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LITERATURA

Livro de pernambucana analisa discursos de ódio na internet

Publicado em: 08/06/2021 10:33 | Atualizado em: 08/06/2021 19:58

Mércia Flannery e capa do livro Nós Versus Eles (Foto: Cepe/Divulgação)
Mércia Flannery e capa do livro Nós Versus Eles (Foto: Cepe/Divulgação)

"Um breve pousar de olhos sobre as páginas de jornais brasileiros revela a permanência e persistência do preconceito, manifestado de variadas formas. Isso precisa ser entendido e discutido, sobretudo numa época em que a comunicação digital tem proporcionado impressões de liberdades falsas, no que se refere à falta de respeito com as liberdades alheias". A reflexão é da pernambucana Mércia Flannery, doutora em linguística, que lança nesta terça-feira (8), pela Cepe Editora, o livro Nós versus eles - Discurso discriminatório, preconceito e linguagem agressiva na comunicação digital no Brasil. Às 19h, uma live reunirá a autora com Antonio José, Kleber Silva e Débora Nascimento no canal da Cepe no YouTube.

O livro traz um debate atual e urgente em um mundo que ainda aprende a lidar com os impactos das mídias sociais no cotidiano. Há cerca de 10 anos, a sociedade olhava com fascínio para as múltiplas possibilidades da internet. Hoje, já é unânime o conhecimento das problemáticas causadas pelo uso das redes sociais, sendo o discurso de ódio um dos mais latentes.

Diretora do programa de língua portuguesa na Universidade de Pensilvânia, Mércia Flannery começou a trabalhar com narrativas de discriminação racial durante o doutorado na Georgetown University, em Washigton. Realizada no início dos anos 2000, essa pesquisa coletou relatos de conversações informais com pessoas no Grande Recife e fez a pesquisadora desenvolver uma certa sensibilidade em relação a discursos discriminatórios. As novas formas de expressar pensamentos, sentimentos e opiniões nas mídias sociais a levaram para o estudo que resultou no atual livro.

Em 13 capítulos, Nós versus eles traz enxertos de comentários de internautas (sob anonimato) para esmiuçar seus discursos e, dessa forma, mostrar ao leitor como a linguagem agressiva age no ambiente virtual. Existem capítulos sobre discursos contra cotistas em universidades públicas, comentários acerca do fenômeno dos rolezinhos nas grandes capitais brasileiras, racismo contra personalidades da TV, xenofobia contra estrangeiros e nordestinos, preconceitos no futebol, homofobia, gordofobia, preconceito contra povos indígenas, intolerância no discurso político e mais.

"Se eu tivesse de apontar um fio condutor entre todas essas expressões de preconceito analisadas nos capítulos, acredito que seja a questão da distância", diz Mércia Regina, ao Viver. "Quando se discrimina alguém, existe um elemento de distanciamento. O discriminador sempre se distancia do outro. O ambiente digital surge nessa distância. Essa remoção do contato imediato entre as pessoas torna isso muito propício. É um ambiente de despersonalização do outro."

Em sua análise sociolinguística, ela constata que "a sociedade brasileira não é, infelizmente - e ao contrário do que ainda se pode pensar -, um modelo de harmonia e inclusividade. Muito pelo contrário. Eu sei que muitas pessoas que visitam o Brasil e que conhecem brasileiros têm a ideia de se tratar de uma sociedade muito tolerante, sobretudo se comparada a outras, nas quais o preconceito e a discriminação talvez sejam imediatamente mais sentidos."

Ao Viver, Mércia também reflete sobre como figuras de autoridade conseguem manipular essas características da comunicação digital para se firmarem identidades políticas. "Tanto no Brasil quanto em vários lugares do mundo, esse potencial tem sido usado para polarizar as pessoas por benefícios políticos. Isso tem beneficiado muitas pessoas", diz. Diante da amplitude do tema, ela também admite que não chegou a abordar a fundo alguns assuntos, como a linguagem agressiva contra a mídia.

"A mídia está atravessando esse período de descrédito pois, quando não se gosta de alguma notícia, se coloca a culpa na mídia. As mídias sociais são interessantes porque democratizaram a comunicação, isso aferiu a algumas pessoas um sentido de empoderamento e autoridade. Eu acho que essa característica tem muito a ver com isso, um sentimento de independência e liberdade. As pessoas podem dizer o que querem dizer."

A pesquisadora ressalta, no entanto, que hoje a maioria das pessoas concordam que a internet tem sido um espaço muito "tóxico". "Isso deve identificar que o espaço funciona muito longe do ideal que nós temos. A comunicação não deveria ser tão tóxica e a maioria das pessoas concordam com isso. Acredito que isso seja um sinal positivo", continua. "Também temos de entender que ainda é tudo muito experimental, é um fenômeno ainda muito novo. Pode ser que cheguemos a um equilíbrio. Talvez quem sabe no futuro, quando todos nós aprendermos a lidar, a mídia social não possa ser um veículo mais positivo do que negativo", encerra.

SERVIÇO
Lançamento do livro Nós versus eles - discurso discriminatório, preconceito e linguagem agressiva na comunicação digital no Brasil (Cepe Editora), de Mércia Flannery
Preço do livro: R$ 30 (impresso); R$ 12 (e-book).
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