Diario de Pernambuco
Diario de Pernambuco
Notícia de Viver

Tradição

Cavalo Marinho percorre seis cidades de Pernambuco com aula-espetáculo

Publicado em: 09/11/2019 14:36

O Cavalo Marinho tem 40 anos de existência. Foto: Samuel Calado/DP

Viajar Pernambuco com um projeto itinerante de aula-espetáculo. Foi isso que fizeram os dezenove brincantes do Cavalo Marinho Estrela de Ouro de Condado, que é Patrimônio Vivo de Pernambuco. A proposta foi idealizada pelo professor e produtor Clebio Marques com a finalidade de promover a cultura popular aos estudantes da rede estadual de ensino. Ela contou  incentivo do Funcultura via edital de 2018.  “O projeto é singular. A aula-espetáculo já é vivenciada no Funcultura, contudo, não no formato proposto, onde há uma comunicação artística e o público alvo são os estudantes”. 

Foram cinco dias de interação e a equipe de reportagem do Diário foi a única a acompanhar o grupo durante todo o processo, realizando a cobertura em tempo real nas plataformas digitais e portal. Uma vivência marcada por risos, histórias de superação e amor pela manifestação cultural. A família do Cavalo Marinho Estrela de Ouro esbanja alegria e traz na essência um elo muito forte que une as quatro gerações. Esse elo é o amor. Juntos, eles já enfrentaram várias dificuldades, como contou seu Sebastião Pereira de Lima, 83, mais conhecido como Martelo, que incorpora o personagem Mateus há mais de 60 anos. "Nós somos várias famílias em uma só. Por pouco o brinquedo popular iria acabar, mas fomos batalhadores e demos continuidade“. O título de Patrimônio Vivo de Pernambuco outorgado em 2018 ajudou nesse processo de fortificação, fazendo com que ele se mantivesse ativo durante o ano inteiro. 

Foto: Samuel Calado/DP

Nas seis cidades das quatro macrorregiões do estado por onde passaram, eles se interagiram com grupos locais de forte expressão da cultura popular. O circuito começou na segunda-feira (4),  pela cidade de Condado, na Zona da Mata Norte. O município é conhecido como “A terra do cavalo-marinho” e é também a casa do Estrela de Ouro. Eles se apresentaram junto ao Maracatu Leão de Ouro, que tem quase 50 anos de existência. A apresentação na Escola Júlio Correia emocionou a estudante Lucrécia Alexandre, 15. "Foi uma experiência muito boa. Adorei a surpresa e fiquei encantada com cada movimento que vi. Espero que tenham mais apresentações como essas na escola". A gestora da instituição, Mariluce Felix dos Santos, disse que projetos como este fortalecem a cultura e levam para os estudantes uma outra forma de aprendizagem. "Temos uma comunidade bastante atuante na cultura popular. Muitos alunos nossos participam do grupo. Então, isso só mostra como é importante trazer esse movimento dentro da nossa escola". 

Foto: Samuel Calado/DP

Ainda na Zona da Mata Norte, a segunda parada foi na Escola Estadual Agamenon Magalhães, de Tracunhaém, onde dividiram palco com o Coco de Roda Panela de Barro. “Por estar inserido na Mata Norte, devemos dar valor às manifestações da nossa região. A apresentação foi muito bem vinda, pois faz com que os estudantes conheçam outras manifestações e aumentem o repertório cultural", afirmou Maurício Brito, diretor da escola.

Martelo dá vida ao personagem Mateus há 60 anos. Apresentação no Galpão das Artes, em Limoeiro.  Foto: Samuel Calado

No mesmo dia, ainda deu tempo de se apresentar com o espetáculo no Galpão das Artes, em Limoeiro, no Agreste Setentrional. O espetáculo à noite serviu para ajudar instituições filantrópicas através do ingresso social equivalente a uma pacote de leite em pó. Os assentos do teatro ficaram lotados e toda a arrecadação ajudará três instituições de caridade. “Estamos muito felizes. Serão agraciadas a Associação Espírita Maria José Santos, o Pontinho de Luz Regina Celli e a Seara Espírita Maria Madalena”, disse o coordenador do teatro Fábio André de Andrade Silva.

Boi Cara Branca, de Limoeiro. Foto: Samuel Calado/DP

Na terça-feira (5), ainda em Limoeiro, o grupo apresentou a ação na quadra da Escola de Referência em Ensino Médio Austro Costa, que desenvolve um importante trabalho de arte e cultura popular.  O estudante Vagner Moura, 16, definiu a vivência como “épica”. “Foi impressionante e super construtiva. Era como se a gente estivesse dentro da história do cavalo-marinho. Fiquei bastante feliz em vivenciar e acho super importante ter essa ação na escola". Já a interação com o Boi Cara Branca, impressionou a todos pelas acrobacias da "tourada" e envolvimento com o público. Eles estão há 23 anos enaltecendo a raíz indígena nos carnavais de Pernambuco.

Multiartista Anderson do Pife. Foto: Samuel Calado/DP

Na quarta-feira (6), os brincantes vivenciaram a atividade em Caruaru, no Agreste Central do estado. A aula-espetáculo aconteceu na Escola de Referência em Ensino Médio Nelson Barbalho e foi marcada pelo intercâmbio entre o Estrela de Ouro e o artista Anderson do Pife. Uma grande ciranda aproximou a comunidade escolar dos brincantes.

Músicos do Cavalo Marinho Estrela de Ouro. Foto: Samuel Calado/DP

Para a gestora Geralda Dutra, um projeto como esse tem muito a acrescentar no ambiente educativo. "Pernambuco é cheio de cultura e nada mais justo do que a gente ter uma aula-espetáculo com o cavalo-marinho, mostrando toda a nossa riqueza cultural". 

Apresentação do Cavalo Marinho Estrela de Ouro no 14ª Encontro de Xaxado em Serra Talhada. Foto: Samuel Calado/DP

Após a apresentação na terra do forró, os brincantes seguiram para Serra Talhada, no Sertão do Pajeú, onde participaram da noite de abertura oficial do 14º Encontro Nordestino de Xaxado, como grupo convidado. A festividade trouxe companhias de diversas regiões do Brasil. “Tivemos uma linda estreia. É tão raro ver eventos de grupos de cultura popular, e há 14 anos Serra Talhada vem desenvolvendo esse projeto que fortalece a cultura nordestina. Ter grupos de outras cidades e estados é muito importante para nós“, afirmou o prefeito Luciano Duque. 

Interação na Escola Cornélio Soares, em Serra Talhada. Foto: Samuel Calado/DP

Na quinta-feira (7), a ação aconteceu na Escola de Referência em Ensino Médio Cornélio Soares e contou com a participação dos “Cabras de Lampião”, que enaltecem o xaxado através da dança e da musicalidade. "Foi uma honra ter sido a única escola do Sertão a ser agraciada com o projeto. Somos gratos e esperamos uma próxima oportunidade de tê-los novamente", contou a gestora Dalla Cilene.  "Eu achei mágico. A apresentação foi muito forte e empolgante. É importante demais ter esse projeto na escola, pois a gente aprende mais sobre a nossa identidade", ressaltou a estudante Adrielly Milena. 

Grupo Cabras de Lampião, de Serra Talhada, na interação com o Cavalo Marinho Estrela de Ouro. Foto: Samuel Calado/DP

A passagem pela terra de Lampião, pode ser considerada uma das mais marcantes desse circuito. Houve um momento da apresentação em que ao som do xaxado, os dois brinquedos compartilharam movimentos dos respectivos ritmos. A escola entrou em cena e os estudantes, junto aos brincantes participaram da brincadeira. "Foi o único grupo que chamou para se unir e eu achei aquilo emocionante. Achei tão interessante que eu reduzi o tempo da apresentação da gente. Vi o povo da gente ensinando o cavalo-marinho e eles ensinando o xaxado", relatou Mestre Biu Alexandre, presidente do Estrela de Ouro. No ônibus, após a apresentação, estavam todos com o celular na mão assistindo aos vídeos da apresentação anterior e comentando entre eles o sucesso da performance. 

Vivência na Escola Caio Pereira, no Alto José Bonifácio. Foto: Samuel Calado/DP

O circuito encerrou na manhã da sexta-feira (08), na Escola Caio Pereira, localizada no bairro do Alto José Bonifácio, na Zona Norte do Recife. Lá o Estrela de Ouro interagiu com o Caboclinho Carijós do Recife, a tribo mais antiga em atividade do Brasil. A gestora Neuza Pontes, da Gerência Regional de Ensino Recife-Norte, esteve no evento representando a Secretaria Estadual de Educação e ficou encantada. "Receber esse movimento traz para os nossos estudantes a força da nossa cultura e a mistura de ritmos, de raças e de diferenças".

Clébio Marques adianta que em março, outro projeto será vivenciado nos mesmos moldes, mas em cidades e grupos culturais diferentes. Será a vez do Caboclinho Tribo Carijós do Recife, e também Patrimônio Vivo de Pernambuco, experimentar a mesma aventura. O produtor adianta que já tem datas e locais definidos. “O evento está programado para acontecer de 9 à 13 de março passando por cidades de todas as regiões do estado”. 
 
 
 
Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.
Sobre Vidas: Nivia e o empoderamento de mulheres no Coque
DP Auto na Tóquio Motor Show - Tudo sobre a Nissan
Sérum, pele natural, sombras coloridas e blush cremoso
Lula: sou um homem melhor do que aquele que entrou na cadeia

Resistência nordestina em cartaz

Diego Rocha *
Celebrando a resistência da arte nordestina e a arte nordestina de resistir, o 21º Festival Recife do Teatro Nacional está em cartaz na cidade para confirmar a vocação de um povo à resiliência e à criatividade. Até o próximo dia 24, a programação montada com muita assertividade pela Prefeitura do Recife irá apresentar 12 espetáculos em vários teatros da cidade, entre eles seis montagens nacionais jamais vistas na capital do Nordeste.
Mas não está toda no ineditismo a urgência que esses espetáculos carregam. Mas também e principalmente na referência e reverência que muitos fazem à estética e às temáticas fincadas no árido solo fértil do Nordeste. Alguns textos, como o da montagem Ariano %u2013 O Cavaleiro Sertanejo, da companhia carioca Os Ciclomáticos sequer foram produzidos no Nordeste. Mas sabem, bebem e comungam do povo que somos. Foram buscar inspiração em autores ensolarados como Ariano Suassuna e os tantos tipos e símbolos que ele fundou e transportou do imaginário nordestino para o mundo.
Há na programação citações ainda mais explícitas à nossa produção teatral. Parido do punho do próprio Ariano, em carne e pena, o clássico Auto da Compadecida chega ao Festival com sotaque mineiro, numa belíssima montagem do Grupo Maria Cutia, com a direção cênica precisa e sensível de Gabriel Villela, que conseguiu unir a cultura do cangaço pernambucano ao barroco mineiro, sem sair da trilha aberta pelo Movimento Armorial de Ariano.
São montagens que nos representam e, ao mesmo tempo, nos apresentam a nós mesmos, além de nos hastear bandeira a congregar territórios artísticos, afetivos e cívicos, num país assombrado e repartido por um projeto de poder excludente. Em cima e embaixo dos palcos, durante e depois do 21º Festival Recife do Teatro Nacional, que a arte e a força nordestina persistam farol aceso a nos guiar.

* Presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife

Galeria de Fotos
Grupo Diario de Pernambuco