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CONTEMPORÂNEA

Série de arte visual de Carlos Mélo reflete sobre indústria têxtil do Agreste de Pernambuco

Publicado em: 27/04/2021 09:37

 (Foto: Geyson Magno/Divulgação)
Foto: Geyson Magno/Divulgação


As dinâmicas econômicas do capitalismo podem mudar radicalmente a vida de uma comunidade. Neste ano, o anúncio da saída da Ford do Brasil causou crise existencial em cidades do interior que davam força de trabalho à multinacional. Em Pernambuco, é a indústria têxtil responsável por um fenômeno particular e intrigante no Agreste. O Polo de Confecções alterou completamente a dinâmica de municípios, antes voltados para a agropecuária. Recentemente alvo do premiado documentário Estou me guardando para quando o carnaval chegar, de Marcelo Gomes, essa discussão da terceirização dos trabalhadores para a indústria da moda agora é tema na série de arte visual Overlock, do pernambucano Carlos Mélo, natural de Riacho das Almas.

As obras estão ocupando a Vila do Vitorino, na zona rural do município agrestino, e podem ser visitadas no site da Galeria Kogan Amaro (galeriakoganamaro.com), que representa o artista em São Paulo e Zurique, na Suíça. O tecido, principal matéria-prima dessa cadeia produtiva local, foi apropriado pelo artista como um elemento para criação de obras da arte contemporânea, a exemplo de esculturas têxteis e performáticas que dialogam com o histórico de produções do artista - Mélo trabalha com experimentação de materiais, cultura e performance.

"As peças são obras autônomas, mas também criam uma instalação. A ideia da exposição virtual foi montar as esculturas inseridas na paisagem ampliando o campo relacional entre a arte e o lugar, a natureza e a tecnologia, além do artista como agente cultural capaz de não apenas produzir obras de arte, mas também produzir sentido", diz o artista, que recebeu o fomento da Lei Aldir Blanc em Pernambuco para a realização da mostra.

O tecido usado em Overlock é uma espécie de "jeans encorpado", confeccionado pelo Daterra Project, coordenado pela artesã Adjane Souza, que desenvolve um trabalho sustentável e social na Vila do Vitorino. Ela reaproveita ourelas (beiras) de jeans que seriam descartadas pela indústria da moda, resultando em um novo tecido.

 (Foto: Geyson Magno/Divulgação)
Foto: Geyson Magno/Divulgação


Mélo ainda adicionou aos tecidos bordados e aplicações de spikes, paetês e outros elementos do universo fashion em parceria com o Avoante Ateliê, da  artesã Merielle Lino, em Caruaru. Esses produtos foram dispostos sobre estruturas de ferro fixadas em árvores, paredes ou no chão, chegando a medir até 1,80m de altura e pesar 30 kg. Elas formam peças que remetem às já conhecidas esculturas do artista, que costuma instigar situações de interação com o meio ambiente e resgatar aspectos da formação cultural brasileira.

Articulando arte, moda e mercado, o conjunto ganha um tom político ao questionar esse modelo de trabalho consolidado em municípios onde cidadãos chegam a fazer jornadas de 14h, se dividindo entre corte, confecção e tingimento em suas próprias casas. Toritama, por exemplo, produz 18% do montante de jeans usado no país. Overlock vai deslocar um imaginário estereotipado do Nordeste, ainda presente na mídia nacional.

Mélo vai mostrar uma região industrial e tecnológica, ainda assim em contraste com cenários semiáridos ligados ao subdesenvolvimento. Essas paisagens também refletem que o desenvolvimentismo proporcionados pela indústria da moda não cessou tantas outras dificuldades históricas, ligadas a condições naturais. "Venho trabalhando com comunidades de artesãos, quilombolas, e recentemente iniciando uma parceria com os polos tecnológicos, com a intenção de flexionar as fronteiras entre a Tradição e a Arte Contemporânea", diz o artista, que organizou a 1ª Bienal do Barro do Brasil, em Caruaru (2014).

"Como a Bienal do Barro, por exemplo, quis discutir arte e comunidade como novos campos de inserção e pertencimento, pensando na descentralização do circuito artístico, para formação e produção, do centro para o interior. E também com a proposta de estabelecer diálogo entre a arte atual e novas técnicas de produção sustentável de artesanato e de arte no Brasil." Ele também participou de exposições coletivas, como a 3ª Bienal da Bahia (Salvador, 2014); no Krannert Art Museum (Champaign, EUA, 2013) e no Mamam (Recife, 2010 e 1999).
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