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Segurança pública

Medo e insegurança rondam moradores e comerciantes de Aldeia

Sensação de falta de amparo das autoridades piorou após assassinato de motorista na estrada dos Macacos: "uma tragédia anunciada", dizem

Publicado em: 05/03/2024 05:30 | Atualizado em: 05/03/2024 05:40

Estrada dos Macacos é ponto inseguro de Aldeia  (Foto: Rafael Vieira/DP)
Estrada dos Macacos é ponto inseguro de Aldeia (Foto: Rafael Vieira/DP)
“Uma tragédia anunciada”. É assim que representantes do Fórum Socioambiental de Aldeia, uma espécie de associação de moradores da Estrada de Aldeia, em Camaragibe, no Grande Recife, tratam da morte do motorista José Vital, de 58 anos.

Ele foi vítima de latrocínio, que é roubo seguido de morte, na região. 

O condutor morreu no dia 28 do mês passado, após ser baleado durante uma tentativa de assalto ao carro em que conduzia, ao trafegar na Estrada dos Macacos, uma via alternativa da Estrada de Aldeia, bastante movimentada por veículos e que está no limite entre Camaragibe e o Recife. 

A vítima foi atingida por um disparo no momento em que buscava uma criança em uma escola que fica em Aldeia.
 
Por meio de nota, a Polícia Militar informou "que tomou ciência da demanda e já fez um planejamento para reforçar as rondas, tanto em Aldeia, quanto na Estrada dos Macacos e que mantém o policiamento no local através de Guarnições Táticas 24h, motopatrulheiros e Operação Pernambuco Seguro".

Segundo moradores daquela região, o crime foi um fato anunciado diante das constantes denúncias de assaltos a veículos e a transeuntes, que resulta no medo e na sensação de insegurança para quem mora ou trafega pelos 17 quilômetros de faixa da Estrada de Aldeia.  

A reportagem do Diario de Pernambuco foi até Aldeia e conversou com moradores que já foram vítimas da criminalidade na localidade, que tem imóveis de alto luxo e em contraste com moradias precárias. 

As reclamações refletem nas estatísticas da violência em Camaragibe.
 
Os dados oficiais da Secretaria de Defesa Social (SDS) apontam que os números de crimes de Mortes Violentas Intencionais (MVIs) aumentaram entre 2022 e 2023. 
 
Além disso, houve registro no aumento de Crimes Violentos Contra o Patrimônio (CVPs), que são roubos e furtos. 

Representante de fórum se queixa de falta de diálogo com a PM  (Foto: Rafael Vieira/DP)
Representante de fórum se queixa de falta de diálogo com a PM (Foto: Rafael Vieira/DP)
Segundo o levantamento no portal do site da SDS, em 2023 foram registrados 68 assassinatos em Camaragibe.
 
O aumento foi de 23% se comparado com o mesmo período de 2022, quando foram contabilizadas 55 ocorrências. 

Já os crimes de roubos e furtos na cidade atingiram um total de 1.081 ocorrências nos 12 meses de 2023. Isso representa uma média de quase três assaltos diários. 

Em janeiro deste ano, houve 108 CVPs, o que equivale a uma média diária de três crimes de ocorrências registradas naquele município.
 
De acordo com a PM, a área onde o motorista foi morto apresenta, no último trimestre, uma redução de 44% no número de crimes violentos contra o patrimônio, se comparado ao mesmo período do ano anterior. Ratificamos a importância do registro de ocorrência através do 190, ou ainda o registro do boletim de ocorrência na Delegacia de Polícia Civil, para que desta forma sejam viabilizadas novas estratégias de segurança para o local.  

Análise

Em entrevista ao Diario de Pernambuco, o vice-presidente do Fórum Socioambiental de Aldeia, o aposentado Roberto Souza Leão, de 76 anos, disse que a falta de policiamento nas rondas ostensivas culmina na sensação de insegurança em Aldeia. 

Ele afirma que a questão da segurança era tratada pelos moradores junto à Polícia Militar em reuniões mensais em meados de 2019, antes da pandemia de Covid-19. De lá pra cá, Roberto diz que os encontros não acontecem mais e que a população perdeu o canal de diálogo com a corporação para cobrar e ajudar nas estratégias de segurança para a região. 

“Antes da pandemia, tínhamos um importante elo de diálogo com a PM, que acontecia mensalmente. Mas, desde a chegada da pandemia, não temos mais essa mobilização e os encontros não mais aconteceram. Diante disso nós (moradores) ficamos sem ter uma melhor interação com o Estado. Não sabemos, por exemplo, o que a PM está fazendo para melhorar a segurança. Moro em Aldeia há mais de 40 anos e a situação da insegurança vem piorando cada vez mais. Conheço muita gente que foi vítima de assalto, principalmente, na Estrada dos Macacos, onde recentemente, os criminosos atuam com mais frequência. Estamos praticamente reféns da violência e o Poder Público precisa tomar medidas para melhorar essa situação”, disse o aposentado. 
 
Ele acrescentou que, mesmo com a presença do distrito policial comunitário conhecido como “Koban”, que fica no quilômetro 10 da estrada, o contingente de policiais não é suficiente para realizar a segurança em toda faixa da rodovia. 

“É importante a presença do Koban, mas o efetivo de policiais é deficitário. Não há rondas ostensivas frequentes por aqui. E quando acontece uma ocorrência, é difícil você ver uma viatura passando para atender e tentar prender os assaltantes”, reclamou Roberto. 

O Diario visitou o distrito policial mencionado pelo aposentado, Lá, um dos policiais militares em serviço, que preferiu não seridentificado, confirmou que o efetivo sob responsabilidade do 20ºBPM, que faz o policiamento em toda faixa da Estrada de Aldeia é, atualmente, é de 10 PMs. 

Ele explicou que são dois policiais que ficam fixos em serviço no distrito, além de quatro PMs que atuam em rondas em duas viaturas e três policiais que fazem policiamento motorizado em motocicletas.

Histórias de violência

Efetivo de posto da PM é pequeno, segundo moradores (Foto: Rafael Vieira/DP)
Efetivo de posto da PM é pequeno, segundo moradores (Foto: Rafael Vieira/DP)
A empresária Rosa Santana, de 50 anos, foi uma das vítimas da violência no dia 4 do mês passado. 

Ela, o marido e o sogro fram vítimas de um assalto cometido por um grupo de cinco criminosos armados, no momento em que trafegava pela Estrada dos Macacos, com destino ao Recife. 

“Estava eu e o meu marido socorrendo o meu sogro, quando passávamos pela Estrada dos Macacos, no sentido Recife, fomos abordados pelo grupo de cinco assaltantes. Todos estavam armados e muito agressivos. Um deles apontou a arma em direção a minha cabeça. Em determinado momento em que eu fui tirar o cinto, um deles se assustou e quase atirou em mim. E, mesmo sabendo que estávamos ali para socorrer o meu sogro, eles (assaltantes) não quiseram saber e começaram a agir com mais agressividade. Foi daí que eu pensei que iríamos ser alvejados. Mas, Graças a Deus eles levaram o carro e os nossos pertences. Foi uma cena de terror, pois pensei que iríamos morrer. E isso acontece com frequência em Aldeia, O Poder Público ainda se faz presente com a PM, mas as rondas são muito precárias. Estamos abandonados, literalmente”, relatou a empresária que mora há mais de 20 anos na região e administra uma pizzaria que fica nas proximidades onde sofreu a violência armada. 

O advogado Rafael Alves do Nascimento, de 37 anos, é morador de Aldeia desde 2017 e convive diariamente com o medo de ser uma vítima da ação de criminosos na localidade. Ele conta que os assaltos são frequentes e que o efetivo de policiamento na região não é o suficiente. 

Centro comercial de Aldeia  (Foto: Rafael Vieira/DP)
Centro comercial de Aldeia (Foto: Rafael Vieira/DP)
Ele compartilhou um vídeo para a reportagem do Diario de Pernambuco onde motoristas flagraram o momento em que criminosos armados realizam um “arrastão”, fazendo vítimas na Estrada dos Macacos, no mês passado. 

“Tem um vídeo que circulou bastante nas redes sociais no qual mostra o momento em que motoristas estavam sendo alvos de um arrastão cometido por criminosos armados. As imagens repercutiram muito por aqui e refletem na falta de segurança que vivenciamos aqui. Além de ter viés turístico, grande parte da economia local decorre do setor comercial. A grande movimentação de Aldeia são os empreendimentos, mas por essa questão de bem estar, não somente um reduto de descanso como era antigamente, a gente percebe que a segurança é muito escassa e não acompanha o desenvolvimento da região. Alguns pontos, como o quilômetro 10, a gente percebe um foco no policiamento, mas nas demais áreas os moradores estão à mercê. Além disso, a sede do 20ºBPM é longe, fica em São Lourenço da Mata, o que dificulta uima presença maior de efetivo aqui em Aldeia e em outros locais de Camaragibe. É necessário que o Poder Público dê a atenção merecida para resolver isso. Aldeia está abandonada”, disse o advogado.

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