Bahia Disco 'Obatalá' resgata a importância do candomblé na cultura brasileira Com participações especiais, o disco tem produção de Flora Gil

Por: Irlam Rocha Lima -

Publicado em: 06/10/2019 12:25 Atualizado em: 06/10/2019 12:31

Daniela Mercury participa do disco em homenagem à Mãe Carmem. Foto: Ulisses Dumas/Divulgação.
Daniela Mercury participa do disco em homenagem à Mãe Carmem. Foto: Ulisses Dumas/Divulgação.
Um conjunto de esforços, empreendido por Iuri Passos, Yomar Asogbá e Luciana Baraúna, filhos do Gantois, do Grupo Ofá; além de Alê Siqueira, produto musical; Flora Gil, produtora artística e um leque de grandes intérpretes da música popular brasileira, resultou no Obatalá — Uma homenagem a Mãe Carmem, álbum que está sendo lançado em parceria pela Gege Produções e o selo Deck.

“Esse trabalho tem uma função didática, pedagógica de instrução, de valorização e de referência para a Bahia e o Brasil como um todo. O candomblé é um elemento da civilização brasileira e esse disco será um aspecto importante do candomblé”, avalia Gilberto Gil, que teve participação ativa no projeto.

Ainda de acordo com Gil, essa iniciativa objetiva preservar a memória da música sacro-afro-brasileira, registrando e entregando esse legado cultural para as próximas gerações. “Em tempos de intolerância religiosa, o momento é propício para a concepção da obra. Somos um país, uma nação, uma sociedade que acolhe matrizes de várias procedências do ponto de vista religioso. A dimensão da religião afro-brasileira, que também está presente no ritmos, proporciona a disseminação deste saber para o campo da música brasileira”, afirma o tropicalista.

Grupo Ofá

Segundo Iuri Passos, a ideia de produzir o Obatalá surgiu há 10 anos. “Participamos de vários editais, mas não fomos contemplados. Aí procuramos a Flora (Gil) que, em contato com parceiros e empresas, conseguiu fazer a captação de recursos, e obteve a adesão dos cantores e cantoras, o que foi determinante para viabilização e a realização do projeto. Nós, do Grupo Ofá, fizemos a pré-produção, e as gravações ocorreram em duas semanas”, conta.

Cada convidado, em solo e dueto, faz referência a um Orixá nas 17 faixas do CD. Gil, por exemplo, saúda Xangô; e em duo com Marisa Monte canta Oxum. Jorge Benjor e Carlinhos Brown e Mãe Carmem saúdam Oxalá; Alcione a Oxóssi; Daniela Mecury, Nla; Ivete Sangalo e Matheus Aleluia, Oxagiyan, Margarth Menezes e Márcia Short, Oduduwa.

Mãe Carmem é celebrada por Matheus Aleluia (Obatalá: Uma homenagem à Mãe Carmen), Zeca Pagodinho e Nelson Rufino (A força do Gantois) e Gilberto Gil e Gal Costa (Carmem). A homenageada é também a intérprete de duas canções do repertório: Abaniwaye e Orixá Babá — Orixá Oxalá.

Obatalá — Uma homenagem à Mãe Carmem, além das versões em CD — com encarte ilustrado e traduções das músicas do yorubá para o português — e em vinil, também está disponível em todas as plataformas digitais (Spotify, Deezer e Apple Music).

Obatalá — Uma homenagem a Mãe Carmem
CD com 17 faixas e participação de Vários artistas, entre eles Gilberto Gil, Ivete Sangalo, Daniela Mercury, Marisa Monte, Alcione, Carlinhos Brown e ZecaPagodinho. Lançamento: Gege/Deck. Preço sugerido: R29,90

Tradição seguida

Carmem Oliveira da Silva, 90 anos, é descendente das africanas fundadoras do primeiro candomblé de origem iorubana. Seguindo a tradição matriarcal, é filha mais nova de Mãe Meninha. Atual Iyalorixá do Gantois, Mãe Carmem de Oxaguian foi iniciada aos 7 anos de idade, nasceu e cresceu dentro da Casa do Candomblé, e viveu grande parte dá vida como Iyalexé do Gantois. Desde 2002, por determinação dos Orixás, assumiu o cargo de Iyalorixá do Terreiro do Gantois, seguindo os costumes e tradições de sua família, dando continuidade a essa linhagem de sabedoria, de religiosidade e preservação das matrizes africanas no Brasil.

Entrevista// Flora Gil
Foto: Ulisses Dumas/Divulgação.
Foto: Ulisses Dumas/Divulgação.

Anteriormente, qual era sua relação com Mãe Carmem e o Terreiro de Gantois?
Conheci o Gantois por volta de 1987, quando morei na Bahia com Gil, época em que ele era vereador. Eu já tinha muitas amigas filhas de santo da casa. Anos depois, quando Mãe Carmem assumiu o terreiro, me senti sua filha e assim sigo até hoje. Fiz santo, sou filha de santo, fiz minha obrigação, em 1994, com Augusto Cesar pai de santo no seu próprio terreiro nos arredores de Salvador, ele mesmo filho de santo de Mãe Menininha do Gantois. Após sua morte, há três anos, fiquei ainda mais próxima de Mãe Carmen.

Quando você tomou conhecimento do projeto?
Iuri e Yomar Passos, ambos filhos de santo do Gantois e integrantes do Grupo Ofá, me convidaram para tentar viabilizar financeiramente o projeto. Pediram que eu tentasse ajudá-los a conseguir o financiamento com alguns parceiros e amigos. Conseguimos os recursos pra realizar o projeto que era artisticamente concebido e produzido por eles. Nós já havíamos trabalhado anteriormente no CD Odum Orim, que foi lançado em 2000 também pelo selo Gege. Porém, diferentemente de Odum Orim, Obatala é cantando, em sua maioria, por cantores conhecidos do grande público, além de uma faixa cantada por Mãe Carmem.

Os artistas — cantores e cantoras — ao serem convidados para participar, aceitaram de imediato?
Ficamos, eu e Iuri, perplexos com a aceitação dos cantores que convidamos. Fora um ou dois, que estavam com problemas de agenda, todos os outros participantes fizeram de tudo para estar na Bahia na época das gravações. Eu me lembro de Alcione se dispondo a pegar um avião somente para vir gravar em Salvador. Zeca Pagodinho permaneceu mais dois dias na Bahia, depois de um show que fez na cidade, apenas para gravar para Mãe Carmem. Marisa Monte ficou muitíssimo grata pelo convite para cantar para Oxum; Gal é filha de santo do Gantois e cantou com Gil com grande alegria e amor. Aí fomos fechando as participações maravilhosas de todos os nossos queridos convidados.

Que importância tem esse registro, artisticamente, e para o culto da matriz africana?
Artisticamente é muito importante pelo registro das canções de exceção, por um conjunto de artistas devotados, no sentido respeitoso, com essa excepcionalidade de repertório. Obatalá é um trabalho muito simples e extremamente cuidadoso. É também tão importante para o culto da matriz africana que tomo a liberdade de deixar registrada aqui a fala de Gil sobre o assunto: “Em tempos de intolerância religiosa, o momento é propício para a concepção deste trabalho”.

A escolha para a interpretação dos orikis foi feita pelos intérpretes? 
Foi feita pelos diretores musicais, mas sempre passando pela aprovação do Gantois. Não tivemos nenhum contratempo com as participações. Tudo fluiu tranquilo em todo o processo de escolhas das músicas e dos intérpretes. Achamos, durante todo o processo de realização, que Oxalá tomava a frente das iniciativas e providenciava o bom curso das realizações.

Para eles, houve dificuldade na assimilação do dialeto? 
Em alguns casos a pronúncia correta das palavras em Iurobá foi objeto de cuidado especial por parte de Iuri e Yomar que são conhecedores dessa língua que se mantem viva no ambiente do candomblé.

Como Gil se integrou a essa homenagem e que avaliação ele fez do resultado?
Gil primeiramente ficou muito feliz por ter sido escolhido para cantar para Xangô, seu orixá. Ele acompanhou a produção do disco muito de perto. As reuniões aconteciam em nossa casa, as minhas dúvidas eu esclarecia com ele. Gil me ajudou muitíssimo no processo da pré-produção. Quando começamos a gravar, ele sempre escutava as faixas antes de estarem prontas. Enfim, tudo isso certamente pelo apreço que ele tem pelo candomblé. Quanto à avaliação do resultado, ele gosta muito do disco e acha que não teria ficado tão bom sem a experiência, competência e a dedicação de Alê Siqueira e do Grupo Ofá.


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