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ARTE

Festival Janeiro Sem Censura explora discursos de resistência

Publicado em: 05/02/2021 11:10 | Atualizado em: 05/02/2021 15:12

o monólogo A receita, com Naná Sodré, do Grupo O Poste Soluções Luminosas, será exibido nesta sexta (5) (Foto: Jorge Farias/Divulgação)
o monólogo A receita, com Naná Sodré, do Grupo O Poste Soluções Luminosas, será exibido nesta sexta (5) (Foto: Jorge Farias/Divulgação)


A resistência contra a opressão, o silenciamento das minorias e a anulação de corpos e vivências de pessoas trans deu vida ao festival Janeiro Sem Censura (JSC), do Coletivo de Dança-Teatro Agridoce, que realiza a terceira edição de hoje a domingo, de forma gratuita e on-line. Esta é a segunda semana de programação do evento, que iniciou em 29 de janeiro, o Dia da Visibilidade Trans/Travesti, com mostras de trabalhos em teatro e audiovisual. O JSC surgiu em 2019 em um movimento contra a censura sofrida pelo espetáculo O evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu, da atriz Renata Carvalho. O festival tem transmissão no YouTube do Agridoce, sempre às 19h, seguido por debates entre os realizadores e atores.

Em destaque, o monólogo A receita, com Naná Sodré, do Grupo O Poste Soluções Luminosas, ganha os palcos virtuais hoje, apresentando uma obra tragicômica que descreve o universo de uma mulher em processo de libertação. O afeto é abordado no videoclipe Entre lençóis, que integra a mostra audiovisual, ao lado de curtas-metragens como Inabitável, de Matheus Farias e Enock Carvalho, exibido no recente Festival de Sundance, e da pré-estreia do videoclipe Lamento de força travesti, de Renna Costa e Gabi Benedita. A curadoria é assinada por Aurora Jamelo e Flávio Moraes, do Agridoce.

Destinado a todas as mulheres do mundo, como grita a atriz Naná Sodré com o corpo e a voz em cena, A receita revela situações vividas no ambiente domiciliar e social de várias mulheres, como morte, violência e intolerância. A dramaturgia fala da violência contra a mulher negra de uma forma inteligente, poética e cheia de metáforas, antenada com as questões de uma personagem no seu processo limite. "A mulher negra passa por uma relação de discriminação interseccional, existem muitas questões que atravessam ela, são discriminações de raça, gênero e classe. Na peça, as questões como violência doméstica, humilhação e invisibilidade, escondidas até como um tabu, são apresentadas em primeiro plano", diz Naná.

O monólogo encena uma mulher em uma espécie de tribunal, quando decide contar a todos sobre as violências a que ela foi submetida por anos, usando metáforas relativas aos utensílios domésticos que a feriram. "Tem um trecho que ela diz 'facas, sabia amolá-las, manejá-las e limpá-las. Utiliza facas nas costelas, amassa os bifes e fere', fazendo alusão ao seu corpo, carne que é agredida todos os dias pelo marido", revela a atriz. Para Naná, há uma relação de proximidade com o tema apresentado.

"Sou uma mulher negra e, dentro das estatísticas em relação à violência contra mulher, essas são as mulheres que mais sofrem. O tema é também alvo de estudo em cena, trabalho de ancestralidade, universo das mulheres e com ações afirmativas destinadas a esse público", afirma. O monólogo é fruto de um dos nove contos da série Desatinos, escrita por Samuel Santos em 2010. O espetáculo já foi apresentado em vários festivais locais e nacionais, em comunidades quilombolas e numa mostra na Dinamarca.

DOCE E LEVE
O afeto é o fio condutor do videoclipe performático Entre lençóis, que abre as portas da casa da diretora e rapper, a mulher trans paulistana Anubys Messias. "O clipe retrata o meu cotidiano e da minha família em todas as formas de afeto. Busquei apresentar a vida de uma mulher trans de periferia de forma doce e leve com um outro olhar, com leveza. Minha mãe vai estar em cena, meu pai deu todo apoio e participou do videoclipe. Serão três cenas demonstrando a beleza da minha família, cultura e ancestralidade", explica.

 (Foto: Frame/Divulgação)
Foto: Frame/Divulgação


No país que mais mata transexuais no mundo, falar de amor e aceitação é resistir. Em 2020, foram 175 travestis e mulheres transexuais assassinadas, de acordo com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), uma alta de 41% em relação ao ano anterior. As mulheres trans negras, periféricas e as que prostituem são as que enfrentaram um maior acirramento da vulnerabilidade ao longo do ano. A fé também surge de forma vívida na produção.

“O curta resgata também a religião de matriz africana como referência estética. Tem meu jardim, meu quintal, Nossa Senhora da Aparecida, escalda pés e velas como elementos afetivos e espirituais. A fé vem sendo a forma mais leve e esperançosa durante esse tempo difícil, e é o símbolo das cenas no projeto”, comenta.

Progamação

- Mostra Teatral

Sexta-feira (5)

A receita (Naná Sodré, do grupo O Poste Soluções Luminosas)

Sábado (6)
Sopro d’água (Gabriela Holanda)

- Mostra Audiovisual

Domingo (7)
Concreta (Coletiva)
Entre lençóis (Anuby Messias)
Colômbia (Manuela Andrade)
Ar (Marcelo Oliveira e William Oliveira)
Inabitável (Matheus Farias e Enock Carvalho)
Lamento de força travesti (Renna Costa e Gabi Benedita)
Preciso dizer que te amo (Ariel Nobre)
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