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Em ascensão no Brasil, R&B ganha adeptos e experimentações no Recife

Publicado em: 18/06/2020 15:38 | Atualizado em: 19/06/2020 12:20

Ororo, Iara e Maicão são exemplos de jovens que passaram a apostar no R&B (Fotos: HoodCave, Jezz Maia e Selo Musical R$/Divulgação)
Ororo, Iara e Maicão são exemplos de jovens que passaram a apostar no R&B (Fotos: HoodCave, Jezz Maia e Selo Musical R$/Divulgação)

O R&B, gênero que surgiu nos Estados Unidos no final dos anos 1940 como uma expressão para agregar ritmos oriundos do soul e do jazz, é apreciado no Brasil há décadas, porém como algo relativamente distante. Nos anos 2000, quando o R&B contemporâneo (com influências mais eletrônicas e da cultura hip hop) dominava a principal parada da Billboard, o ritmo aportava no Recife como um universo relacionado aos subúrbios norte-americanos - o exemplo que ilustra isso é Dilemma, parceria de Nelly com Kelly Rowland. Era um tipo de música muito consumida através dos clipes da extinta MTV Brasil ou dos DVDs de black music vendidos aos montes em camelôs. Com a popularização das plataformas digitais de conteúdo, a produção musical foi mais democratizada e o gênero passa por mudanças no mundo inteiro.


Uma nova geração internacional formada por artistas como The Weeknd, Daniel Caesar, SZA e Jorja Smith ascendeu. Ao mesmo tempo, surgiram nomes vistos como representantes de um R&B brasileiro - antes da internet, uma das principais representantes já era Negra Li. A paulista Alt Niss, que começou como backing vocal e transitou pelo rap, conseguiu um contrato com a produtora Boogie Naipe, do rapper Mano Brown. O carioca Luccas Carlos tem alcançado grandes números nas plataformas. Esse êxito na cultura digital naturalmente gerou novos artistas interessados pelo gênero em Pernambuco.

Um primeiro momento do que viria a ser uma cena R&B do estado talvez se dê com Enquanto a noite cai, de Luiz Lins com Diomedes Chinaski e Gustto. O cantor, que é natural de Nazaré da Mata, ficou conhecido nacionalmente pelo R&B, embora atualmente dispense rótulos. "Eu sou tido como artista de R&B porque meus raps são mais lentos, com beats abertos. Eu passei um tempo gostando muito dessa sonoridade aberta e lenta. Mesmo que uma música traga uma temática pesada, vai soar com essa pegada. Ela soa mais dinâmica, dançante", explica Luiz. A PESquad, sua produtora, também conta com Bella Kakun, de Garanhuns, que costuma flertar bastante com o gênero.

IARA - Made in Ibura
Iara, 21 anos, é natural do Ibura, periferia da Zona Sul do Recife (Foto: Elizabetando/Divulgação)
Iara, 21 anos, é natural do Ibura, periferia da Zona Sul do Recife (Foto: Elizabetando/Divulgação)

Iara, 21 anos, é natural do Ibura, periferia da Zona Sul do Recife. A jovem tem apostado na carreira de cantora de R&B desde o ano passado, quando ingressou na Seabra Produções, a mesma produtora do rapper Diomedes Chinaski e de MC Leozinho, precursor do funk recifense. Ela lançou o primeiro single, Tarde, em dezembro passado, com um clipe dirigido pelo pernambucano Tato Rocha. O segundo lançamento, Teu ego, foi no último Dia dos Namorados. Entre suas inspirações estão a norte-americana SZA, a britânica Jorja Smith, o canadense Daniel Caesar e a colombiana Kali Uchis.


Iara Silva Fernandes se mudou para São Paulo, onde morou por um ano e começou a gravar um álbum, mas encerrou as atividades e voltou ao Recife por conta da pandemia. "Estávamos na metade do projeto. Como trabalhamos com muitos arranjos e banda, não dava para continuar. Agora estou trabalhando em um EP, em uma linha possível de criar em casa. Não paramos de jeito nenhum”, diz Iara. “Desde pequena, eu sempre escrevi muito, como brincadeira. Cheguei a cursar até o quarto período de pedagogia, mas surgiu o convite para entrar na Seabra Produções, então decidi largar para investir na minha carreira musical. A produtora, Tássia, já era minha amiga do Ibura. Nos conhecemos participando de movimentos sociais", explica.

"O R&B sempre mexeu mais comigo por causa das referências. Eu tinha um DVD pirata que começava com Akon, depois partia para Mariah Carey e Kelly Rowland. Eu curtia essa musicalidade, os timbres, as vozes, algo que eu não encontrava no pop da época, que era mais próximo de Britney Spears. Com o tempo, foi só uma questão de abraçar esse ritmo, que já faz parte da vida de tanta gente e vive uma ascensão grande."

Ao chegar na capital paulista, a cantora afirma que se deparou com visões estreitas do que é ser nordestino. "O eixo Rio-São Paulo é onde realmente circula o dinheiro, mas existe uma luta para desmistificar a nossa imagem. A nossa cultura popular é maravilhosa, mas as pessoas historicamente criaram personagens. Isso é uma das coisas mais difíceis para encarar nesse rolê", desabafa a cantora, que gosta de ressaltar elementos nordestinos presentes no dia-a-dia.

ORORO - R&B, trap e pop
Ororo, nome artístico de Lorenna Britto, 22, mora no bairro da Encruzilhada (Foto: HoodCave/Divulgação)
Ororo, nome artístico de Lorenna Britto, 22, mora no bairro da Encruzilhada (Foto: HoodCave/Divulgação)

Ororo, nome artístico de Lorenna Brito, 22, mora no bairro da Encruzilhada, na Zona Norte do Recife, e teve sua estreia em uma parceria com o trapper JOMA, na lovesong Twix. Desde então, ela tem apostado em uma estética que mescla R&B, trap e pop. "Eu tenho sentido que essa é uma tendência forte. Esses ritmos se confundem bastante, na verdade, pois hoje as plataformas digitais trouxeram essa possibilidade de misturar muito. É um novo R&B com pegada mais acelerada", conta a artista, que faz parte da produtora de trap HoodCave, que agrega nomes como NexoAnexo.

A cantora já lançou seis faixas, uma deles é um remix de Where have you been, de Rihanna, principal inspiração da pernambucana. O single mais recente, Toque do celular, com Jovem Ralph, foi lançado no último sábado. O clipe foi inspirado em Obsessed (2009), sucesso de Mariah Carey, um ícone do R&B. "Assim como no dela, um cara me persegue o tempo todo, mas através de ligações. Eu tento sempre fazer parte de vários processos artísticos, tentando segmentar um encontro comigo mesma. Eu faço pensando que mais meninas podem se identificar comigo, como me identifiquei com Rihanna."


Como desde os anos 1990 o R&B é bastante ligado ao rap, é necessário dialogar bastante com o cenário hip hop, historicamente dominado por homens. "Trabalhando como social media, notei como era mais fácil para os meninos conseguirem admiradores. Eu sinto que para os homens é mais fácil abraçar outros homens do que consumir mulheres. Ainda sinto um pouco, mas também acho que isso vem mudando", avalia a cantora, que também pretende dialogar com reggaeton e dancehall.

MAICÃO - O inusitado R&Brega
Maicão, nome artístico de Marlon Lima, 20, é de Camaragibe, na RMR (Foto: Selo Musical R$/Divulgação)
Maicão, nome artístico de Marlon Lima, 20, é de Camaragibe, na RMR (Foto: Selo Musical R$/Divulgação)

Maicão, nome artístico de Marlon Lima, 20, é o artista de R&B do Selo Musical R$, que conta com o trapper Frizz, nomes de produção musical e das artes visuais. "Optei por essa vertente porque gosto de cantar, algo menos comum no rap, e minhas composições também são pensadas para esse ritmo. Por isso, gravei uma mixtape chamada Mágoas de março, totalmente de R&B. A faixa que dá título ao EP tem influência do brega, algo que eu sempre quis fazer, então categorizei a música como um R&Brega. Foi uma brincadeira, mas acabou dando certo”, explica o jovem, morador de Camaragibe, na RMR, e estudante de ciências sociais na UFRPE.

Impulsionado pela repercussão de Mágoas de março - um trocadilho com o clássico de Tom Jobim -, o cantor lançou Tu sabe bem, com produção musical de Sebasty. A faixa é uma regravação de Get You, do canadense Daniel Caesar, e dá continuidade à proposta de "R&Brega". A mistura dos ritmos, aliás, prova como o brega é um ritmo mutável e que dialoga com gêneros contemporâneos - algo que ocorre com o brega-funk, o tecnobrega do Pará e, mais recentemente, o trapbrega (ou bregatrap) do Recife.


"Nós usamos elementos do brega romântico com a forma de cantar do R&B, de um jeito suave. É muito interessante pensar que essas estéticas combinam, porque em algum momento o brega já foi influenciado indiretamente por isso. Sou muito fã de Lucky Daye, Jacquees, Ludmilla, mas também curto Banda Torpedo, Priscia Senna e Banda Bandida, que inclusive tem uma música com uma introdução bem R&B e que me ajudou a chegar nessa mistura. O brega dá uma vida na música", completa.
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