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MÚSICA

Com piseiro, forró, funk e brega-funk estão cada vez mais próximos

Streaming e redes sociais potencializam a transformação dos ritmos e expandem as mudanças nas quais o forró atravessa com o maior viral do país na atualidade, a pisadinha

Publicado em: 05/06/2021 10:34 | Atualizado em: 05/06/2021 13:19

Xand, DJ Ivis e JS O Mão de Ouro no clipe de Vai Sentar no Pai (Foto: Mario Andrade/Maflicks)
Xand, DJ Ivis e JS O Mão de Ouro no clipe de Vai Sentar no Pai (Foto: Mario Andrade/Maflicks)

Imagine um paredão de som tocando forró estilizado, brega-funk e outros batidões solares da região em alguma cidade entre o interior e o litoral do Nordeste. Chegará um momento em que as canções da festa vão misturar todas essas sonoridades, tornando cada vez mais desafiador apontar qual o gênero musical. O que ocorre no paredão é um sintoma, pois é no digital que esse caldeirão está em ebulição. As dinâmicas do streaming e das redes sociais têm potencializado uma constante transformação dos ritmos e salta aos ouvidos as mudanças que o forró vem passando com a tendência da pisadinha, ou piseiro.

Essa vertente do forró surgiu em meados dos anos 2000, sendo marcada pela maior presença de teclados - que baratearam os custos de produção para shows - e pelo sucesso nos paredões. Em 2020, a pisadinha virou fenômeno no streaming e tornou o forró, ritmo sempre em alta no Nordeste, uma tendência na música pop nacional. Mas, para alcançar essa posição, o ritmo negociou bastante com um outro gênero representativo dos nossos tempos: o funk. Isso ocorreu na exploração de batidas eletrônicas, temáticas e inserção de refrões cantados por MCs. É o mesmo que ocorre com o brega-funk, natural de Pernambuco.

Embora alguns nomes tenham levantado a bandeira no início da tendência, como Barões da Pisadinha, Biu do Piseiro e Zé Vaqueiro, essas particularidades da pisadinha hoje estão diluídas nos trabalhos de vários artistas. Xand Avião, que tem um legado o forró eletrônico por conta da Aviões do Forró, é um exemplo. Há três meses, ele lançou a faixa Não pode se apaixonar, forró que tem refrão de funk cantando por MC Danny (prática que no brega-funk é chamada de 'acapela') e produção musical de DJ Ivis. No clipe, um cenário urbano futurístico agrega paredões, cores neons e coreografias ligadas ao funk.


Lançada há um mês, Vai sentar no pai, de DJ Ivis, expôs ainda mais essa simbiose ao trazer Xand Avião e o pernambucano JS O Mão de Ouro, responsável pelas atuais batidas metálicas do brega-funk e produtor de hits como Tudo Ok, faixa mais ouvida do carnaval de 2020. A presença de JS reforçou ainda mais as similaridades existentes entre a pisadinha e o brega-funk. O clipe conta com carros e motos de luxo, itens que o funk incorporou da cultura hip-hop americana.


"Acho demais essa mistura. Sempre fui apaixonado por música, e cada vez mais a versatilidade está presente na minha carreira. Essa mistura de brasilidades é algo extremamente necessário e enriquecedor. Tenho aprendido cada dia mais as junções, temos muitos talentos no Brasil e fazer parte de tudo isto é um grande privilégio”, diz Xand Avião. "Acredito que não só nas periferias, mas em tantos outros universos, o piseiro hoje tomou conta do Brasil inteiro e há um bom tempo figura entre as músicas mais ouvidas do país."

O jornalista e pesquisador de música GG Albuquerque diz que os elementos do funk estão presentes em músicas periféricas de todo o Brasil. "O funk está nas temáticas, nas gírias, na performance e no visual. O funk do Sudeste tem uma preponderância econômica que o faz ter hegemonia na circulação da música digital. Isso não quer dizer que as periferias do Brasil estão reproduzindo o funk do Rio ou de São Paulo, o que ocorre são adaptações dessas poéticas em contextos locais", diz.

"É possível até perceber que existem artistas do funk interessados na pisadinha para fazer vínculos comerciais e artísticos. Eles fazem isso pela expansão do público e atualização do repertório musical", complementa GG. O sucesso Volta Bebê, Volta Neném (127 milhões no YouTube), de Dj Guuga com DJ Ivis é um exemplo dessa aproximação que parte de um artista do funk. Nela, Guuga assume vocais tradicionais do funkeiro romântico, enquanto Ivis entra com o papel do cancioneiro do forró estilizado.


Essa presença do funk nas estéticas de outros ritmos pelo Brasil citada por Albuquerque vai reforçar uma ideia de "rede de música pop periférica", proposta por Simone Pereira de Sá, professora da Universidade Federal Fluminense. "Esse conceito se refere a uma articulação de gêneros musicais brasileiros que ocorre através da internet, sobretudo pelo audiovisual. Até o ano 2000, mais ou menos, o funk também era muito localizado no Rio", explica a pesquisadora. "Eu costumo dizer que essas trocas estéticas ocorrem de forma transversal, pois um gênero começa a influenciar o outro usando ferramentas das redes, inicialmente de maneira precária, até formar essa rede de música."

DANÇAS VIRAIS
Outro fator importante nessa grande mistura de ritmos são as danças virais. O funk foi pioneiro nessa linguagem com o passinho, popularizado no Rio de Janeiro no final dos anos 2000. Ao longo dos anos, novos passinhos surgiram no funk ostentação de São Paulo e no brega-funk de Pernambuco. A pisadinha também possui seus passinhos virais. São coreografias que resgatam performatividades e comportamentos mais interioranos, com inspiração em vaqueiros e salões de seresta.


Não pode se apaixonar, de Xand, contou com um viral de uma jovem natural de Tucuruí, cidade do interior do Pará, que dançava a música com diferentes roupas, mas sempre com a mesma coreografia. "A dança é fundamental nesse processo pois ela permite esse engajamento", complementa Simone. "Ela convida os usuários ao engajamento, à imitação. Isso influencia nas trocas estéticas. Quando falamos de música pop periférica, estamos falando também de ritmos que se apropriam de passos e elementos que engajam os usuários nas redes sociais".

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