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LEVANTAMENTO

No início da pandemia, Brasil teve taxa de contágio maior do que as de Itália e França

Por: FolhaPress

Publicado em: 04/08/2020 08:10

 (Foto: Thomas Kienzle/AFP
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Foto: Thomas Kienzle/AFP
Um estudo publicado na última sexta-feira (31) na revista Nature Human Behaviour apontou que a taxa de contágio (R0) do Sars-CoV-2 no Brasil nos primeiros três meses da pandemia foi de 3, ou seja, cada pessoa infectada contaminava outras três.

Essa taxa, segundo os autores, foi ligeiramente maior do que a encontrada em outros países severamente afetados pela pandemia, como Espanha (2,6), França (2,5), Reino Unido (2,6) e Itália (2,5).

Nos países europeus, as medidas de contenção e isolamento foram bem-sucedidas em achatar a taxa de incidência e diminuir o R0 para abaixo de 1, enquanto no Brasil a curva de incidência de casos diários continuou a subir.

Além disso, o avanço da pandemia foi dos grandes centros em direção às cidades menores, com os quatro principais epicentros, representando 49,2% dos casos e 61,5% do total de óbitos, sendo São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Amazonas.

Os dados são resultado do primeiro grande estudo epidemiológico de Covid-19, realizado por cientistas do Centro de Genômica e Epidemiologia de Arbovírus (Cadde, na sigla inglês), parceria da Universidade de São Paulo com a Universidade de Oxford, entre outras instituições, e recebeu apoio da Fapesp (Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo) e de agências internacionais.

Os pesquisadores analisaram dados de 514.200 casos confirmados de Covid-19 retirados do Portal Covid-19 do Ministério da Saúde desde o primeiro caso reportado, em 26 de fevereiro, até 31 de maio, divididos em 4.196 municípios, correspondendo a 75,3% do total de municípios no país.

Virologista e principal autor do estudo, William Marciel de Souza realiza sua pesquisa decpós-doutorado em conjunto na Universidade de Oxford e na USP. Ele explica que a alta incidência de casos de síndrome respiratória aguda grave (SRAG) no país neste ano em comparação com anos interiores é a principal ferramenta para avaliar a evolução e disseminação da pandemia no país.

Segundo ele, os casos de SRAG sem agente etiológico definido reportados no Sivep-Gripe aumentaram 8,5 vezes em 2020. "Esse aumento foi desproporcional comparado aos outros anos, o que possivelmente indica que ocorre diagnóstico dos casos abaixo do esperado -e não subnotificação- devido à falta de insumos laboratoriais".

Para o pesquisador, a vigilância no sistema do ministério é bem ativa e é pouco provável que o vírus estivesse circulando de maneira silenciosa no país antes do primeiro caso notificado.

O país falhou em entregar os 46 milhões de testes prometidos. Sem os testes RT-PCR, considerados padrão-ouro para detecção do vírus, o diagnóstico laboratorial de Covid-19 não pode ser completado, embora outros métodos diagnósticos, como a avaliação clínica do paciente, podem servir para inserir um novo caso de SRAG tanto no e-SUS VE (casos leves) quanto no Sivep-Gripe (internações e óbitos).

Avaliando os casos de Covid-19 resultantes em internações ou óbitos (67.180 casos reportados no Sivep-Gripe), os cientistas encontraram que a média de idade dos pacientes internados foi de 59 anos, e os homens representaram mais de 57% do total de casos e 59% dos óbitos.

Em relação aos óbitos, idade igual ou superior a 50 anos representou 85% dos casos.

As comorbidades mais frequentes nos pacientes hospitalizados com Covid-19 foram doenças cardiovasculares (66,5%) e diabetes (54,5%). Cerca de 84% dos casos reportados no Sivep-Gripe apresentavam pelo menos uma comorbidade.

"É importante ressaltar que mais de 90% dos casos reportados no Sivep-Gripe referem-se a casos graves ou que foram hospitalizados. O Sars-CoV-2 pode causar sintomas parecidos ao de um resfriado, mas em uma parcela [da população] causa uma doença mais grave, a Covid-19, então esses dados são de uma fração da população que evoluiu para casos mais graves da doença", explica de Souza.

Além disso, havia a suspeita de correlação entre renda per capita elevada e maior incidência de casos confirmados de Covid-19 por diagnóstico RT-PCR, associados ao acesso de uma minoria da população a laboratórios particulares, em comparação com a dificuldade e escassez do serviço de saúde em áreas cuja renda per capita é menor.

Para testar essa hipótese, os autores avaliaram informações de renda per capita na região metropolitana de São Paulo e casos de SRAG em relação aos casos confirmados de Covid-19, com base no endereço domiciliar de cada caso reportado.

O teste estatístico demonstrou uma associação entre o diagnóstico de Sars-CoV-2 e renda per capita, sugerindo um fator socioeconômico importante na confirmação de casos de Covid-19 relativo ao acesso a serviços diagnósticos.

A região central da cidade de São Paulo concentrou maior incidência de diagnósticos confirmados de Covid-19 nas primeiras semanas epidemiológicas ao mesmo tempo que apresentou renda per capita acima de R.150 mensais, enquanto houve uma maior densidade de casos de SRAG sem etiologia definida nas regiões do extremo sul, sudoeste e nordeste da região metropolitana, que em geral concentraram renda per capita inferior a R por mês.

Essa discrepância diminuiu conforme as semanas epidemiológicas avançaram. "Isso foi um reflexo do maior acesso à população aos testes diagnósticos na região metropolitana de São Paulo, não indicando, portanto, um salto na incidência da Covid-19 nessas áreas", afirma de Souza.

As principais dificuldades encontradas na pesquisa, no entanto, foram a falta de centralização e padronização dos dados divulgados pelo Ministério da Saúde.

Primeiro por uma própria inconsistência da base de dados utilizada: cerca de um mês antes do primeiro caso reportado de Covid-19 no país, o ministério havia criado um portal para notificar todos os casos -leves, moderados e graves- da doença chamado de REDCap. Esse portal foi utilizado até o dia 27 de março, quando foi encerrado.

A partir desta data, o governo passou a utilizar dois sistemas distintos: o e-SUS VE, para notificação de todos os casos leves de maneira agregada -isto é, sem informações detalhadas dos infectados-, e o Sivep-Gr

Como conclusão, o estudo afirma ser o primeiro a avaliar e contextualizar de maneira sistemática a pandemia no país, sendo ainda preciso aumentar a capacidade de diagnóstico para acompanhar a transmissão do Sars-CoV-2.

Até o momento, afirmam os autores, a mitigação, e não supressão da pandemia foi alcançada, e isso levou a um número elevado de mortes que poderia ter sido evitado se os sistemas de saúde estivessem melhor preparados.
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