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EDUCAÇÃO

Alunos de medicina da UnB pedem retomada das aulas práticas presenciais

Publicado em: 30/07/2021 09:06

 (Foto: Secom/UnB)
Foto: Secom/UnB
“Qual seria a opinião pública, porque somos formados para atender o público, em saber que uma turma de quase 60 pessoas do curso de medicina está no meio da graduação e examinou, no máximo, apenas cinco pacientes? Sendo que nas condições normais seriam entre 50 e 100?” O questionamento do estudante do 6º semestre de medicina João Pedro Jardim, 21 anos, é o mesmo de centenas de alunos do curso de medicina da Universidade de Brasília (UnB), que temem pela falta de atividades práticas na formação deles.

Os futuros médicos estão há um ano e meio sem as atividades práticas previstas no ciclo clínico do curso, que é a fase em que começam a ter mais contato com a rotina hospitalar e aprendem sobre o atendimento e identificação básica de um paciente doente. A vivência clínica foi suspensa pela Faculdade de Medicina da UnB no início da pandemia no Brasil, em março de 2020 e o retorno só foi flexibilizado no meio do ano passado, a partir da criação de um plano de retomada pelo Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (Cepe).

A regulamentação permite que os cursos da área da saúde poderiam ofertar disciplinas específicas em que a atividade prática era essencial, como o estágio obrigatório. Para isso, os departamentos precisam reformular as disciplinas em planos de retomada. Quase um ano depois, a maioria das matérias que se enquadram na exceção continuam sem práticas. Para os alunos, falta empenho dos professores em apresentar os planos, além de uma falha de comunicação de cada coordenação do curso com os docentes.

“A Faculdade de Medicina criou um grupo de trabalho (GT), com a coordenadora de graduação, professores, o Centro Acadêmico de Medicina (Camed) e o diretor da Faculdade para discutir o retorno. É ele quem avalia e aprova os planos de retomada, mas é necessário que cada professor apresente, voluntariamente, a proposta”, explica César Lima, coordenador geral do Camed.

“Uma vez que o GT aprova, o professor pode iniciar as práticas. O que percebemos é que muitos professores não estão a par do processo do grupo, não correm atrás ou simplesmente não sabem da existência do grupo de trabalho”, lamenta.

César conta que, recentemente, um professor soube do plano de retomada e criou um para a disciplina, mas o submeteu diretamente ao Hospital Universitário de Brasília (HUB) e não ao grupo de trabalho. “O resultado foi que o HUB aceitou, mas ao descobrir que não éramos do internato, voltou atrás, deixando a turma toda frustrada. O professor explicou que não sabia do GT e nem dos parâmetros para criação do plano”, conta.

A falha de comunicação na Faculdade, então, é apontada como o principal ponto de enfraquecimento da retomada. “Apesar de termos grande apoio do próprio diretor da Faculdade, o problema é o envolvimento de professores. A coordenação do curso conversou com os coordenadores de cada área e explicou sobre o trâmite e pediram para passar para os professores, mas se os coordenadores passaram, não sabemos”, diz.

César, que está a um semestre de ingressar na última parte do curso, o internato, pensa nas consequências da falta de práticas para os colegas. “Eu tive toda a base prática, sei como me portar com um paciente, mas os meus calouros e os calouros deles serão muito prejudicados. As turmas mais novas não tiveram sequer o início da prática clínica. Nunca tocaram em um paciente, nunca auscultaram um pulmão, por exemplo”, compartilha com preocupação.

João Pedro confirma a preocupação de César. “Por mais que pelo EAD a gente aprenda algumas coisas, de teoria, não temos a prática para fixar o conhecimento. Isso atrapalha nosso aprendizado como futuros médicos, sabe? A gente não tem noção ainda do quanto a gente perdeu”, lamenta.

“Nós, como alunos da UNB, temos um nível de excelência que é cobrado da gente, e que temos qualidade para atingir, mas o que vai nos custar? O quanto teremos que correr para chegar no mesmo lugar que alunos das turmas anteriores que tiveram as práticas em períodos normais?”, desabafa.

A demora por um alinhamento geral da Faculdade de Medicina é ainda mais inaceitável, para os alunos, depois da vacinação em massa dos estudantes do curso, feita entre junho e julho deste ano. Feita em parceria com o Camed e a direção da Faculdade, a imunização é um dos grandes fatores que os estudantes apontam para a retomada ainda neste semestre.

Alunos paralisarão atividades e ajudarão na comunicação com professores
Com a morosidade do processo e a falta de mobilização dos professores, os estudantes, liderados pelo Camed, decidiram se organizar para pressionar as coordenações do curso. Em assembleiam, realizada na última asegunda-feira (26/7), 95% de cerca de 200 alunos se disseram a favor da retomada presencial, além de apoiar o Camed em se colocar como agente ativo na comunicação sobre os planos de retomada.

Mais de 90% se disseram a favor de manifestações em protesto à demora e 51% foram favoráveis a paralisar as atividades como forma de protesto contra a falta de avanço na retomada das práticas. “Com a decisão, o Camed passará a enviar a cada professor um modelo de plano de retomada, explicar como funciona o GT e auxiliá-lo com qualquer dúvida”, explica César.

“Além disso, estamos organizando e daqui a duas semanas iremos parar as atividades dos estudantes do ciclo clínico e básico para manifestar nossa insatisfação nos arredores do HUB, claro, sem perturbar os pacientes. O foco é chamar a atenção e provocar uma reação nos coordenadores de cada área”, conta.

César frisa que o Camed não está contra a direção da Faculdade e os professores, mas que é necessário apontar as falhas para que os estudantes não sejam ainda mais prejudicados. “Desespero, frustração e ansiedade definem os estudantes, principalmente os de turmas mais recentes”, diz.

O Camed enviou nota aos coordenadores de cada área com as decisões dos alunos. Até o momento, César afirma que recebeu resposta do presidente da Faculdade, que disse que “continua contando com o Camed e os alunos de medicina para a construção da retomada”.

O Correio procurou a UnB para comentar o processo de retomada das atividades, mas até o fechamento da matéria não obteve respostas. Este espaço, no entanto, continua aberto para manifestação da Universidade.

O que dizem os alunos

Vitor Augusto da Silva Araújo, 23 anos, estudante do 5º semestre do curso de medicina, está há dois semestres sem atividades práticas
“A minha opinião é  de que há um comodismo muito grande de alguns professores. Alguns que comandam que as cadeiras principais, de clínicas médica e semiologia, são bastantes ativos na tentativa de levar alunos ao hospital e a faculdade, pensam em novas estratégias, como divisão de grupos No entanto, outros não se movem. Além disso, há uma resistência muito grande do GT e eu acredito que seja pessoal. Os professores apresentam o plano de retomada e não é aceito, mesmo seguindo todos os protocolos sanitários. Nós percebemos que há um descompasso muito grande entre o que a coordenação acha que está sendo o curso, como algo que está funcionando, e o que a gente sabe, que não é nada disso. Há professores que usam a mesma aula que criaram há um ano e meio atrás. Dão uma aula de 30 minutos e nos dispensam. Para eles, tá tudo tranquilo. Para a gente, a retomada das práticas é uma forma de, também, suprir essa falta que muitos professores estão comprometendo a gente”.

Alice Reis, 23 anos, aluna do 8º semestre da graduação de medicina
“Como diz Oliver Sacks, ‘ao examinar a doença, ganhamos sabedoria sobre anatomia, fisiologia e biologia; ao examinar a pessoa com a doença, ganhamos sabedoria sobre a vida’. Não importa quantas aulas nós tivermos sobre qualquer matéria de medicina, não importa o quanto nos esforçamos para prestar atenção em aulas EaD. A medicina não se faz em sala de aula, presencial ou não, nunca se fez. É um absurdo nossa graduação ser tão prejudicada quando a maioria, senão todas, as faculdades do DF já voltaram para o modelo presencial de práticas. A sensação que temos não é que a UnB está fazendo de tudo para termos uma volta segura, a sensação é que não haverá retomada”.

Danilo Rodrigues, 22 anos, aluno do 8º semestre de medicina
“A ideia da mobilização surge a partir do momento em que a gente tem todas as todas as faculdades e escolas médicas do DF retornando as atividades práticas, inclusive algumas voltando até mesmo nas atividades teóricas de forma presencial, e na UNB ainda permanecemos com atividade 100% remotas. Nós entendemos que nossas aulas práticas são essenciais para nossa formação e para o nosso futuro profissional, para o melhor atendimento possível para a população. Então, a partir do momento que a gente não tem essas atividades, o prejuízo imputado é gigantesco. Há um ano e meio assim, nós percebemos que isso vai trazer danos e prejuízos enormes pro nosso futuro dentro da nossa futura profissão. Nós entendemos a crise sanitária que vivemos e os riscos, mas também entendemos que a nossa educação também é algo importante, tanto para nós quanto para nossos futuros pacientes, inclusive porque se não estamos nas práticas, deixamos de prestar serviço à população”.

Entenda o curso de medicina
Apontado internacionalmente como um dos melhores do mundo pelo QS World University Ranking, o curso de medicina da Universidade de Brasília (UnB) é formado por três etapas de formação.

A primeira corresponde ao ciclo básico, de três semestres, em que alunos cursam disciplinas introdutórias teóricas e têm pequenos e limitados contatos com pacientes reais. A partir do quarto semestre, e até o oitavo, os estudantes cumprem matérias do ciclo clínico, parte na qual começam as atividades práticas regulares, começam a ter contato com o raciocínio clínico, composto pelo atendimento do paciente e a anamnese.

É neste período que ele aprende a base do atendimento e da relação médica, pilar principal da profissão. Por este motivo, os alunos ressaltam o tamanho do prejuízo na formação caso o calendário de retomada se estenda mais.

Por último, a partir do nono e durante dois anos, se realiza o internato, em que o estudante passa a trabalhar, como um médico, em UBSs e hospitais.
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