Cinema Funcionário do IML conversa com defuntos em novo terror nacional

Por: Emannuel Bento - Diario de Pernambuco

Publicado em: 10/10/2019 10:52 Atualizado em:

A trama é protagonizada por Stênio (Daniel de Oliveira), um funcionário noturno do IML tem o dom de conversar com os cadáveres. Foto: Pagu Filmes/Divulgação
A trama é protagonizada por Stênio (Daniel de Oliveira), um funcionário noturno do IML tem o dom de conversar com os cadáveres. Foto: Pagu Filmes/Divulgação
Quando trabalhou como repórter policial no antigo jornal Agora São Paulo, em 2004, o jornalista Marco de Castro (1947-2018) escreveu Morto não fala, um conto de horror inspirado no cotidiano desse ofício, com noites do IML e histórias de violência que permeiam as periferias das grandes cidades. Ele só não sabia que, futuramente, esse conto iria virar um filme nas mãos do cineasta Dennison Ramalho, que foi diretor-assistente em Encarnação do demônio (2008), filme de José Mojica que trouxe o ícone Zé do Caixão de volta ao cinema. Também foi coautor das séries Supermax (2016) e Carcereiros (2017), ambas para a TV Globo.

O longa-metragem de terror estreia no circuito comercial brasileiro hoje, após rodar por 30 festivais nacionais e internacionais desde julho de 2018, colecionando alguns prêmios como Fantasia Film Festival, do Canadá e Mórbido Fest, do México. Com coprodução entre Casa de Cinema de Porto Alegre, Globo Filmes e Canal Brasil, Morto não fala conta com vários rostos conhecidos no elenco. A trama é protagonizada por Stênio (Daniel de Oliveira), um funcionário noturno do IML que simplesmente tem o dom (ou maldição) de conversar com os cadáveres que chegam durante a madrugada. O motivo do poder não é esclarecido, ele simplesmente o tem (o que às vezes até dá a impressão de que os papos são alucinações).

Nessas conversas com os mortos - que possuem vozes macabras e movimentam seus rostos através do uso de efeitos de CGI - Stênio acaba tendo informações privilegiadas sobre crimes, assassinatos e intrigas pessoais. Os diálogos são tratados com naturalidade, criando uma esfera de terror psicológico e social, já que as conversas sempre remetem às mazelas da periferia - justamente o universo que Marcos de Castro refletia em seu conto.

Os filhos do casal, Edson (Cauã Martins) e Ciça (Annalara Prates), não são poupados das cenas de sofrimento. Foto: Pagu Filmes/Divulgação
Os filhos do casal, Edson (Cauã Martins) e Ciça (Annalara Prates), não são poupados das cenas de sofrimento. Foto: Pagu Filmes/Divulgação
Stênio não compartilha o conteúdo das conversas com ninguém. Até que descobre que sua esposa, Odete (Fabíula Nascimento), está o traindo com Jaime (Marco Ricca), dono de uma mercearia do bairro. O casamento já vive uma fase decadente e, em uma crise de ciúmes, ele usa das informações que obteve com cadáveres de criminosos para arquitetar o assassinato do amante. No momento da emboscada, as coisas saem do controle.

Ao usar do mundo dos mortos para uma vingança pessoal, no entanto, Stênio quebra uma espécie de lei entre o mundo dos vivos e dos mortos. Com isso, o filme vai previsivelmente enveredando para um terror mais tradicional, com uma perspectiva sobrenatural. Algumas cenas de “assombração” são originais, como quando o protagonista precisa atravessar uma sala cheia de armadilhas com linhas de cerol ou durante uma cena de sexo que acaba se transformando em perseguição.

O filme se perde um pouco ao apostar nesse potencial da assombração. Foto: Pagu Filmes/Divulgação
O filme se perde um pouco ao apostar nesse potencial da assombração. Foto: Pagu Filmes/Divulgação
Outras são um pouco cansativas, pois o diretor parece obstinado em seu objetivo de chocar o espectador criando um filme de terror nacional que seja consumido pelo público que gosta até mesmo do “horror pastelão”. O longa até aposta em alguns sustos, mas esse não chega a ser o enfoque. Algo interessante é que os filhos do casal, Edson (Cauã Martins) e Ciça (Annalara Prates), não são poupados das cenas de sofrimento e constroem a atmosfera mórbida junto com o personagem de Daniel de Oliveira. O clima obscuro é reforçado pela fotografia de André Faccioli e pela direção de arte de Fabio Goldfarb. O desfecho de Morto não fala não chega a ser conclusivo, podendo significar várias coisas ou até mesmo nada.

Nas cenas finais, o filme se perde um pouco ao apostar nesse potencial da assombração, vitimizando o protagonista que também cometeu transgressões morais. A premissa de um funcionário do IML que conversa com cadáveres era bastante interessante e poderia ter sido mais explorada durante todo o longa-metragem. Ainda assim, Morto não fala é uma boa película em um gênero ainda pouco explorado no cinema brasileiro.

Assista ao trailer:




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