhões. Todos eles são necessários. Em 1998, a diretoria de engenharia do Detran já havia feito uma proposta de cerca de 25 intervenções para melhorar a fluidez, porque o que ocorre é que você, às vezes, tem que se deslocar até um determinado ponto onde tem uma ponte e um pontilhão para cruzar um canal. Vou dar o exemplo de quem vem pela avenida Rui Barbosa e vai em direção a Olinda. Há uma quantidade enorme de veículos que vai até o Parque Amorim para, de lá, pegar em direção a Olinda. Esse mesmo volume de carros se cruzasse pela rua Amélia, saindo da Rui Barbosa, pegaria a esquerda na rua Amélia, chegaria até a Agamenon Magalhães e se ali tivesse um pontilhão com um semáforo, boa parte dos veículos sairia do Parque Amorim e iria fazer o novo itinerário por cima de um pontilhão no canal Derby Tacaruna em direção Olinda’’.

Ainda de acordo com Stênio, essa foi uma das 25 intervenções que sua equipe sugeriu à prefeitura, na época. Cuentro frisa que com estudo e planejamento é possível melhorar a vida dos condutores.

‘’Se for andar pela cidade, em Setúbal, no bairro de Boa Viagem, no bairro do Jordão, todos eles que têm canais, a prefeitura precisa construir mais passagem, mais pontilhões de pontes para que o tráfego flua melhor. Essa é uma alternativa, é uma ação que não custa caro, que a prefeitura pode sim se programar e fazer’’.

Sobre fiscalização, Cuentro diz que ‘o bicho pega’ enfatiza que não adianta só o carro da CTTU e o guarda passar e multar.

‘’Não adianta multar, por exemplo, quem tá estacionado de forma irregular, porque o prejuízo da circulação já foi causado. A ação de fiscalização, necessariamente, passa pela remoção do veículo, reboque do veículo. Você anda pela cidade e em todas as avenidas importantes você observa a operação de carga e descarga, estacionamento proibido ao longo das vias. Na avenida Boa Viagem, o sujeito resolve parar em fila dupla para descarregar coco para uma barraca de coco às 9h. Isso é proibido e tem que ser coibido’’.

Para Cuentro, o problema citado contribui e muito para o surgimento de certas retenções.
 
Ao chegar ao Vasco da Gama, na Zona Norte, por exemplo, a pessoa tem ruas estreitas, onde o sujeito para o caminhão para fazer carga e descarga e simplesmente trava a rua. 

‘’A ação da fiscalização não deve ser somente multar o veículo, e sim, multar e remover o veículo da via’’.

Stênio reforça que deve haver investimentos na educação em relação ao trânsito, mas não para alunos do primário, e sim para motoristas.

‘’É uma coisa inadmissível, você vê auto-escola para motorista habilitado. Se você andar na cidade, verá empresas que ganham dinheiro para ensinar a dirigir quem já está habilitado. Ora, tem uma questão errada nesse assunto! Ou você é habilitado ou você não é. Isso porque lá atrás, na educação do trânsito, na educação em dirigir, o ensino falhou, ou foi um ensino mal feito ou sequer foi feito. Então, a educação do trânsito significa, antes de tudo, ensinar o motorista a dirigir, ensinar o motorista regra de trânsito, ensinar que tem que ligar a seta quando for mudar de faixa, ensinar a não parar no meio de um cruzamento e ensinar a respeitar uma faixa de pedestre. Então, essa ação é absolutamente importante’’ disse o engenheiro civil, Stênio Cuentro. 

Conceito

Para o consultor de empresas e urbanista, Francisco Cunha, um dos caminhos para melhorar o trânsito do Recife é ampliar o conceito de tráfego de veículos motorizados para a mobilidade de pessoas.

‘’Nesse sentido, então, precisamos considerar os outros modos de deslocamento, para além do individual motorizado, que é feito por carros e motos, que são os modos de deslocamento que compõem o que a gente pode chamar de mobilidade sustentável, que são a pé, de bicicleta e por meio de transporte público. Esses modos de deslocamento são responsáveis pelo deslocamento de mais de dois terços das pessoas que se locomovem por dia nas cidades brasileiras’’. 

Ainda segundo sobre o trânsito de pessoas, deve-se abrir espaço para esses modos não individuais motorizados, como calçadas caminháveis, mais ciclovias, ciclofaixas e ciclorrotas e mais faixas exclusivas para o transporte coletivo, porque fazendo isso, irá garantir espaço mais livre para o deslocamento do maior número de pessoas não motorizadas nas cidades. 

‘’Afinal, para melhorar o trânsito é preciso melhorar a mobilidade da maioria das pessoas e não apenas desafogar as ruas para os carros, porque isso não resolve. Os carros e motos transportam uma quantidade relativamente pequena de pessoas, já que dois terços se locomovem pelos outros modos de deslocamento’’ disse Cunha.

O Diario de Pernambuco tentou contato com a assessoria de comunicação da CTTU para obter dicas de melhorias de trânsito.
No entanto, a prefeitura infromou que não foi possível conseguir a entrvista e disse que se comunicaria apenas pela nota que foi enviada. 

Locais 

Avenida Rui Barrbosa é local de "eterno" engarrafamento no Recife  (Foto: Romulo Chico/ DP)
Avenida Rui Barrbosa é local de "eterno" engarrafamento no Recife (Foto: Romulo Chico/ DP)
Alguns locais já são famosos e inclusive são citados pelas pessoas que utilizam do caminho, ou desviam dele, por já conhecer as retenções.
Pontos como, a Av. Conselheiro Rosa e Silva em cruzamento com a rua do Futuro, Rua Cônego Barata, Av. Abdias de Carvalho em ambos os sentidos, Av. Agamenon Magalhães, Avenida Antônio de Góes, Av. Caxangá entre outros, são locais que normalmente, têm bloqueios rotineiros, nos horários de pico ou dias de chuva, que causam alagamentos.

Em dias de muitas chuvas, diversos trechos são prejudicados com o acúmulo de água, na última semana, no dia 27 de fevereiro, locais como o túnel Felipe Camarão, Av. Caxangá na altura do Golf Clube e pontos da Av. Mascarenhas de Morais tiveram o trânsito travado devido a alagamento.   

Levantamento 

Com base em um levantamento realizado pela Autarquia de Trânsito e Transporte do Recife (CTTU), entre os anos 2013 e 2023 houve um aumento de 26% na frota de veículos registrada na Região Metropolitana do Recife (RMR); em relação às motocicletas, o aumento foi de 53%, quantidade que também contribui para a formação dos ‘nós’ nas estradas. 

Neste mesmo período, em dez anos, a frota de ônibus aumentou apenas 1,2%. De acordo com o estudo da CTTU, a falta de investimento no transporte público é também um dos fatores principais para que a movimentação se torne cada vez mais intensa.

Carros, motos e ônibus  (Foto: Romulo Chico/DP)
Carros, motos e ônibus (Foto: Romulo Chico/DP)
‘’O aumento na quantidade de automóveis e motocicletas pode ter como consequência a migração do uso do transporte coletivo para o individual. Apesar do investimento do município em corredores exclusivos de ônibus, que já se somam em 66 quilômetros de extensão, equipamentos como esse precisam de aumento contínuo na oferta e na qualidade dos ônibus, a fim de que seus benefícios sejam maximizados. O aumento excessivo na frota de veículos particulares termina por levar a capacidade viária ao limite’’. 

A Autarquia também pontua que o trânsito da cidade por não ser estático, sofre intervenções. Neste mês de fevereiro foram registradas 27 manifestações populares que acarretaram em congestionamentos, o que, em média, é uma manifestação por dia.

‘’Além disso, foram dados 59 apoios a intervenções como obras, serviços elétricos, entre outros. Sem contar que, muitas vezes, certos serviços não são comunicados com a devida antecedência ao órgão de trânsito para que este consiga mitigar os efeitos indesejáveis na circulação’’ diz a nota da CTTU.

Investimentos

Segundo a Autarquia, a gestão municipal tem investido de forma intensa em áreas com mais segurança para pedestres porque todos, independente do meio de transporte principal, caminham na cidade. 

No total já são 50 áreas de trânsito calmo com uso de urbanismo tático para redesenhar as vias e tornar mais seguras para todas as pessoas, ações que devolveram 25 mil m² aos pedestres.  

O investimento ainda conta com a rota ciclável, que continua sendo a maior da história do Recife, totalizando um aumento de 166 km desde 2013. 

‘’Entretanto, apesar de o transporte ativo ser uma parcela importante e necessária, não é possível garantir a mobilidade das pessoas sem o investimento devido nos transportes de massa, isso porque, de acordo com a Pesquisa de Origem e Destino de 2018, 51% das pessoas utiliza ônibus ou metrô para os seus deslocamentos principais, entretanto, se a oferta fosse de qualidade, os cidadãos poderiam utilizar muito mais esse serviço e, com isso, diminuir a demanda por transportes individuais, que se torna uma das causas dos engarrafamentos’’.

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