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HISTÓRIA

A ditadura no cinema brasileiro

Viver recapitula a relação da produção cinematográfica brasileira com o Regime Militar e conversa com especialistas no período que lembram da importância de recordar a data do Golpe de 1964

Publicado em: 29/03/2024 16:44

"Terra em transe", de Glauber Rocha (Reprodução)
"Terra em transe", de Glauber Rocha (Reprodução)
Em sua riqueza estética e temática, a cinematografia brasileira registrou e recordou em diferentes formatos o impacto causado pelo Golpe de 1964.

Fase de repressão e censura, o regime militar seguiu até 1985, mas os filmes, dentro de todas as condições adversas, fincaram seu espaço na história, visto que a época foi também o auge do nosso mais célebre movimento cinematográfico: o cinema novo, cujo expoente foi o baiano Glauber Rocha. O seu clássico Terra em transe, de 1967, que, através de parábolas e personagens de diferentes setores da sociedade, mostra o contexto político do Brasil denunciando o seu autoritarismo.

Posteriores ao período, mas igualmente marcantes, Que bom te ver viva, O dia que durou 21 anos, Lamarca, O que é isso, companheiro?, Zuzu Angel, Batismo de sangue e Marighella representam bem a diversidade da produção sobre a ditadura. De acordo com o livro A ditadura na tela, de Carolina Dellamore, Gabriel Amato e Natália Batista, desde o final dos anos 1970 começo de 1980, intensificou-se a produção de documentários sobre o tema a partir de um caráter memorialístico, enquanto os anos 2000 foram essenciais para essas produções cinematográficas que lidaram com o legado histórico do regime.
 
Um dos projetos mais atuais que buscam o resgate histórico do período é Terra revolta: João Pinheiro Neto e a reforma agrária,  dirigido por Bárbara Goulart e Caio Bortolotti, que entra em cartaz ainda neste semestre e mostra a relação entre o advogado e jornalista João Pinheiro Neto e os movimentos de renovação do trabalho e ocupação do campo rural durante às vésperas do
golpe.

A diretora, neta de João Goulart, atesta a importância do audiovisual como ferramenta de impacto coletivo. “O cinema é um meio para a construção da memória coletiva do país, capaz de impactar o público tanto na esfera da razão como nas emoções. Através das imagens é possível ter um registro histórico do que pessoas realmente viveram, servindo como ferramenta de
resistência. É diferente ler o depoimento da vítima e ouvi-la e vê-la falar”, declara Bárbara.

“Temos que relembrar o golpe hoje porque o Brasil tem uma tradição autoritária e a nossa democracia é muito jovem. O que aconteceu em janeiro de 2023 lembra que ela está sempre em risco e é preciso nos mantermos vigilantes para que seja preservada”, completa.

A CENSURA
O sistema da ditadura sabidamente controlava as produções em
todas as suas fases, como explica ao Viver a Profª Dra. Meize Regina Lucena, da pós-graduação em História da UFC.

“A censura em si é bem anterior a 1964; ela nasce ligada ao controle das diversões públicas, mas depois ganhou um adensamento com a participação de pedagogos, da Igreja Católica e do judiciário. Durante a ditadura, todos os filmes tinham que passar pelo controle do Estado, então o parecer de censura é um documento dentro de um processo mais amplo que envolve todo o controle do filme, a produção da obra, dado, origem, tempo, atores, enredo. Mas o principal era com relação à circulação, para onde aquele filme estava sendo exibido.

Cada obra feita no país recebia um certificado de cinco anos para poder passar no cinema e os parâmetros para as salas e para a exibição posterior na televisão eram diferentes também. Temos registrados no Arquivo Nacional em Brasília mais de 36 mil processos relativos aos mais diversos tipos de filme”, explica.

“Perto do final dos anos 1960, houve um aprimoramento dos censores; geralmente pessoas com formação nas ciências humanas, que eram treinadas em cursos para perceber mensagens subliminares nas obras e serão sempre pessoas ligadas ao poder e à repressão”.

PERNAMBUCO E O CICLO DO SUPER 8

Durante os anos 1970, apesar da censura, o cinema pernambucano passou pelo chamado ‘Ciclo do Super 8’, quando cineastas, críticos e entusiastas aproveitaram o formato mais barato e artesanal das câmeras de Super 8 e fizeram vários filmes de linguagem vanguardista e registros importantes da época.

Fernando Spencer, Celso Marconi, Amin Steple, Geraldo Pinho, Jomard Muniz de Brito, Geneton Moraes Neto, Osman Godoy e Kátia Mesel estiveram entre os nomes importantes do período, estudado em profundidade pelo professor e crítico de cinema Alexandre Figueirôa em seu livro O cinema Super 8 em Pernambuco: Do lazer doméstico à resistência cultural.

“São filmes que viveram um período de efervescência muito forte, sobretudo com a censura, mas ao mesmo tempo corriam meio por fora por ser um suporte mais caseiro. Os filmes falavam de questões políticas e sociais, mesmo com metáforas e figuração. Se você pega os filmes de Jomard, por exemplo, você vai ver a homoafetividade já discutida abertamente, a nudez, a liberdade de expressão. Era uma experiência interessantíssima em termos de linguagem”, afirma Figueirôa.

PROGRAMAÇÃO TEMÁTICA
Domingo (31), o Cinema da Fundação Joaquim Nabuco (na sala do Museu) conta com a exibição do documentário Jango no exílio, de Pedro Isaías Lucas, que retrata os 12 anos em que ex-presidente
João Goulart ficou exilado em território uruguaio e argentino. Após a sessão, haverá debate com a presença de Túlio Velho Barreto, diretor de Memória, Educação, Cultura e Arte da Fundaj, com mediação do coordenador do cinema, Luiz Joaquim.

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